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Crítica | Extremity

por Kevin Rick
276 views (a partir de agosto de 2020)

Extremity é uma série da Image Comics, composta por 12 capítulos, em dois volumes, Artist Warrior, escrita e desenhada por Daniel Warren Johnson, que foi um tremendo sucesso americano, tanto em questões de vendas, quanto de recepção qualitativa, seja da crítica ou do público estadunidense. Na célebre narrativa, Daniel apresenta um mundo pós-apocalíptico preenchido por múltiplos clãs em guerra, e no cerne do ódio adversário, acompanhamos a jornada de Thea, a princesa dos Roto, um clã em busca de vingança contra os Paznina por ataques passados. E, chefiando esse percurso de retaliação, temos o caótico, perturbado e melancólico pai da protagonista, Jerome. Somando com seu irmão benevolente, Rollo, o trio familiar angustiante e amargurado compõe o núcleo da obra, com cada um assumindo diferentes “estágios” do luto.

O patriarca Jerome é seu típico personagem cego pela fúria, completamente consumido pelo ódio, continuamente relembrando acontecimentos trágicos como motivo único de vivência vingativa, enquanto a personalidade de Rollo vai na contramão da figura paterna, respaldado por uma visão otimista da vida, sempre idealizando um futuro pacífico para si mesmo e a irmã Thea. Personagem esta, que encontra-se nessa turbulência emocional e psicológica familiar, preenchida por dúvidas, tristeza e violência. O arco da protagonista é baseado na perda, não apenas parental, e sim de propósito, já que os Paznina roubaram sua vocação (desenhar) através do desmembramento. Acho que é a partir disso que Daniel começa a diferir sua trama de uma típica história de vingança, utilizando da arte – mais necessariamente a falta dela – como fio condutor da narrativa.

Aliás, esses elementos de habilidade perdida e corte corporal são usados constantemente no mote, manuseados de modo simbólico nesse objetivo do autor de expor a perda de aptidão como uma espécie de morte lenta para os personagens, construindo ótimos arcos e cenas contidas de destruição emocional, além de extrema violência gráfica, embasadas na ideia geral de busca por propósito inalcançável. E Daniel vai além, criando costumes tribais de denominações individuais, como “Protetor” para Jerome, e “Artista” para Thea, aumentando a dramaticidade pessoal de cada personagem por literalmente perderem seus títulos culturais que definem suas vidas.

Ademais, essa elaboração cultural dos clãs, unido à construção fantástica de mundo, é um dos elementos mais intrigantes e bem realizados do quadrinho, com muitos discursos de identidade coletiva, divergentes visões sociais, misticismo, costumes e tradições, história local e mundial como delimitação do futuro, e até mesmo críticas ambientais e tecnológicas à realidade global atual, enriquecendo o enredo de natureza humana corrompida pelas adversidades impostas pela vida. E, dentro dessa incrível construção do tribalismo, a crueldade reina intocável e ininterrupta, transposta pela deslumbrante arte e criatividade do autor.

Os desenhos são minuciosamente detalhados, com traços que até passam uma impressão simplória, contudo, são perfeitamente fluidos, realçados pelas vívidas cores do Mike Spicer, empregando bastante o vermelho no contexto hediondo da narrativa, mas sempre mantendo os painéis extremamente coloridos a despeito do tom sombrio da história, criando um ótimo contraste de paleta artística com os desenhos geniais do Daniel, que dispõe de uma criatividade invejável na elaboração da ambientação, uma mistura de sci-fi futurista com fantasia clássica, desfrutando de inventivos cenários, máquinas de transporte, e, especialmente, criaturas fantásticas.

Confesso ter uma pontinha de desapontamento com a narrativa apressada – poderíamos facilmente ter o dobro, ou até mesmo o triplo de capítulos -, que “come” o desenvolvimento de antagonistas interessantes, e até mesmo do cerne familiar dos clãs tão bem apresentados, ficando aquele gostinho de quero mais, e um final um tantinho anticlimático pelo desfecho abrupto, passando uma sensação de pressa do autor. Ainda assim, Extremity é uma violenta, pungente, taciturna e baita divertida jornada nos dramas pessoais de Thea, tocando em assuntos artísticos inovadores no molde vingativo, nunca adentrando um sentimentalismo barato, mas sim arrebatando o leitor emocionalmente. Uma HQ sobre a mudança dos caminhos da vida, como os próprios nomes dos volumes especificam, artista e guerreira.

Extremity – EUA, 2017/2018
Contendo: Extremity – Vol 1: Artist (#1 a 6), Vol 2: Warrior (#7 a 12)
Roteiro: Daniel Warren Johnson
Arte: Daniel Warren Johnson
Cores: Mike Spicer
Letras: Rus Wooton
Editoria: Sean Mackiewicz, Arielle Basich
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: não lançado no Brasil à data de publicação da presente crítica
Páginas: 280

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