Home QuadrinhosArco Crítica | Fabulosos Vingadores: Os Gêmeos do Apocalipse

Crítica | Fabulosos Vingadores: Os Gêmeos do Apocalipse

por Luiz Santiago
163 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Spoilers!

É impressionante o nível de crescimento do roteiro de Rick Remender do primeiro arco destes Fabulosos Vingadores (A Sombra Vermelha) para este fantástico Os Gêmeos do Apocalipse, que coloca os irmãos Uriel e Eimin em apaixonada execução do plano de seu “pai” Kang, cujo objetivo é arrebatar todos os mutantes e evitar um futuro catastrófico de escravidão e servidão liderado pelo Caveira Vermelha.

Quero deixar claro desde já que as únicas coisas que me impediram de dar nota máxima para este arco foi a escolha de Remender em fazer da edição #6 um flashback isolado da ação principal — logo ele, que consegue escrever ações paralelas tão bem! — e a fixação um pouco redundante do drama de Uriel e Eimin, que começam com uma intenção e orientação específicas mas que aos poucos vão migrando para estágios de um plano que expõe como as ações alteram o comportamento dos planejadores, algo que acaba se tornando frágil demais — e na prática, confuso — em termos de roteiro.

A despeito desses aspectos, é impossível não elogiar com toda honestidade a escancarada e fortíssima crítica que o autor faz às inúmeras formas de preconceito e à segregação de pessoas. Que texto poderoso nesse sentido! O que inicialmente era apenas uma luta mais ou menos localizada contra o Caveira Vermelha e sua semente de ódio (plantada para colocar humanos contra mutantes) tornou-se uma batalha de aspecto cósmico, com direito ao assassinato de um Celestial, ao retorno para a juventude de Thor e seu lendário machado, o Jarnbjorn; à destruição da Zênite e a um denso embate ético-moral entre Vingadores e X-Men.

Dentre as muitas estratégias utilizadas pelos gêmeos, a divisão dos Fabulosos Vingadores parecia ser, a princípio, a mais difícil, já que o grupo havia aceitado deixar os egos de lado para seguir o sonho de alguém que respeitavam muito. Contudo, à medida que segredos do passado e desconfianças do presente entram em jogo, esta separação se torna tão fácil como qualquer outra parte do processo. A impressão que o leitor tem é de ver um grande movimento político segregador se construir, utilizando-se das mais diversas armas e forças e com um discurso que justifica a carnificina pela salvação que trará a um determinado grupo. Mais uma vez, o texto de Rick Remender serve como um gigantesco dedo na ferida de diversas sociedades, tanto como memória de tempos passados (expondo antissemitismo e holocaustos) quanto como espelho da realidade, fixado em problemas com os imigrantes na Europa e na América e em uma série de outras áreas que envolvem a separação, diminuição, destrato ou condenação de alguém apenas por ser “diferente”.

A edição #9 traz um soberbo diálogo entre Vampira e Feiticeira Escarlate, tornando-se a melhor e mais relevante edição de todo o arco, porque constrói o verdadeiro significado por trás de toda esta batalha de separação. Remender acende o debate sobre civilização, aceitação e convivência e ainda consegue problematizar com destreza algumas variáveis para o projeto do arrebatamento de mutantes, tais como a impressão que os gêmeos deixam de que esta é a “úncia coisa certa a ser feita”; a justificativa de Wolverine e defesa de Thor para o assassinato de Apocalipse ainda criança; a separação do grupo por motivos éticos; o convencimento da Feiticeira Escarlate de que um planeta mutante, longe dos humanos, será bom tanto para um lado quanto para outro e por aí vai.

Denso, instigante e com diálogos extremamente fortes, Os Gêmeos do Apocalipse é um arco para fazer pensar. O leitor não deve se preocupar com a edição 8.1 ou 8AU (Age of Ultron), porque ela é apenas uma expansão “externa” à história, não acrescenta nada de verdadeiramente novo à trama.

Daniel Acuña manda muitíssimo bem na arte, especialmente em quadros que mostram o espaço, naves ou criaturas de grande porte, destruição e lutas. O artista alterna muito bem o ritmo dramático da história através dos desenhos, escolhendo momentos essenciais para as páginas duplas e optando por uma diagramação simples dos quadros, compensado-a com uma arte grandiosa e inteligente. Vale também destacar o ótimo trabalho de cores, que reforça o tempo inteiro a dualidade entre bem e mal ou entre facções distintas em um mesmo lado da moeda. A edição #11, com interessante predominância do preto e azul traz quadros maravilhosos de se ver.

Os Gêmeos do Apocalipse é um libelo contra todo tipo de preconceito e segregação. Uma saga que instiga o leitor e o coloca em territórios que muitas vezes não lhe são confortáveis, situação moral que torna a leitura ainda melhor e desafiadora.

Fabulosos Vingadores #6 a 11: Os Gêmeos do Apocalipse (Uncanny Avengers Vol.1: The Apocalypse Twins #6 – 11 + Uncanny Avengers Vol 1 8AU — Age of Ultron).
Roteiro: Rick Remender (com Gerry Duggan apenas na edição 8.1 ou 8AU)
Arte: Daniel Acuña e Adam Kubert (apenas na edição 8.1 ou 8AU)
Arte-final: Daniel Acuña e Adam Kubert (apenas na edição 8.1 ou 8AU)
Cores: Daniel Acuña e Adam Kubert (apenas na edição 8.1 ou 8AU)
Letras: Chris Eliopoulos (#6 a 9), Cory Petit (#8.1 ou 8AU)), Clayton Cowles (#10 e 11)
Capas: John Cassaday, Laura Martin e Jim Cheung, Mark Morales, Justin Ponsor (apenas na edição 8.1 ou 8AU)
24 páginas (cada uma edição).

Você Também pode curtir

2 comentários

Rafa Silveira 5 de fevereiro de 2016 - 00:59

Essa discussão da Wanda com a Vampira é maravilhosa. É um dos principais motivos de eu gostar tanto dos mutantes. Difícil negar o ponto de vista da Wanda, mas a hipocrisia reina em cada palavra que ela profere. O ponto de vista da Vampira e do Solaris é o mesmo que a Kitty externa em uma das revistas mutantes logo após o discurso do Alex, mas ali ela faz com mais serenidade e eloquência do que a Vampira com sua raiva justificável pela Feiticeira Escarlate.

Essa questão mostra uma coisa que vem sendo muito errada na Marvel desde que tentaram abordar com mais incisão essa disparidade em AvX. A Wanda ali é a voz de uma parcela de pessoas do mundo hoje que n convive com o preconceito, mas que prega o respeito as pessoas independente da etnia, religião ou qualquer outra diferença. É um bom modo de se pensar e se levar a vida. Um que se fosse mais corriqueiro faria o mundo um lugar bem melhor. Só que o ponto de vista dos mutantes ali é mais forte. O leitor acompanhou tudo pelo que eles passaram e sofrimento que aguentaram. N precisa nem ir muito longe pra ter um vislumbre. Segundo Advento é a síntese perfeita, até o que acontece durante a Cisma com os governos do mundo inteiro apontando as Sentinelas. Ninguém estendeu a mão de fato. Ninguém os ajudou quando eles mais precisaram. Eles foram caçados, dizimados e isolados só por serem mutantes. Eles fizeram um puta esforço pra superar as diferenças que tinham entre eles nos tempos de crise pra sobreviverem. E sobreviveram a muito custo e sozinhos. É muito lógico que alguém que sofre preconceito e luta pra superar queira estampar com orgulho aquilo que por muito tempo o fez ser marginalizado.

O pq de eu achar que a Marvel vem errando com isso é que toda maldita história acaba prevalecendo o ponto de vista da maioria. É uma abordagem interessante pq é positiva e abrange uma parcela maior de leitores, mas n é a mais acertada. Eles apontam a hipocrisia e ainda deixam ela prevalecer. Começou a ficar feio com o Logan na Cisma, escancaram em AvX, aprofundaram a questão no discurso do Alex, na resposta da Kitty e nessa discussão da Wanda e da Vampira, mas chegaram no auge do descaso agora com a “ascensão inumana”, mesmo que tb tenha por trás a questão mercadológica. É meio revoltante.

Responder
Luiz Santiago 5 de fevereiro de 2016 - 12:22

Tendo em vista a questão mercadológica, eu acabo ficando menos bravo que você em relação a esse “tratamento final”. Sabe a ideia do “PELO MENOS”? Nesse caso, pelo menos estão levantando discussões interessantes, válidas para o nosso tempo e mostrando mais de uma versão de pensamento a respeito e não colocando as histórias dentro de um único modo de ver as coisas. Isso é muito legal.

Mas eu entendo e concordo com a sua revolta de, no quesito de colocação da própria editora, haver a escolha final para a versão “fácil” da história, a despeito de toda a discussão levantada. Claro que isso também pode ser uma forma de mostrar o caminho da realidade — as coisas acabam indo mesmo por este caminho — mas seria legal ver, pelo menos em uma saga dessas grandes, o resultado final apontando para algo inesperado…

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais