Crítica | Expresso do Amanhã – 1X07: The Universe Is Indifferent

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Cheguei a indagar, na crítica do episódio anterior, o que seria do Perfuraneve sem a Melanie. E essa pergunta persiste em The Universe is Indifferent, ganhando outras camadas muito interessantes que deságuam no que parece ser um breve desabafo sincero dela para Josie que pode ser resumido como “eu teria feito um trem diferente, mas herdei essa estrutura”. Trata-se, aparentemente, de sua justificativa macro para todos os seus atos como mantenedora da aparente ordem estática de classes nos 1.0001 vagões, o que obviamente traz sérios problemas embutidos e não a exime do que se sente “forçada” a fazer.

No entanto, Melanie é muito mais inteligente do que essa justificativa genérica nos leva a acreditar. Sabemos o quanto ela genuinamente sente pelos passageiros como um todo e sua preocupação parece carregar um histórico que ainda não foi sequer por um segundo abordado. Seja como for, para fins do episódio sob análise, a Voz do Trem não só esconde o segredo de que o Sr .Wilford já morreu (ou, como começo a desconfiar, nunca existiu como as pessoas acham que ele era), como também age como um déspota que faz o que bem entende, sem dar satisfações a mais ninguém que não seja ela mesma e, por vias transversas, seus dois companheiros de locomotiva. Seu interrogatório criminoso de Jodie que, surpreendentemente, leva à morte uma das coadjuvantes que mais vinha ganhando peso e importância na narrativa, prova inclusive que ela sequer se curva às regras que criou, ignorando o chefe da segurança Roche e investigando sozinha o paradeiro de Layton.

Em termos de ação, o episódio foi sem par. Sai o tipo de ação mais simples que vimos quando ela arregaça as mangas para literalmente consertar o trem e entra uma investigação veloz e furiosa que a leva a Terrence, depois a Zarah e, finalmente, a Josie, deixando terra arrasada ao seu redor e com o clímax levando um Layton absolutamente furioso prometendo contar o grande segredo para ninguém menos do que LJ, a psicopata de plantão. Em outras palavras, o status de Melanie como mantenedora da situação não é mais sustentável, pois um segredo compartilhado não é mais um segredo, ainda que a função de Melanie como o grande cérebro que consegue manter tudo funcionando não é algo facilmente substituível mesmo que os poderosos (ou pelo menos eles se acham poderosos) Folgers assim desejem.

Antes de partir para a ignorância completa, Layton continua seu planejamento de uma revolução para eliminar a divisão de classes. É interessante como esse tipo de conversa é abordada de maneira rasteira, com a morte de Josie (reparem como Melanie luta contra ela mesma para fazer o que faz) quebrando talvez o momento em que ele explicaria melhor seu plano. Afinal, mesmo que as classes eventualmente deixem de existir, a hierarquia simplesmente não pode sumir como em um passe de mágica, pois, com ela, todo o semblante de organização desse frágil ecossistema desaparece. O que Layton prega exatamente ainda não está claro: um sistema comunista em que tudo pertence a todos, mas que inevitavelmente – como a história nos mostra – carrega a divisão de classes de uma outra maneira, muitas vezes bem mais ineficiente do que no capitalismo; ou uma anarquia generalizada? A primeira solução tende a apenas mudar o poder de mãos e manter o status quo e, a segunda, a destruir de vez os últimos remanescentes da humanidade.

No final das contas, Melanie, agora, está completamente acuada, mesmo que ela tenha erroneamente dispensado os avisos de Ruth sobre a tentativa dos Folgers de derrubá-la, permanecendo ignorante sobre o tamanho do problema. Mas o fato é que tanto os habitantes da Terceira Classe quanto os Fundistas, sob a liderança de Layton e com a ajuda valiosa de Bess Till (cuja participação vem aumentando a olhos vistos), parecem prontos para uma revolução cujo rumo ainda não foi completamente explicado, assim como qual é o propósito exato do envolvimento de LJ nesse jogo de poder.

A sensação é de que a série é uma panela de pressão, com Layton manipulando as massas e LJ agora para uma revolução com viés de vingança, os Folgers manipulando a aristocracia e o poder de polícia para manter o status quo e, finalmente, Melanie usando de todas as suas armas, o que inclui chantagem, tortura, assassinato e o sequestro de Miles para, na visão dela, manter a estrutura que seu predecessor estabeleceu como sendo chave para o trem que controla. Não parece haver, portanto, nenhuma saída boa que não seja uma explosão violenta com um bom número de vítimas que pode levar o Perfuraneve ao caos completo. Se lembrarmos que a série começou enganosamente, há sete episódios, apenas como um whodunit desapontador, impressiona o ponto em que chegamos tão rapidamente.

Expresso do Amanhã – 1X07: O Universo é Indiferente (Snowpiercer – 1X07: The Universe is Indifferent, EUA – 28 de junho de 2020)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Helen Shaver
Roteiro: Donald Joh
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Iddo Goldberg, Susan Park, Katie McGuinness, Sam Otto, Sheila Vand, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Happy Anderson, Shaun Toub
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.