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Crítica | Expresso do Amanhã – 2X09 e 10: The Show Must Go On / Into the White

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

E eis que os dois episódios finais da 2ª temporada de Expresso do Amanhã foram lançados no mesmo dia tanto lá fora, pela TNT quanto aqui, pelo Netflix. De forma a verdadeiramente fazer um “dois em um”, escrevi a crítica de The Show Must Go On antes de assistir Into the White, de forma a passar minhas impressões do primeiro sem a influência do segundo, como seria se eles fossem transmitidos em semanas consecutivas.

Boa leitura!

The Show Must Go On
2X09

De certa maneira, eu queria que a tomada de poder de Mr. Wilford fosse mais lenta, mais cuidadosa. Não falo da execução de seu plano maquiavélico para recuperar o Snowpiercer que lhe fora roubado, pois esse foi descortinado com calma ao longo de quase toda a temporada, mas sim da solidificação de seu poder lá dentro, que é justamente o objeto de The Show Must Go On. Queria ter visto a coisa toda andar a passos mais vagarosos e detalhados de maneira a evitar que a correria desordenada da pós-revolução encabeçada por Layton se repetisse. Por outro lado, compreendi perfeitamente a necessidade da velocidade, uma de viés psicológica e outra de viés prático, sendo o segundo tanto dentro quanto fora da narrativa.

Do lado psicológico, temos que considerar que Wilford, que obviamente já não batia bem, passou sete anos privado de sua incrível máquina de singrar o mundo gelado, tendo que se conformar com Big Alice e seus insumos limitados, mesmo, claro, vivendo em relativo conforto. Não havia como alguém assim simplesmente se segurar depois de um tomada de poder como essa e manter-se comedido em suas ações enquanto firma suas estacas de sua infraestrutura de poder. Eliminar a oposição, claro, é algo que precisa naturalmente ser feito com rapidez e Layton e Roche já são, ao começo do episódio, cartas fora do baralho, o primeiro preso no vagão composteiro e o segundo – e sua família – nas gavetas.

Mas mesmo a eliminação de inimigos não é algo que, na cabeça de Wilford, possa ser feito sem efeitos dramáticos e pirotécnicos e ele não só cria um show de variedades em um surreal vagão circo cuja existência só agora descobrimos, como seus “convidados” ganham um jantar em que ele pode exibir toda sua crueldade. E, nessa toada, eis que Alex é mandada para a prisão depois de, cansada com seu mentor, revela o que ele fez no outro trem (para surpresa de absolutamente ninguém, não é mesmo?), e Ruth, em uma belíssima demonstração de personalidade e fidelidade, recusa-se a aceitar a condição de renegar Melanie para ganhar a cobiçada posição de Diretora da Hospitalidade, sendo enviada para fazer par com Layton lá no fim do mundo.

Quando eu prego por mais lentidão nesses atos de Wilford, é porque eu talvez secretamente queira saborear seu reinado – absolutismo esclarecido? – por mais tempo e fazê-lo caminhar pelo lado do espetáculo, das orgias e dos close-ups em seu rosto pintado parece indicar que isso não deve se sustentar por muito tempo. Seu lado psicótico falou mais alto imediatamente, o que demonstra, como em Calígula ou Nero, que o fim está próximo, algo que me incomodará profundamente se isso realmente se confirmar.

Por seu turno, eu entendo que o tempo estava contra uma tomada lenda. Afinal, o tempo dentro da temporada era curtíssimo, já que Wilford tinha pouco tempo para eliminar Melanie como imagem da esperança. Mas o tempo fora da série também foi curto, já que a finalização de seu plano aconteceu no episódio anterior apenas, episódio esse que, como eu disse na crítica, poderia muito facilmente ter sido o de encerramento da temporada. Portanto, a não ser que milagrosamente a intenção seja encerrar o 2º ano com Wilford ainda no poder, creio que seu reinado absoluto será muito curto, algo sinalizado pela mensagem muito convenientemente enviada com sucesso por Javi ao ouvir Melanie no rádio.

Mas, claro, esse reinado precisa ser dramaticamente aproveitado em todas as suas nuanças e é sempre interessante ver Layton assumindo de verdade o papel de líder que Graeme Manson sempre quis que o personagem assumisse, sem jamais realmente conseguir. Da mesma forma, é intrigante ver a transformação de Josie na Sra. Frio e o que isso signfica psicologicamente para ela, já que há um componente de poder, de êxtase que foi muito bem abordado no pouco que vimos a personagem. Mesmo que ela aparentemente ainda esteja do lado de Layton como sua breve conversa com ele indica, Josie definitivamente mudou.

Chegando próximo do final da temporada, The Show Must Go On é mais um ótimo episódio de Expresso do Amanhã, série que começou de maneira claudicante, mas que vem se firmando como uma das grandes surpresas de 2021. Agora é só acertar em seu encerramento!

Into the White
2X10

O derradeiro episódio da 2ª temporada de Expresso do Amanhã faz algo que há muito não via: estabelece um gigantesco cliffhanger para um novo ano, valendo lembrar que a 3ª temporada, em não havendo problemas mais sérios, já teve sua produção aprovada. No entanto, o cliffhanger não é daqueles baratos, mal ajambrados, feitos apenas para surpreender o espectador a qualquer custo. Muito ao contrário, toda a construção é lógica – se aceitarmos um monte de peças móveis, claro – e o final, com Wilford controlando 983 (eu acho) carros de seus dois trens e Layton e seu pequeno grupo com os 10 restantes retornando para a guerra, encaixa-se perfeitamente com o que aprendemos a esperar dessa série surpreendente.

Into the White é ação física do começo ao fim, algo raro na série e, claro muito bem vindo, especialmente porque tudo é bastante balanceado, sem que aconteça aquilo que eu achava que acabaria acontecendo, ou seja, a reversão total da retomada de Wilford, o que seria terrível em termos narrativos e dramáticos. Fiquei feliz em perceber, muito lentamente, que o encaminhamento do episódio era o da criação de um pequeno grupo de “rebeldes” para lidar com o malvado Imperador e isso tudo dentro da modesta estrutura tubular de um trem, com direito a fuga de Layton e Ruth, a infeliz morte de Javi e, claro, a descoberta de que Melanie “morreu” para deixar sua pesquisa aquecida e salvável, pesquisa essa que, claro, mostra que o mundo está esquentando novamente.

Claro que o sacrifício de Melanie cai na boa e velha categoria do “sem corpo, sem morte” e a região termal atrás da base que manteve os ratos vivos é provavelmente o caminho que ela seguiu e que será desenvolvido na próxima temporada. Dito isso, seria muito interessante se Melanie realmente tivesse morrido. Seria uma digníssima passagem de bastão para sua filha Alex, o que até mesmo justificaria a morte solitária e terrível de Javi em Big Alice e uma forma de manter Layton, finalmente agindo como um líder, em destaque, algo que reputo impossível de ser mantido se Melanie retornar. Seja como for, será interessante ver como a vindoura temporada lidará com essa situação, já que, em tese, o confinamento no trem, base para toda a série e que só foi quebrado em Many Miles from Snowpiercer, terá que ser relativizado.

Mas eu falei das “partes móveis” acima e eu preciso voltar a elas, pois são os pontos de incômodo no episódio. O maior deles é Josie. Claro que ela seria usada ao final, pois estamos falando aqui do artifício da Arma de Tchekhov, mas meu problema com isso é muito simples: o que levou Wilford a acreditar que ela, em sua primeira missão, cometeria um ato de traição tão gigantesco com seu pessoal? Ou, em outras palavras, o que a transformou em lacaia de Wilford? Tudo bem que ele se acha o mestre manipulador e ele de fato é, mas, se era para algo assim acontecer aqui, então teria sido essencial que essa manipulação de Wilford sobre Josie tivesse sido mostrada com mais frequência e afinco. Do jeito que ficou, o resultado – que ainda foi interessante, inclusive visualmente (tadinhos dos peixes…), vale dizer – não pareceu mais do que um gigantesco erro estratégico de Wilford.

Além disso, o próprio plano para retomar o Snowpiercer precisava de momentos de sorte atrás de momentos de sorte, inclusive –  e especialmente – Ben conseguir derrotar o guarda e o braço direito de Wilford que o vigiava e o roteiro inegavelmente tomou atalhos aqui e ali para tornar o resultado final possível, mesmo que o que acaba acontecendo não seja aquilo que Layton e Ruth originalmente queriam. O que ajudou muito para que esses problemas fossem minimizados foi a direção vigorosa de Clare Kilner que soube lidar com as variáveis e as subtramas de maneira quase que frenética, mas sem jogar sequências cinéticas ao extremo e desconexas no colo do espectador. A diretora soube dosar as sequências e soube imprimir ritmo à narrativa que a todo momento manteve-se muito interessante, mesmo quando o improvável (como Ben ganhar a luta) e o óbvio (como Josie trair Wilford) aconteciam.

O segundo ano de Expresso do Amanhã foi muito movimento e muito bem construído, ganhando em Into the White um final escancaradamente aberto, mas muito bom mesmo assim que tornará o intervalo entre temporadas uma verdadeira tortura. Graeme Manson, muito parecido com que fez em Orphan Black, em pouco tempo soube tomar as rédeas de uma premissa de difícil execução e entregar um trabalho realmente fora do comum.

Obs: Onde afinal está Miles?

Expresso do Amanhã – 2X09 e 2X10: O Show Tem que Continuar e A Caminho do Desconhecido (Snowpiercer – 2X09 e 2X10: The Show Must Go On / Into the White, EUA – 29 de março de 2021)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Clare Kilner
Roteiro: Zak Schwartz, Kiersten Van Horne (2X09); Graeme Manson, Aubrey Nealon (2X10)
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Lena Hall, Iddo Goldberg, Susan Park, Sam Otto, Sheila Vand, Roberto Urbina, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Rowan Blanchard, Sean Bean, Damian Young, Sakina Jaffrey, Chelsea Harris, Andre Tricoteux, Miranda Edwards
Duração: 47 min. (cada episódio)

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