Home FilmesCríticasCrítica | Extermínio: O Templo dos Ossos

Crítica | Extermínio: O Templo dos Ossos

Atmosfera psicológica e expansão da mitologia da franquia.

por Leonardo Campos
76 views

Lançado em 2002, Extermínio revolucionou o gênero de terror sob a direção de Danny Boyle e roteiro de Alex Garland. O filme introduziu os “infectados” velozes, movidos pelo vírus da fúria, acompanhando Jim (Cillian Murphy) ao acordar de um coma em uma Londres deserta. O enredo foca na desintegração social e na brutalidade humana, situação que culmina em um confronto contra militares desertores, personagens que se mostram tão perigosos quanto os próprios monstros, estabelecendo o tom pessimista e visceral da saga. A sequência de 2007, Extermínio 2, dirigida por Juan Carlos Fresnadillo e roteirizada em parceria com Rowan Joffé, expande a escala do caos. A trama foca na tentativa da OTAN de repovoar Londres após a suposta erradicação do vírus por inanição. No entanto, o trauma familiar de Don (Robert Carlyle) desencadeia um novo surto catastrófico. A narrativa é marcada pela cena inicial frenética e pelo final sombrio, onde a infecção rompe a quarentena da ilha e chega à Europa continental, indicando uma pandemia global inevitável, acompanhada de uma trilha sonora angustiante.

Em 2025, a franquia retornou às suas origens com Extermínio: A Evolução, agindo assertivamente ao trazer novamente a dupla formada por Danny Boyle e Alex Garland. Situado quase três décadas após o surto original, o longa explora um mundo onde a natureza retomou as cidades e os sobreviventes vivem em comunidades isoladas e arcaicas. O enredo foca em uma nova geração tentando entender a biologia do vírus, que agora apresenta mutações preocupantes, enquanto o “retorno” de um envelhecido Jim conecta o passado ao futuro incerto da humanidade. Vale lembrar, o desfecho de A Evolução serve como o gancho direto para a essa sequência de 2026, Extermínio: O Templo dos Ossos. Com direção de Nia DaCosta e roteiro de Garland, a trama se aprofunda no misticismo e na adaptação evolutiva dos infectados. Filosoficamente, podemos dizer que dessa vez, o roteiro estabelece uma localização geográfica e espiritual onde o vírus parece ter alcançado um novo estágio de consciência, forçando os protagonistas a enfrentar não apenas a fúria física, mas uma nova e terrível ordem biológica que ameaça extinguir o que resta da civilização.

A trama de desse quarto episódio da franquia se inicia precisamente no ponto em que o filme anterior teve seu desfecho. Acompanhamos o jovem Spike, interpretado por Alfie Williams, no momento em que ele encontra o grupo liderado pelo enigmático Jimmy Crystal (Jack O’Connell). Ao integrar-se à equipe, o menino rapidamente percebe que seus novos aliados escondem segredos sombrios e que as aparências no grupo de Crystal são profundamente enganosas. Paralelamente à jornada de Spike, o Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes) assume um papel central ao estabelecer uma conexão sem precedentes com um zumbi. O objetivo do médico é claro: encontrar a cura para o vírus que devastou a civilização, transformando cidadãos em feras sedentas de sangue. Entretanto, a inevitável colisão entre os mundos de Jimmy e Kelson cria um conflito de proporções catastróficas, trazendo consequências severas para todos os sobreviventes envolvidos. É um avanço no âmbito da franquia. Mais um passo de expansão.

O roteirista Alex Garland utiliza a narrativa para resgatar e aprofundar uma temática central desde o início da saga: a ideia de que, diante de um apocalipse, seja ele zumbi, nuclear ou biológico, a maior ameaça reside na própria natureza humana. O roteiro trabalha com maestria a degradação moral da sociedade, evidenciando que a infecção não corrompeu apenas os corpos dos doentes, mas também a ética e o espírito daqueles que tecnicamente permaneceram saudáveis. Nesta macabra inserção, os infectados, embora mantenham sua selvageria aterrorizante, deixam de ser o problema principal. O verdadeiro horror emana da loucura e do sadismo de Jimmy Crystal, que utiliza uma interpretação distorcida da fé e da religião para manipular seus seguidores. O filme deixa claro que o fanatismo e a crueldade humana conseguem ser ainda mais assustadores e desoladores do que a ameaça biológica que vaga pelas ruas. Mais atual do que nunca.  Um dos grandes trunfos da produção é o desenvolvimento do Dr. Ian Kelson. Introduzido brevemente no filme anterior, o personagem ganha profundidade e tempo de tela, revelando um passado rico e uma motivação genuína de buscar luz em um mundo dominado pelas trevas.

A relação inusitada entre o médico e Sansão (Chi Lewis-Parry), o infectado alfa da região, se destaca como o ponto alto da obra, tratando a infecção sob a ótica de uma patologia científica em vez de um evento puramente apocalíptico. O elenco entrega performances robustas que sustentam a tensão constante da narrativa. Jack O’Connell é hábil ao se estabelecer como irônico e psicótico, enquanto Alfie Williams demonstra um potencial promissor, traduzindo bem a transição forçada de um jovem para a maturidade em um cenário cruel. A direção equilibra com competência os momentos de suspense absoluto com a carga dramática necessária para humanizar a história. Embora não traga a inovação disruptiva de 24 anos atrás, a abordagem de Extermínio em Templo dos Ossos prova que capitalizar sobre boas ideias ainda é um caminho válido quando estas são bem executadas. O filme mantém a tensão em níveis elevadíssimos e convida o espectador a uma reflexão social muito mais densa do que o padrão do gênero, utilizando o caos absoluto como metáfora para a falência da ordem social e da civilização moderna. O texto de Garland examina a evolução humana diante de uma pressão extrema, mantendo regras sociais que ecoam as dificuldades do nosso mundo real. Ao encerrar este capítulo, a obra deixa brechas propositais, sugerindo que a jornada de sobrevivência e a exploração da miséria humana ainda têm muito a revelar. O vínculo entre o médico e sua cobaia, e o destino dos jovens sob a sombra de tiranos, dentre outros tópicos, apontam para um futuro onde a esperança é tão perigosa quanto o próprio vírus.

Não há como negar que a saída de Danny Boyle deixa de ser sentida. Mas a nova gestora do projeto cumpre adequadamente a sua missão ao longo dos 110 minutos dessa nova jornada. Em linhas gerais, essa mudança na direção não desvia a estrutura estética de qualidade do universo de Extermínio: a excelência técnica se consolida através da cinematografia de Sean Bobbitt, que preserva a identidade visual da franquia ao manipular enquadramentos e movimentos de câmera com uma precisão cirúrgica, enquanto o design de produção assinado por Carson McColl e Gareth Pugh transporta o espectador para uma realidade tátil, onde a fusão de paisagens naturais desoladoras com cenários urbanos como ruínas de um tempo distante culmina em um templo cujos detalhes arquitetônicos se tornam objetos de estudo obrigatórios para entusiastas da linguagem cinematográfica. Dentro deste universo de reorganização social perante a ameaça dos infectados, a maquiagem de John Nolan atua como uma ponte vital entre o horror gráfico e a carga dramática do texto, sendo potencializada pela trilha sonora angustiante de Hildur Guðnadóttir e pelo design de som imersivo de Ben Barker, elementos que trabalham em simbiose com a supervisão de efeitos visuais de Dean Koonjul e os efeitos especiais de Sam Conway para conferir uma verossimilhança aterradora a este novo capítulo da saga. É tudo bem calculado.

Ademais, podemos refletir que o filme se insere no âmbito das narrativas pós-apocalípticas que operam como espelhos deformadores que, sob a máscara de uma realidade ficcional devastada, capturam a essência das ansiedades e fraturas morais do nosso tempo, revelando que a verdadeira catástrofe raramente reside no evento externo, mas na erosão ética do tecido social contemporâneo. Extermínio: O Templo de Ossos estabelece essa premissa que é levada ao extremo ao deslocar o horror do frenesi dos infectados para a frieza institucional e o fanatismo humano, sugerindo que, em um mundo desprovido de leis, a sede de poder e a desumanização do “outro” são ameaças muito mais perniciosas e resilientes do que qualquer patógeno. A produção utiliza o cenário de desolação para metaforizar a polarização e o egoísmo da sociedade atual, onde as estruturas de controle e sobrevivência frequentemente se tornam mais monstruosas do que as criaturas que pretendem combater, provando que o cinema não busca apenas imaginar o fim do mundo, mas sim diagnosticar a falência da empatia humana no presente. Não é um filme perfeito, mas é uma jornada excelente de horror e reflexão.

Extermínio: O Templo dos Ossos (28 Years Later: The Bone Temple – Reino Unido/Estados Unidos, 2026) 
Direção: Nia DaCosta
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Jodie Comer, Aaron Taylor-Johnson, Jack O’Connell, Ralph Fiennes, Joe Blakemore, Alfie Williams, Celi Crossland, Geoffrey Newland, Erin Kellyman
Duração: 110 min

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais