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Crítica | Expresso do Amanhã – 2X05: Keep Hope Alive

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

Um dos mais irritantes comentários reincidentes que ouço ou leio por aí é que determinado acontecimento em filme ou série não foi “surpreendente” pois o comentarista “adivinhou” antes ou “já sabia, porque era óbvio” e isso seria um aspecto negativo, às vezes até mesmo ruim dessa ou daquela obra. Considero isso uma incompreensão profunda do que é uma obra audiovisual, algo que provavelmente vêm da necessidade constante de reviravoltas impressionantes para manter o espectador preso ao que está assistindo, o que obriga roteiristas e diretores a literalmente fabricarem twists quase que literalmente tirados da cartola para satisfazer essa parcela do público que não tem ideia de como isso é ruim.

Afinal, mesmo que alguém não consiga “adivinhar” (filme e série que se preze não é jogo de adivinhação e sim algo concatenado e lógico) determinado acontecimento, é necessário – necessário, assim mesmo negritado para toda a ênfase possível sem tornar o texto exagerado e brega – que ele decorra dos acontecimentos da narrativa. As melhores e mais inesquecíveis reviravoltas cinematográficas e televisivas vêm exatamente de bons roteiros que usam o twist como elemento narrativo, mas sem ficarem escravos deles. Porque estou falando sobre isso no começo de uma crítica de Expresso do Amanhã? Muito simples: Keep Hope Alive, coincidentemente dirigido por Leslie Hope (seria esse um twist também?), é um excelente exemplo de como trabalhar uma reviravolta – no caso bem light, mas mesmo assim uma reviravolta – de maneira a não só acompanhar a lógica da série, como, também e mais importante, retrabalhando a temática da manutenção de um status quo falso, protegido por uma elite, de forma a deixar todos os demais passageiros sob controle.

Claro que falo, aqui, do ping para não só confirmar que a conexão com mais um balão meteorológico, como também para dizer que ainda está viva em sua missão na superfície congelada do planeta que que Melanie desta vez não manda. Da mesma forma que ela manteve o segredo da (in)existência de Mr. Wilford na locomotiva do Snowpiercer por anos a fio de maneira a criar uma aura de segurança e tranquilidade que contribuiu e muito para manter seu controle sobre a população, agora Layton precisa fazer o mesmo sobre Melanie, algo que ganha aprovação imediata não só dos engenheiros, como também da própria Ruth Wardell. Falam mais alto a necessidade de se manter a ordem e a esperança e, claro, a importância de ludibriar o traiçoeiro Mr. Wilford, especialmente agora que se percebe efetivamente que há um plano em andamento vindo de Big Alice, algo que, antes, era apenas uma forte suspeita.

Mais interessante ainda do que isso é a fina ironia da coisa toda. Layton, o revolucionário, o homem do povo, o protetor dos fracos e oprimidos precisou, na qualidade de líder, valer-se do mesmo tipo de expediente que Melanie usou por sete anos, deixando a indagação no ar sobre em quanto mais tempo ele precisará usar o mesmo tipo de “métodos de persuasão” da engenheira-chefe? Note que não só a ideia de mentir partiu imediatamente de Layton, como ele não titubeou em assim sugerir, algo que contribui tremendamente para afastá-lo daquela figura heroica – e, sinceramente, perdida – que ele tentava construir. E, mais ainda, sua ordem para Pike eliminar Terence quando ele percebe a ameaça que ele representa, já é um sinal muito forte de que o personagem está realmente disposto a fazer o que for necessário para manter um semblante de paz e de esperança em seu trem.

Vale dizer que a execução do misterioso plano de Wilford, que também e por si só é outra reviravolta já que envolve os Brakemen, mas de maneira diferente da que esperávamos, como vítimas e não como algozes, provavelmente para parecer que o grupo foi eliminado por gente anti-Wilford, o que fará os pró-Wilford ganharem mais voz, polarizando os lados no trem, foi muito habilmente conduzida pela direção de Hope, com tomadas sucessivas e rápidas com cada assassinato, excetuando o líder que é “inadvertidamente” salvo por Layton e Roche. A tensão foi palpável e o cliffhanger muito interessante que promete colocar em xeque a suposta liderança de Layton, algo que interessantemente foi já atacada pelo pastor Logan em sua luta de boxe com Bess Till e que deu a entender que talvez ela seja a pessoa indicada para levantar a bandeira de união no trem ou pelo menos ela é um nome que Logan pode manipular mais facilmente se suas intenções não forem nobres.

Keep Hope Alive parece consolidar o que havia mencionado na crítica anterior: a ausência de Melanie, cuja aventura cheguei a cogitar que seria interessante vermos, mas que, agora, mudei de ideia, funcionou muito bem não só para criar suspense, como também para abrir espaço para que mais coadjuvantes ganhassem destaque, algo que sempre foi um problema na série. Some-se a isso acontecimentos que decorrem maravilhosamente bem de uma lógica interna infalível e pronto, eis que, definitivamente, na metade de sua 2ª temporada, Graeme Manson prova que Expresso do Amanhã está nos trilhos certos.

Expresso do Amanhã – 2X05: Mantendo as Esperanças (Snowpiercer – 2X05: Keep Hope Alive, EUA – 22 de fevereiro de 2021)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Leslie Hope
Roteiro: Tiffany Ezuma
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Lena Hall, Iddo Goldberg, Susan Park, Sam Otto, Sheila Vand, Roberto Urbina, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Rowan Blanchard, Sean Bean, Damian Young, Sakina Jaffrey, Chelsea Harris, Andre Tricoteux, Miranda Edwards
Duração: 47 min.

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6 comentários

Giovani 27 de fevereiro de 2021 - 20:00

Muito boa essa mudança do comportamento do Layton. Quantas vezes já vimos isso na história: alguém que ascende ao poder e isso o faz mudar e até seguir passos do líder deposto. Sensacional o jogo de xadrez entre o Layton e o Wilford. O pastor realmente parece ter um plano maior…a ver.

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planocritico 27 de fevereiro de 2021 - 20:01

Poder corrompe. Mas há duas formas de interpretar essa frase. A óbvia é a corrupção tipo a do Wilford. A outra é a que eu vejo acontecendo com o Layton e que parece ter acontecido com a Melanie lá atrás, ou seja, a perda da inocência e a aquisição da noção que se manter seguidor de princípios puros e imutáveis pode também ser ruim. O problema é que as duas corrupções tendem a convergir e aí já viu, né?

Abs,
Ritter.

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Ítalo Carvalho 27 de fevereiro de 2021 - 19:59

A jinju (ex-namorada da Till) desapareceu na 2° temporada

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planocritico 27 de fevereiro de 2021 - 20:00

Se o Miles que é o Miles apareceu por 10 segundos nessa temporada, não há como esperar espaço para a Sushi Woman que, ainda por cima, é apenas a ex de Bess.

Abs,
Ritter.

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Victor Martins 26 de fevereiro de 2021 - 20:54

A série só melhora, e acho que tá claro que o Pastor não é boa gente. Mas tô pronto pra passar pano quando derem o golpe pra tirar o Layton.

O ator que faz o Pike é muito bom.

Mas e as gavetas ? Será que estão deixando pra terceira temporada ?

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planocritico 26 de fevereiro de 2021 - 20:54

Os atores que fazem o Pike E o Terence são muito bons. Pena que o Terence se foi…

Mas eu concordo sobre o Pastor agora. Não via nada de “errado” nele antes, mas, agora…

Sobre as gavetas, boa pergunta. Considerando que até o Miles foi deixado de lado pelo momento, acho que é uma questão de foco e o foco agora é o Wilford.

Abs,
Ritter.

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