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Crítica | Expresso Para o Inferno

por Guilherme Rodrigues
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Dos nomes que se esperam estar associados a um filme de ação dos anos 80, o do lendário diretor japonês Akira Kurosawa não é um deles, mas eis que nos créditos iniciais de Expresso Para o Inferno, aparece o nome do mestre sob o título de “roteirista”. É interessante, mas pode não significar muita coisa, já que o verdadeiro porquê de um filme não é somente a sua história mas o como ela é contada, e isso está nas mãos do diretor do russo Andrei Konchalovsky.

O longa tem seu foco em Manny Manheim (Jon Voight), um criminoso que está na prisão de segurança máxima Stonehaven, no Alaska. Após duas tentativas de fuga, Manny é colocado na solitária por três anos pelo sádico diretor Ranken (John P Ryan), o que só fez aumentar a adoração dos presos por Manny. Após uma disputa judicial, o personagem é liberado para ficar nas celas comuns, e logo passa a planejar sua terceira fuga. Para isso, recruta Buck (Eric Roberts), um jovem lutador que o idolatra. Depois de fugir e encarar a imensidão gelada da região, a dupla consegue abrigo em um trem, mas que logo se mostra ser também uma prisão, já que o maquinista morre e os freios deixam de funcionar, e a fera de ferro passa a se tornar cada vez mais veloz, para o desespero dos operadores de trem.

Expresso Para o Inferno é uma produção que passa por algumas metamorfoses ao longo da sua narrativa. E começa como um típico filme de ação dos anos 80 mesmo, com um certo exagero, caricaturas – Ranken tem um corte de cabelo, bigode e postura que remete um pouco à Hitler – e testosterona ao máximo, com tanto o personagem de Roberts quanto o de Voight sendo apresentados por meio do seu físico, um suado após exercícios, o outro durante a atividade. Mas Konchalovsky não se demora muito nesse cenário, e tendo estabelecido a relação do trio Manny-Ranken-Buck, logo parte para o que interessa. Nem a fuga em si, algo tão importante em filmes relacionados a prisão, dura muito, ocorrendo sem grandes complicações.

A coisa muda de cena quando o trem aparece, que por si só é mais do que um cenário, e sim um personagem, que cria uma conexão instantânea com Manny, que simplesmente ao bater o olho na máquina declara “essa é minha limusine para Broadway”. Há pompa e circunstância no modo como o veículo é apresentado, saindo de uma neblina e com trilha sonora própria. É a partir dessa relação entre o fugitivo e o trem que o filme constrói suas questões filosóficas acerca da liberdade, já que essas duas figuras estão, de um modo, “livres”. Não há nada que possa parar o trem, assim como nada vai parar Manny em sua busca pela liberdade, mas qual é o custo disso?

Em uma das melhores cenas do filme, Buck é convencido a sair do trem por Manny e Sara (Rebecca DeMornay), uma engenheira do trem, para tentar parar a máquina de uma vez por todas, mas devido ao frio excessivo, fracassa. Manny, enfurecido, tenta violentamente força-lo a sair novamente, ao que Sara, horrorizada, exclama “Você é um animal”, e ele responde de bate pronto “Pior, sou um homem!”. A situação se intensifica até os dois homens estarem em vias de se matar, até que ambos caem em si, e para o personagem de Voight, isto é particularmente significativo, já que em sua busca pela liberdade, acabou se tornando outra figura opressora.

É nesses momentos mais psicológicos e emocionais que Expresso Para o Inferno está em melhor forma, explorando ideias de liberdade. Mas, como eu disse, é um filme de mudanças, e outro aspecto adicionado a trama é o do filme-desastre, que francamente, é um pouco bobo e beira o pastelão, sempre com um desastre maior após o outro, se o trem consegue cruzar uma ponte que está em vias de cair, logo em seguida temos uma fábrica de químicos que também está em risco, e os personagens envolvidos nessa seção nunca saem dos estereótipos de chefe emburrado, secretaria alheia a tudo e etc.

Não é a toa que o plano que fecha o filme se apoia unicamente na emoção e nas ideias de liberdade, sendo uma síntese perfeita do subtexto do filme. Mesmo sendo um longa de 35 anos atrás (2020), não irei descrevê-lo, pois é algo que merece ser testemunhado em primeira mão. O que começa com ares de filme B terminar de modo tão poético não é nada menos que surpreendente. Palmas para Konchalovsky.

Expresso Para o Inferno (Runaway Train) – EUA, 1985
Direção: Andrei Konchalovsky
Roteiro: Akira Kurosawa, Djordje Milicevic, Paul Zindel, Edward Bunker
Elenco: Jon Voight, Eric Roberts, Rebecca DeMornay, Kyle T. Reffner, John P. Ryan, T.K Carter, Danny Trejo, Kenneth McMillian, Edward Bunker
Duração: 110 min.

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