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Crítica | Expresso do Amanhã – 2X08: The Eternal Engineer

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

Depois eu não quero ninguém aqui reclamando, esperneando e batendo o pezinho se eu começar (eu já comecei, mas é segredo) a torcer pelo Mr. Wilford em Expresso do Amanhã. Como podem esperar algo diferente de mim depois de um episódio como The Eternal Engineer em que o suposto vilão termina de executar um golpe de estado – seria mesmo um golpe de estado se ele está apenas tomando de volta o que lhe foi furtado? – debaixo do nariz de Layton e companhia sem que ninguém possa sequer dizer um “ai” ou ter tempo para reagir. Como não abrir um sorrisão com a felicidade orgástica de Wilford ao final, sentado em sua tão querida locomotiva, finalmente recuperando seu trono?

E vocês acham que estou de brincadeira? Não estou não. Estou falando seríssimo! Se eu por um fugaz momento achei que Wilford seria a caricatura pura do vilão mega-vilanesco que solta risadas maquiavélicas e enrola o bigodinho encerado, agora eu o acho simplesmente fascinante como todo grande vilão deveria ser, daquele jeito que nos deixa envergonhado – ou não… – de gostarmos dele da mesma maneira que gostamos de um Hannibal Lecter da vida mesmo sabendo das atrocidades que ele faz e até torcendo para que ele faça mais. Em relativamente poucos episódios, Graeme Manson e Sean Bean construíram um personagem multifacetado, afetado e maquiavélico que, na ausência de Melanie Cavill e com Alex Cavill de certa forma “emudecida” em termos narrativos, tomou de assalto literal e metaforicamente a série.

Mesmo considerando a violência que, de certa forma, foi até pouca (olha eu querendo mais sangue e tripas…), há uma inegável elegância na forma como Wilford conduziu seu plano de diversas fases e o jogo político causado por sua figura messiânica inadvertidamente mantida viva pela própria Melanie por sete anos não só funciona muito bem, como o radicalismo do tipo “se você é a favor de fulano, então você é contra cicrano” encontra eco em nosso mundo cada vez mais binário e polarizado. Nesse microcosmo fascinante, Wilford é rei, especialmente na ausência da única pessoa que teria capacidade de fazer frente a ele, que, claro, é Melanie. Aliás, palmas para Manson ao fazer sua engenharia narrativa para tornar a ausência da ex-antagonista muito mais relevante do que apenas uma missão vital para o futuro da Humanidade, algo difuso e que prepara algo muito lá para frente, ainda não exatamente palpável. A retirada dela da série lá atrás, a partir de A Single Trade, não só serviu para criar uma missão paralela, como para desenvolver personagens coadjuvantes, ajudar a dar alguma relevância maior a Layton e, claro, permitir o que Wilford acabou de fazer aqui em The Eternal Engineer.

Falando em Layton, gostei muito que o roteiro de Renée St. Cyr e a direção de Rebecca Rodriguez (aliás, essa diretora tem muito futuro, fiquem de olho nela!) fizeram com ele. O personagem nunca conseguiu se firmar na série de verdade na minha ótica e sua revolução perdida e mal-ajambrada jamais sequer teve chance de se fixar, pois Big Alice engatou no Snowpiercer literalmente no momento seguinte em que tudo acabou. E, talvez como uma culminação da “sem-gracice” do personagem, sua absoluta falta de ação diante da chegada de um Wilford debochado e altamente sacana, mas seguro do que estava fazendo, com uma corte que o mostra preso depois que a poeira abaixou, foi uma forma narrativamente muito eficiente em sedimentar imediatamente o poder do grande vilão, colocando-o em uma posição que, para ser revertida, muita coisa terá que acontecer. Aliás, eu espero que não haja “tapetão” nos dois últimos episódios da temporada, mesmo que Melanie retorne ao trem, pois seria um desperdício de premissa cautelosamente construída para ser propriamente desenvolvida ao longo de uma vindoura 3ª temporada. Acho até que não seria nada louco dizer que The Eternal Engineer tem toda a pinta de episódio final de temporada, não é mesmo? E isso, de certa forma, me dá receio do que será feito agora para realmente encerrá-la.

Expresso do Amanhã pode ter começado claudicante lá em sua 1ª temporada, mas a série, mesmo não firmando seu pretenso protagonista, muito rapidamente conseguiu ganhar qualidade crescente e, agora, em sua 2ª temporada, mostra que tem cacife para fazer grandes apostas. The Eternal Engineer é o exemplo máximo disso e, como disse, minhas fichas estão todas em Wilford agora…

Obs: Não haverá episódio na semana que vem. Expresso do Amanhã retorna ao Netflix com os dois episódios finais no dia 30 de março.

Expresso do Amanhã – 2X08: O Eterno Engenheiro (Snowpiercer – 2X08: The Eternal Engineer, EUA – 15 de março de 2021)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Rebecca Rodriguez
Roteiro: Renée St. Cyr
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Lena Hall, Iddo Goldberg, Susan Park, Sam Otto, Sheila Vand, Roberto Urbina, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Rowan Blanchard, Sean Bean, Damian Young, Sakina Jaffrey, Chelsea Harris, Andre Tricoteux, Miranda Edwards
Duração: 48 min.

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