Crítica | Face Oculta: Os Saqueadores do Deserto

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Ficções históricas não são extremamente populares nos quadrinhos (se compararmos com o elemento de quadrinhos extremamente populares, como os de super-heróis, por exemplo), especialmente fora da Europa. Primeiro porque existe uma grande dificuldade de conseguir um largo público para consumir esse produto, o que pode desencorajar muitas editoras a investirem pesado em um projeto desse gênero. No caso da Sergio Bonelli Editore, a situação é diferente. Tex, o carro-chefe e publicação mais antiga da casa já é, pelo sim, pelo não, uma ficção histórica — ou uma ficção que se apropria e recria diversos elementos e momentos históricos. Ao longo dos anos, alguns títulos com esta caraterística surgiram na editora e tiveram boa aceitação, o que justifica a aparição periódica de séries e minisséries que retratam personalidades ou fases da História do mundo, sempre com um quê aventuresco e fictício que cumpre o papel de conquistar o leitor. Este é o caso de Face Oculta.

Publicada entre outubro de 2007 e novembro de 2008, ao longo de 14 volumes, Volto Nascosto se passa entre a Itália, Etiópia e Eritreia, começando a saga em Os Saqueadores do Deserto, no ano de 1889. O roteiro, escrito por Gianfranco Manfredi, nos apresenta Enea Pastore, representante comercial da guilda Caput Mundi enviado a Massaua, cidade da atual Eritreia, banhada pelo Mar Vermelho, para fechar acordos comerciais de grande importância para a Companhia. Na época, porém, não existia um país chamado Eritreia. Esta nação se tornou independente apenas em 24 de maio de 1993, portanto, toda vez que falarmos de Eritreia aqui, consideram o período em que o território era possessão etíope. A escolha por utilizar os nomes atuais é para evitar incompreensões e bizarrices geográficas.

Durante essa missão, Enea Pastore está acompanhado do filho Ugo, personagem que ganhará o protagonismo da saga. Visivelmente rejeitado pelas pessoas, Ugo tem um problema na pálpebra, que é baixa, dando a impressão que ele está flertando, por isso utiliza o cabelo do lado do olho doente. Em pouquíssimas páginas o leitor aprende a gostar de Ugo e a admirá-lo. O jovem não deixa nenhuma observação pessoal de fora e sempre que tem algo para corrigir, perguntar e sugerir, ele o faz, independente da autoridade que esteja à sua frente ou do perigo de vida que ele corre no momento. O texto faz questão de expor o jovem a situações constrangedoras para então tirá-lo de maneira vitoriosa, aproveitando a oportunidade para mostrar novas habilidades do rapaz, como o fato de ser um exímio atirador, um excelente tradutor e alguém com grande conhecimento de leis, das religiões majoritárias naquelas terras (cristianismo e islamismo) e das muitas culturas espalhadas pela região.

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Ugo, depois do massacre no deserto.

As terras da Abissínia naquele momento estavam sob um atípico estado de paz. Em 2 de maio de 1889 foi assinado o Tratado de Wuchale, que cedia algumas regiões da Etiópia à Itália em troca de apoio financeiro e militar, fortalecendo o poder do recém-coroado Menelik II e de sua esposa fortemente presente nas decisões políticas do país, Taytu Betul. Dessa forma, a colônia que Ugo e seu pai encontram está ainda sob adequação de governos, sempre havendo a ameaça de chefes tribais se levantarem contra o reino unificado. Existe corrupção por parte de mandatários italianos (o Conde Antonelli é uma figura histórica que encabeça esse lado) na criação de contratos diplomáticos e comerciais questionáveis; existe miséria assolando a população e existe a parte do Exército e governo colonizador que quer fazer da Etiópia mais um lugar de extração de recursos, uso de mão de obra barata e mercado consumidor. O de sempre, em se tratando do modelo de colonização europeu.

Visitando a alta sociedade e a população nativa, opondo diferentes modos de vida e mostrando um sentimento de resistência à dominação italiana, o autor justifica a aparição e popularidade do misterioso profeta Face Oculta. À medida que os acordos avançam, vemos alguns diálogos sobre dominação política serem travados e inúmeras críticas ao tratamento dado por militares a eritreus e etíopes incorporados ao Exército italiano. Cenas de racismo e violência ganham destaque nessa fase da história, uma outra oportunidade utilizada pelo autor para desenvolver os personagens, agora em sua vertente moral, ética e ideológica. A arte de Goran Parlov explora com bastante simplicidade os quadros abertos, mantendo traços descuidados e finos nessas ocasiões. Já nas cenas mais emotivas e em quadros fechados, onde existe relevância para os personagens e para o cenário onde eles estão, os desenhos ganham finalização mais escrupulosa, com muitos detalhes em volta e normalmente com mais de um personagem em primeiro plano.

Neste volume de abertura da saga de Ugo Pastore e Face Oculta, nós temos de tudo um pouco: uma missão comercial, o fechamento de um acordo diplomático, uma caravana pelo deserto que termina em massacre e o lançamento das cartas políticas que envolviam a nova colônica italiana na África. O tom mais despreocupado e abrupto do roteiro que vemos no final do volume tem peso negativo, derrubando o bom ritmo da história, mas é em parte compreensível porque usa dos acontecimentos no deserto para afastar Ugo da Etiópia. O primeiro ciclo do personagem então se fecha com um cliffhanger que não engana ninguém: Face Oculta voltará a vê-lo muito em breve.

Face Oculta: Os Saqueadores do Deserto (Volto Nascosto #1: I predoni del deserto) — Itália, outubro de 2007
Editora original: Sergio Boneli Editore
No Brasil: Face Oculta – Volume Um (Panini, 2016)
Roteiro: Gianfranco Manfredi
Arte: Goran Parlov
Capa: Massimo Rotundo
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.