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Crítica | F.o.t.o.g.r.á.f.i.c.a.s

por Leonardo Campos
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Uma fotografia é o recorte que você ilumina. Pode ser também muitas coisas além disso, mas esse ponto de vista de uma das entrevistadas no documentário F.o.t.o.g.r.á.f.i.c.a.s é direto, sem objetividade. É uma fala reflexiva que pode ser interpretada de diversas maneiras, tal como o exercício da fotografia apresentado ao longo dos 58 minutos desta produção da TVE Bahia, dirigida por Caroline Vieira e Hewelin Fernandes. Gravado inteiramente nos estúdios da rede televisiva, a narrativa é divida em três blocos temáticos: a história da mulher no campo da fotografia, a prática fotojornalística feminina e concepções filosóficas sobre o olhar da mulher que fotografa. Com depoimentos das gerações contemporâneas, acompanhados pelo embasamento da experiência de quem realiza imagens há décadas, o documentário expõe diversas estratégias de realização deste ofício que se transformou muito ao longo de sua história permeada por curiosidade, busca por estetização e transposição do suporte impresso para a febre digital.

São em média 17 fotógrafas que nos conta algumas situações que se assemelham ao formato crônica. Elas narram o que acham da fotografia, como esta modalidade se tornou algo profissional e artístico em suas respectivas vidas, numa prática além do diletantismo. O material, finalizado pelo editor Rafael Pereira, contempla as fotografias assinadas por essas mulheres, imagens conectadas aos seus depoimentos, alguns mais longos, outros bem sucintos. O importante é que até mesmo as pessoas com menor tempo em tela possuem coisas muito relevantes a dizer. Da nova geração, Marina Silva, Mariana David, Shai Andrade, Rosa Bunchaff e Helemozão expõe um lado mais politizado do fotojornalismo, algo também revestido de beleza e apuro estético, mais conscientizadas das questões de gênero que permeiam os debates sobre o fazer artístico nos tempos atuais. As exposições das veteranas não focam com muito detalhismo nestes aspectos, algo que por sua vez, não desfavorece os seus relatos.

Muito ao contrário, reforçam como a prática dessas mulheres mais voltadas aos traços estéticos da fotografia deram a base de sustentação para as gerações mais recentes. Arlete Soares, Isabel Gouveia, Maureen Bisilliat, Margarida Neida, Valéria Simões, Sora Maia, Shirley Stolze, Nair Benedicto, dentre outras, contam as suas histórias que abrilhantam o teor conteudista do documentário televisivo e delineiam como as novas gerações estão caminhando para um trabalho consciente e fortalecido da prática fotojornalística feminina, um campo de atuação ainda muito dominado pelos homens. Em seus relatos, contam que para ser fotojornalista, é preciso aderir a tríade arquiteto+ladrão+invisível, isto é, saber exatamente a hora de posicionar e estruturar o olhar, roubar momentos com simbolismo e ser alguém com capacidade de não ser notado neste processo. É uma atividade que sabemos, envolve risco e muita exposição, situações prontas para desencorajar, mas que no caso destas “guerreiras”, é assumida com sucesso.

Antes de adensar nos depoimentos com experiências mais pessoais, F.o.t.o.g.r.á.f.i.c.a.s faz um breve, mas elucidativo passeio pela fotografia feminina ao longo do século XIX e XX, embasado nos próprios casos contados pelas entrevistadas. Temos ilustrações com as fotos de Julia Cameron, inglesa conhecida por estetizar algumas fotos e sair da mera curiosidade para criar algo com as imagens. Ela havia ganhado de sua filha a máquina e ficou conhecida por registros bem peculiares. Dorothea Lange também, famosa por suas fotos em situações jornalísticas, nome de peso na história da fotografia realizada por mulheres. Cristina Damasceno, numa fala de muita coerência, expõe a dificuldade em nomearmos o marco zero, pois essa é uma atitude da história que se diz oficial, tarefa árdua e quase sempre desconstruída ao passo que a ciência avança e escava registros desconhecidos até então. A fala dela vai até o marco zero. Ressalto que o restante é complemento meu. Há também uma rápida alusão a história da Kodak. A empresa, em suas primeiras peças publicitárias, divulgava as novas possibilidades de se realizar fotografia na época e inclusive, com tom muito preconceituoso, construía mensagem do tipo “é tão fácil que até as mulheres podem fazer”.

Isso seria uma passagem aleatória e panfletária se o documentário não fosse exclusivamente sobre fotojornalismo e outras práticas de fotografia realizadas por mulheres. Arlete Soares traz a sua experiência de ter fotografado em vários locais do planeta. Valéria Simões, conhecida por sua dedicação ao recôncavo baiano. Isabel Gouveia e a cobertura de festas populares desde a década de 1970. Margarida Neida e o fotojornalismo futebolístico, o que pensa rápido e pede agilidade, campo pouco comum para a atuação feminina. O lugar da mulher negra e das questões de gêneros das mais contemporâneas. São variados os olhares, todos pertinentes com o tema central, a prática da fotografia, algo que pede experiência, paciência e intuição, tarefa que ainda é marcada pela preocupação de algumas em devolver aos registrados, o resultado do trabalho, em exposições, varais e outras modalidades de apresentação. Ademais, F.o.t.o.g.r.á.f.i.c.a.s cumpre a sua função de informar com o tom pedagógico que é marco da TVE, num único e perdoável aspecto não favorável: a direção de fotografia que não contempla as entrevistadas da melhor maneira possível. Custava investir na metalinguagem?

F.o.t.o.g.r.á.f.i.c.a.s — Brasil, 2017
Direção: Caroline Vieira, Hewelin Fernandes
Roteiro: Caroline Vieira, Hewelin Fernandes
Elenco: Arlete Soares, Isabel Gouveia, Maureen Bisilliat, Margarida Neida, Valéria Simões, Sora Maia, Shirley Stolze, Nair Benedicto, Marina Silva, Mariana David, Shai Andrade, Rosa Bunchaff, Helemozão
Duração: 58 min.

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