Home TVEpisódio Crítica | Expresso do Amanhã – 2X07: Our Answer for Everything

Crítica | Expresso do Amanhã – 2X07: Our Answer for Everything

por Ritter Fan
3107 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

Depois de acompanharmos a odisseia de pouco mais de um mês de Melanie fora do trem em Many Miles from Snowpiercer, episódio que se passou antes, durante e depois de A Single Trade, Keep Hope Alive e também de Our Answer for Everything e, provavelmente, o próximo capítulo, passamos a ver o que exatamente aconteceu no Snowpiercer que o levou a passar batido pela engenheira chefe perdida na neve. E a situação é bastante complicada, sendo catalisada pelos assassinatos concertados dos Breachmen por simpatizantes de Wilford com o objetivo que causar a discórdia entre as classes do trem.

A suposta democracia que Layton sequer conseguiu começar a implantar não tinha chance e ele, como líder, também não. O plano maquiavélico de Wilford vem da experiência de um magnata sem escrúpulos e é cirúrgico e também muito simples, criando uma divisão ainda mais aguerrida no trem (reino!) que ele considera que foi roubado dele. Essa fragilidade política de Layton leva ao desmantelamento final da paz e a revelação de que Wilford representa, para muita gente ali – basta ver a quantidade de luzes vermelhas simbólicas na belíssima sequência no trem naquela espiral montanhosa – a salvação, a literal “resposta para tudo” do título, remetendo à calma e prosperidade relativas de sete anos para quase todos (a exceção é sempre o pessoal do Fundo, claro) sob a batuta de Melanie, que, no final das contas, não podemos esquecer, “representava” o próprio Wilford, mesmo que tudo tenha sido uma fraude.

E é muito interessante e inspirado como a sequência inicial de Our Answer for Everything, com os oito mortos em um vagão, com o Pastor Logan em tese trabalhando nos últimos ritos e Boki lidando com a perda irreparável de seus amigos, serve de base narrativa para que o roteiro de Tina de la Torre crie todas as tramas do episódio. Temos, claro, as que decorrem diretamente dos assassinatos, ou seja, a investigação por parte de Bess Till que a leva, em um movimento circular perfeito, ao próprio Pastor Logan como o chefão do levante pró-Wilford e a própria revolta da Terceira Classe no trem, que passa a culpar o pessoal do Fundo, uma conclusão óbvia a partir do atentado a Lights, algo que leva à captura de um abalado Pike e à interferência pouco eficiente de Layton que, no lugar de tentar convencer os revoltosos com conversa, entrega-se ao sacrifício.

Mas tem mais, pois a revolta e a perseguição aos fundistas leva Ruth a rever seus atos passados. Mesmo que não possamos simplesmente desculpá-la pelos atos que efetivou ou tornou possível que fossem efetivados, sua revisão de sua visão elitista da estrutura do trem, mesmo considerando o frenesi do episódio, é muito bem trabalhada, com o uso até de um “golpe baixo” representado por Willie, a criança cuja mãe acabou morrendo depois de ter seu braço amputado por congelamento sob ordens diretas de Ruth. Novamente fica claro que a ausência de Melanie na história facilita que Graeme Manson aborde com mais cuidado os personagens coadjuvantes e Alison Wright brilha neste episódio em seus momentos reveladores que a levam a mudar de posição e, no final, defender Layton como o efetivo líder do Snowpiercer e, no processo, salvando seu braço.

A direção de Rebecca Rodriguez, diretora de TV ainda em começo de carreira, mas que já dirigiu o excelente Lahun Chan, de Mayans M.C., episódio que depende muito de espaço confinado, continua o eficiente trabalho de cria tensão de Leslie Hope, mas adicionando elementos de velocidade e confusão, quase que com uma pegada documental, de câmera na mão, que faz o espectador seguir pelos corredores observando ou fugindo da turba revoltosa. O que fica ao final dos 47 minutos é uma situação que, mesmo resolvida no micro – o culpado foi achado! – está longe de ser no macro, sem permitir sequer um vislumbre de como a idolatria a Wilford será lidada que não seja com a canonização do líder como salvador e a literal defenestração de Layton e companhia. Claro que Melanie e potencialmente Alex são elementos essenciais para que a maré vire, mas será muito interessante ver como isso acontecerá (se é que acontecerá).

Obviamente que eu não poderia encerrar a crítica sem falar dos eventos doentios em Big Alice. Aquele ritual assustador de Wilford na banheira com Kevin em Smolder to Life cuja aparente aleatoriedade eu reclamei em minha crítica e que ganhou contexto potente em A Single Trade, tem sua linha narrativa continuada, com a revelação não só de que Kevin está vivo, mas que seu “sacrifício” parece ter sido muito mais do que apenas vaidade de Wilford. Afinal, ele parece ter sido usado muito friamente como instrumento para converter Miss Audrey de vez para o lado do déspota enlouquecido, com ela usando suas habilidades de manipulação psicológica para convencer o pobre Kevin que o que Wilford fez foi um lindo ato de amor. De sua forma arrepiante, todas as sequências – Audrey na sala com Kevin e, depois, reapresentando o homem basicamente como escravo de Wilford – foram maravilhosamente bem executadas por Rodriguez que as usa para quebrar a correria dos acontecimentos no Snowpiercer, mas deixando ainda um pouco de ambiguidade em relação ao que Audrey está fazendo. Estaria ela de volta de vez para seu “mestre” ou seria isso parte de seu plano para derrubá-lo? Miss Audrey pode ser tanto o fiel da balança para tornar possível a derrocada de Wilford quando um instrumento valioso para a consolidação do poder dele.

Our Answer for Everything é um abalo sísmico na série que começa a preparar um potencialmente lindo final de temporada. Todas as cartas parecem estar na mesa, mas o jogo ainda não está exatamente claro, o que é ótimo.

Expresso do Amanhã – 2X07: Nossa Resposta para Tudo (Snowpiercer – 2X07: Our Answer for Everything, EUA – 08 de março de 2021)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Rebecca Rodriguez
Roteiro: Tina de la Torre
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Lena Hall, Iddo Goldberg, Susan Park, Sam Otto, Sheila Vand, Roberto Urbina, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Rowan Blanchard, Sean Bean, Damian Young, Sakina Jaffrey, Chelsea Harris, Andre Tricoteux, Miranda Edwards
Duração: 47 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais