Crítica | Extraordinário

“Andando em direção àquele palco, eu senti como se estivesse flutuando. O meu coração estava batendo tão rápido…”

Os caminhos para as adaptações de best-sellers podem ser turbulentos para vários cineastas, porque não é uma das tarefas mais simples proporcionar, com versões cinematográficas, sensações similares às vivenciadas durante uma gostosa leitura, mesmo que de longe essa seja uma função que verdadeiramente compita aos filmes, os quais podem muito bem ter seus próprios objetivos, suas próprias essências, livres das amarras oferecidas pelos escritos dos autores. A arte é livre. Isso, porém, é assunto para outras obras, visto que Extraordinário assume o primeiro ponto de vista, tão elegante quanto o outro, porém mais relacionável com os leitores do livro homônimo que inspirou o filme, o que em um primeiro momento não seria algo efetivamente necessário. Independente disto, e sem mais delongas, temos com a obra, comandada pelo mesmo diretor do ótimo As Vantagens de Ser Invisível, um filme, se não extraordinário, certamente emocionante.

A vida de Auggie Pullman (Jacob Tremblay) pode ser muitas coisas, mas não ordinária, visto que sua própria existência é especial, única. Após passar por diversas cirurgias, decorrentes de uma deformação facial, o menino enfim terá de transcender os desafios do dia a dia escolar, não mais possíveis de serem adiados por sua mãe Isabel (Julia Roberts). Nessa jornada estelar através de cosmos até então desconhecidos, o astronauta Auggie enfrentará os mais diversos confrontos, aliado às pessoas que o amam independente de sua aparência e que não deixarão aquele Major Tom sucumbir à solidão, perdido em sua zona de conforto – o seu quarto, maravilhosamente retratado em um cenário composto pelas mais graciosas considerações do infantil, do mágico proveniente de galáxias muito, muito distantes. Extraordinário, como uma de suas questões, quer transportar o espectador para essa ótica do menino, adentrando o seu capacete astronáutico.

Quando o garoto surpassar as portas do colégio Beecher Prep pela primeira vez, o mágico continuará a permear sua imaginação, destinada a não permitir que o ostracismo dos demais seja um impedimento. Uma delicada graciosidade é presente nas cenas do garoto percorrendo os corredores da escola vestindo o seu traje espacial, ou então interagindo com Chewbacca, de Star Wars, uma figura, para Auggie, tão diferente quanto ele mesmo – consequentemente, tão especial. No entanto, solidão não será uma constante eterna para o nosso cosmonauta, em vista da união de Jack Will (Noah Jupe) as suas aventuras. O outro garoto, diante de suas próprias dificuldades, buscará fomentar uma amizade sincera com Auggie e, aos trancos e barrancos, conseguirá – em alguns dos melhores momentos do duo, um senso cômico é inerente, contrariando a atmosfera mais pesada que surge em decorrência daqueles olhares de suspeitas vindos das outras crianças.

O que mais difere essa jornada das demais de superação é a devida atenção dada aos seus coadjuvantes, que assumem papéis primordiais na trajetória do garoto. O roteiro maneja perfeitamente a narrativa para que os diferentes arcos pessoais dos diferentes coadjuvantes da obra não a tornem episódica. Já a montagem de Mark Livolsi conjuga todas as partes da história de forma fluida. A obra, enfim, não traz nenhuma trama paralela desnecessária à mensagem central – tudo está a par das lições que aprenderemos no decorrer da projeção. Não pode-se dizer, contudo, que todos os personagens possuem a mesma relevância. Em comparação a Jack Will, por exemplo, Summer (Millie Davis) ganha uma abrupta importância narrativa, sem receber as mesmas camadas que o amigo de Auggie recebe. O mesmo também pode se dizer do antagonista Julian Albans (Bryce Gheisar), que necessitava de um background justificando as suas atitudes.

Ademais, ainda mais bonita que as amizades que se originam naquele ambiente hostil, encontra-se a família como alicerce para o cotidiano de Auggie. Não meros ornamentos para o desenvolvimento da criança, tanto a personagem de Julia Roberts, quanto o personagem de Owen Wilson funcionam como pais. Wilson continua se atendo a maior parte dos papéis que desempenhou na sua carreira – aliás, um momento mais sentimental do projeto remete, acidentalmente, ao conhecido Marley & Eu –, mas o artista exprime veracidade em sua atuação, sendo seu timing com Jacob muito genuíno. Já Roberts, melhor, conduz uma mãe cheia de camadas, todas bem construídas e aprofundadas – sua preocupação com Auggie é das mais honestas, assim como a sua alegria ao ver o sucesso do filho tornar-se realidade. Muito do que é oferecido em carga emocional abrange os sentimentos envoltos da mãe em relação ao seu filho.

Derivada da expressão da personagem de Julia Roberts na narrativa, Via (Izabela Vidovic), sua filha mais velha, recebe um desenvolvimento muito maior do que se poderia esperar para presumidos arquétipos de irmã. Com o nascimento do seu segundo filho, a mãe acabou distanciando-se enormemente da garota, o que gerou consequências para ela, crescendo sem acreditar no verdadeiro amor de seus pais, não tão presentes quanto estavam para Auggie. Ao passo que sua melhor amiga, Miranda (Danielle Rose Russel), também se afasta dela, a jovem que, assim como Auggie, está adentrando um novo universo, terá de encontrar novos caminhos para alcançar sua própria felicidade. Miranda, surpreendentemente, além de Via, também é tratada com profundidade pelo filme – suas atitudes são críveis, embora, no final, a história da personagem seja excessivamente encurtada, apressada e, por consequência disso, um pouco mal acabada.

Mesmo assim, o diretor Stephen Chbosky, também assinando o roteiro, prova saber equilibrar bem o contar de histórias, pincelando fortemente outras camadas dos personagens; sempre direcionando-as, no entanto, para o extraordinário protagonista do título. O foco é clarividente, não sendo esse o caso de um filme que acaba destoando no tom ou ritmo. O que acontece, contudo, é que o material, extremamente comovente em sua própria natureza, acaba exagerando esse seu lado mais emotivo ao projetar lições de vida à beira do genérico. Em contraponto, a narrativa do longa prova-se ser bastante perspicaz, visto que Extraordinário nunca tende nem para uma abordagem completamente leve, nem para um tratamento extremamente cru, impiedoso. Tratando de crianças, prevalece um espírito de esperança concreta, uma mensagem de superação, o que, retomando o aspecto negativo da didática do viver, acaba não sendo exposto da maneira mais orgânica, soando como se fosse, em alguns poucos momentos, empurrada para nós goela abaixo.

Em um derradeiro pensamento sobre essa adaptação do romance de R.J. Palacio, é mais que certeiro apontar o garotinho Auggie como a alma da obra, em razão da interpretação extraordinária de Jacob Tremblay – o mesmo intérprete do menino de O Quarto de Jack. Da essência de Jacob, nas cenas de forte teor dramático, se exprime todas as dores carregadas por um menino tão frágil quanto forte. São nos pequenos momentos, todavia, na postura cabisbaixa, no olhar sereno e nas atitudes pueris, que encontramos um retrato verdadeiramente doce daquela infância, inabalável apesar dos desafios mundanos tão exigentes. Ao explicitar em demasia as injustiças que o filme promove sobre àquela juventude, a obra acaba não deixando o espectador absorver inteiramente a história como a mesma deveria ser absorvida, entretanto, inegavelmente, Extraordinário permanecerá sendo um trabalho intrinsecamente tocante, e, relevando, digno de seu próprio título.

Extraordinário (Wonder) — EUA, 2017
Direção:
Stephen Chbosky
Roteiro: Jack Thorne, Steve Conrad, Stephen Chbosky (baseado em romance de R.J. Palacio)
Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Danielle Rose Russel, Noah Jupe, Millie Davis, Bryce Gheisar, Mandy Patinkin, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Ali Liebert, Elle McKinnon, James Hughes, Ty Consiglio, Crystal Lowe, Kyle Harrison Breitkopf, Sonia Braga
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.