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Crítica | Expresso do Amanhã – 1X09 e 10: The Train Demanded Blood / 994 Cars Long

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

É perfeitamente compreensível a escolha da TNT em soltar os dois episódios finais de Expresso do Amanhã no mesmo dia, mas o penúltimo episódio, O Trem Exigia Sangue, fica muito melhor pareado com o anterior, Revoluções, com ambos tratando especificamente da Revolução Fundista, do que com 994 Vagões, o último da temporada que traz uma completa mudança no status quo. Por essa razão, decidi abordar cada episódio separadamente a seguir (o apanhado geral da temporada e o ranking de episódios sairão dia 16/07):

1X09
O Trem Exigia Sangue

O penúltimo episódio da temporada é uma sucessão de lições interessantes. A mais importante delas é a técnica, pois o roteiro de Aubrey Nealon sabe construir tensão de forma exemplar, mesmo quando recorre a momentos comuns, clichê mesmo, como é o salvamento de Melanie no último segundo. Percebe-se muito claramente o cuidado em lidar com todos os lados da briga depois do clímax sanguinolento no episódio anterior que, ainda bem, não se repete da maneira óbvia, algo que a direção de James Hawes maneja com excelência, repetindo o feito de Everardo Gout antes dele.

Temos a já citada Melanie no corredor de execução, Layton percebendo que sua revolução fracassou sem sequer começar direito e pensando em capitular depois que recebe um ultimato da Primeira Classe por intermédio de Pike e, finalmente, temos a Primeira Classe fazendo absolutamente tudo para sufocar – literalmente – os revoltosos. Nada fica esquecido ao longo do desenvolvimento do episódio e tudo vai aos poucos se encaixando, com a tensão aumentando vagarosamente.

A fuga de Melanie e sua decisão de ajudar Layton conversa bem com a revelação, para Layton, de que Zarah, a traidora, fez o que fez porque estava grávida dele, o que o leva a efetivamente decidir sacrificar-se pelos demais, algo que só não acontece porque Melanie aparece. A circularidade na frase anterior não é sem querer e reflete exatamente o cuidado do episódio com os acontecimentos, ainda que ao mesmo tempo só ratifique aquilo que eu e diversos leitores já haviam percebido: o plano de Layton era mais furado do que queijo suíço. Sem aparentemente nenhuma preparação decente, os revoltosos até conseguiram provocar baixas sérias nos soldados de Nolan, mas, quando o episódio começa, eles já estão acuados e chega a ser irritante que Layton se mostra surpreso quando Pike chega para avisar que haverá um ataque com gás. Sério que nem ele nem mais ninguém pensou nessa obviedade? Sério que eles achavam que Nolan – ex-SAS, o que não é pouca porcaria – não iria colocar em movimento um plano para trucidar os Fundistas que atacam com paus e pedras? O jogo, aqui, era revolução e não… sei lá… biriba…

No entanto, esse problema não é um problema específico deste episódio, mas sim da série como um todo e é o que me impede de elogiá-la com toda a efusividade possível. A Revolução Comunista de Layton não é mais do que um sonho utópico que ele JAMAIS conseguiria vitória se não fosse ajudado com um efetivo plano que fizesse sentido. Eis que chega Melanie para mais uma vez mostrar que ela pode ser tirana, déspota, assassina, torturadora e o que mais quiserem dizer dela (e ela de fato é), mas ela não só é essencial para o trem como um todo, como também para qualquer chance de mudanças no status quo em que todos ali vivem. Sem Melanie não há trem e outra surpresa é notar que Layton estava simplesmente de acordo que ela fosse executada assim, sem mais nem menos, como mais uma revoltosa qualquer.

Em outras palavras, a outra lição é que nem todo déspota é déspota por capricho e que alguns deles podem ser efetivamente essenciais para o futuro de uma “nação”. Chega a ser horrível pensar assim, mas pragmatismo é algo que é completamente esquecido quando olhamos para o futuro sem olhar para os lados. Além disso, Layton recebe talvez a maior lição de todas quando ele chega ao ponto de ter que tomar uma decisão da mesma natureza que várias decisões que Melanie tomou ao longo de seus sete anos a frente do Perfuraneve. Para salvar a maioria, ele precisa sacrificar os prisioneiros, seus amigos ali, logo ao lado dele em um ato que se torna mais terrível ainda quando ele tenta salvá-los somente para descobrir que não pode. E o melhor e mais maquiavélico é que Melanie sabia que isso aconteceria e que Layton, para realmente conseguir suportar sobre seus ombros o que é comandar o trem, simplesmente teria que assumir esse tipo de responsabilidade. Foi um momento duro, triste, mas espetacular, com a direção de Hawes sobressaindo-se.

E claro, a Primeira Classe levou uma lição na base da lambada ao perceber que violência gera violência em dobro, com o plano de Melanie eliminando sete vagões, todos os soldados e o casal Folger de uma tacada só. Mas, claro, isso SE eles tiverem sido eliminados, já que os acontecimentos do último episódio podem mudar essa percepção e reintroduzir os personagens que, claro, estarão com sede de vingança.

1X10
994 Vagões

Encerrando a temporada, vem a grande revelação que, durante esse tempo todo, há um segundo trem circundando a Terra, trem esse que parece ser mais poderoso, mais tecnológico e mais cheio de provisões que o Perfuraneve e que potencialmente tem o mítico Sr. Wilford no comando e ninguém menos do que Alexandra Cavill (Rowan Blanchard), a filha que Melanie achava que tinha perdido, no mínimo em posição de destaque, isso se ela não for a própria Melanie de lá. Para quem já havia lido os quadrinhos originais franceses, esse segundo trem era mais do que esperado e sua entrada na história se dá de maneira muito parecida com o visto no episódio, ou seja, completamente do nada e exigindo muita explicação futura para que tudo se encaixe direitinho.

Muito de longe e sem abordar spoilers do quadrinhos, há que se considerar que um segundo trem é algo razoável de existir mesmo, talvez até mais do que dois, por uma regra básica: economia de escala. Se havia um bilionário com o objetivo de construir uma arca de luxo para então vender ingressos a quem pudesse comprar para se salvar do frio apocalíptico, então a lógica dita que mais arcas de luxo equivaleriam a mais ingressos vendidos. O que o Sr. Wilford pretendia fazer com tanto dinheiro considerando que o mundo acabou são outros quinhentos, mas o raciocínio se mantém. Além disso, é o que temos pelo momento. Não há escolha que não aceitar esse segundo trem e torcer para que Graeme Manson saiba explicá-lo de maneira consistente, não havendo nenhuma razão para duvidar da capacidade do showrunner em assim o fazer, diga-se de passagem.

O que é um pouco mais difícil de aceitar era que ninguém sabia da existência do segundo trem. Nem Melanie, nem seus engenheiros? Realmente estranho. E como é que os dois giraram a Terra durante sete anos sem se encontrarem, já que a lógica também dita que, se não fosse pelos mesmos trilhos, que pelo menos eles fossem paralelos, novamente por uma questão de economia. Mas, novamente, teremos que esperar a próxima temporada, que já foi produzida, para sabermos como é que o segundo trem permaneceu incógnito esse tempo todo.

Em termos narrativos, devo dizer que algo assim era também necessário. A temporada começou talvez rapidamente demais e Manson perdeu a oportunidade de desenvolver os personagens coadjuvantes, chegando até a matar alguns dos mais trabalhados como Josie. Da mesma forma, apenas a estrutura de revolução” não funcionaria por muito tempo. Portanto, uma mudança completa era importante e o segundo trem basicamente muda a percepção de mundo de todos no Perfuraneve e pode por por terra a luta de classes que Layton acabou de ganhar.

Mas toda a preparação para o cliffhanger, que conta até com uma sessão de hipnose (o que afinal é aquilo?) de Melanie somente para vermos Alexandra quando criança, é apenas metade do episódio. A outra parte é o dénouement da Revolução Fundista que mais uma vez demonstra o despreparo completo de Layton. No mundo normal, com recursos renováveis, é perfeitamente possível aceitar que a invasão de propriedade e saques façam parte do processo, mas isso se torna um absurdo completo quando os recursos mais do que finitos desse micro ecossistema em movimento são completamente destruídos por vândalos que parecem não ter o mínimo de bom senso. Ah, mas eu estou pensando como alguém privilegiado que não sabe o que é o sofrimento daqueles que não têm nada. Sim, pode ser, mas Layton precisava ter previsto isso e precisava ter organizado tudo de antemão. Se ele sequer tomou banho para tirar a sujeira e o sangue do rosto, quer dizer que ele estava ocupado. Mas só que não deve ter sido com qualquer coisa relacionada com colocar todo mundo nos eixos, talvez transformando vagões em refeitórios para servir refeições que muitos sequer sentiram o cheiro ao longo desses anos.

No entanto, talvez a natureza humana egoísta – porque sim, somos egoístas – fale mais alto mesmo em situações limítrofes como essa e o que Manson colocou na telinha tenha procedência, infelizmente. Seja como for, achei boa a forma como LJ acaba sendo tratada e como ela acaba criando um pequeno laço com Oz, outro pilantra. O mesmo vale para a empáfia, acidez e profundo desapontamento de Ruth que, em sua caracterização de completa beata devota ao “Santo Wilford”, não consegue enxergar um palmo a frente de seu nariz, algo que é ainda agravado pela aparente morte de Nolan, ainda que, novamente, a palavra chave seja “aparente” pois, como diz a regra do entretenimento mundial, “sem corpo, sem morte”.

Há muito tempo não via um cliffhanger tão escancarado em uma série e devo dizer que apreciei a coragem. Não será fácil arrumar tudo na próxima temporada, especialmente porque um novo elenco será acrescentado ao já existente, mas que a história dos sobreviventes do apocalipse gelado está interessante demais, ah, com certeza está!

Expresso do Amanhã – 1X09 e 10: O Trem Exigia Sangue / 994 Vagões (Snowpiercer – 1X09 e 10: The Train Demanded Blood / 994 Cars Long, EUA – 12 de julho de 2020)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: James Hawes
Roteiro: Aubrey Nealon (1X09), Graeme Manson (1X10)
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Iddo Goldberg, Susan Park, Katie McGuinness, Sam Otto, Sheila Vand, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Happy Anderson, Shaun Toub, Rowan Blanchard
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 44 min. (1X09), 45 min. (1X10)

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