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Crítica | Fada Madrinha (2020)

por Laisa Lima
655 views (a partir de agosto de 2020)

Desde os primórdios, a invenção e a esperança da existência de uma felicidade eterna é a base de enredos diversos mas semelhantes em suas essências. A Disney, principal fonte desse sentimento, nos ensinou em múltiplas oportunidades que essa tal felicidade não vem fácil. É necessário lutar contra um dragão, superar as explorações feitas por seus próprios “familiares”, encarar uma criatura quase animalesca, ou qualquer outra adversidade advinda das mazelas de se tentar ser plenamente feliz. Porém, uma coisa é garantida: no final, o sucesso vem. E Fada Madrinha (Sharon Maguire, 2020) chegou para trazer à tona a realidade das verdadeiras realizadoras do contentamento infindável de príncipes e princesas.

Sempre entusiasmada, Eleanor (Jillian Bell) consegue contagiar com sua alegria constante. Contagiar talvez apenas o público, mas não seus colegas de classe. Até porque, o mundo das fadas madrinhas está prestes a acabar e todas serão reduzidas ao monótono cargo de fadas do dente. Eleanor, entretanto, não deixa sua característica confiança morrer e parte para uma missão na Terra, necessitando conceder o “felizes para sempre” na antes criança e hoje mulher, Mackenzie (Isla Fisher). Estabelecida a trama e conhecendo a Disney, é de se esperar que essa empreitada sofrerá percalços, mas poucas situações terão uma maior dramaticidade ou uma seriedade extrema, apesar do potencial para isso. Dito e feito.

Com ares de Encantada (Kevin Lima, 2007), o longa-metragem de Sharon Maguire pode ser facilmente comparado com o filme de 2007 por conta de sua premissa: um Ser de um plano mágico tenta se adaptar ao mundo real, combatendo sua própria natureza pura e ingênua em meio a um “reino” repleto de concreto, arranha-céus e indivíduos não tão bem intencionados. Visto isso, o que Eleanor teria que encarar, basicamente, é explanado em uma das primeiras cenas da personagem entre os humanos. Sua fala, ao encontrar uma caminhoneira, entrega as dificuldades que a fada terá, já que sua falta de normalidade e conhecimento daquele local servirá de sustento para ocorrências futuras. Apesar de distintas, todas envolverão a mundanidade precária da jovem, o que em partes funciona, em partes cansa.

A fórmula dos seres de origem fora da órbita, deslocados e em busca de pertencimento (e entendimento) na moradia dos humanos já foi utilizada em dramas de forte sobriedade, como  Encontro Marcado (Martin Brest, 1998) e em comédias despretensiosas como Little Nicky: Um Diabo Diferente (Steven Brill, 2000). Ou seja, é batida a ideia de que esses indivíduos terão dificuldades a se ultrapassar, e é óbvio o parecer de que, em um filme relacionado a uma criatura mágica, a singeleza com que aconteceriam tais eventos seria muito maior. Na película, nada parece preocupante demais, pois não há tempo nem para se preocupar. A resolução dos dilemas pouco dá margem para a criação de uma tensão mais intensa, e o pensamento de um desenrolar previsível, mesmo em episódios com um bom potencial hilariante, tira um terço do encantamento e da imersão total na história.

Requerer o factual em um filme com um teor completamente fantasioso é ter uma expectativa falha e pouco lógica. Em Fada Madrinha, os acontecimentos surreais e cheios de coincidências, como a ajuda de Eleanor no trabalho de Mackenzie, auxiliam na lembrança de que assiste-se a uma obra envolta por ficção. A cobrança, portanto, não se volta para a veracidade dos fatos, mas sim para com a forma em que acontecem. Sem truques de câmera nem estilizações na fotografia e na direção, o que se observa é uma tentativa de encantamento por meio da irrealidade. A transferência do mundo de Eleanor – um arquétipo de localidade mágico, brilhante, cheio de flores e rico em detalhes – é por onde o filme deseja ganhar o espectador. Os flocos de neve parecem saídos de uma varinha de condão, a casa de Mackenzie é revestida em um castelo, um príncipe real é encontrado na cidade, etc. A causalidade, se menos superficial, poderia ter sido melhor conduzida mediante incidentes com uma lacuna maior para a espera de uma resolução. Se, claro, não houvesse tanta previsibilidade neles.    

Como ponto positivo, Jillian Bell entrega uma fada madrinha realmente mágica. Inocente, a personagem não perde sua alma, sendo genuinamente cômica e fazendo a audiência aguardar por suas reações em face dos ocorridos. E, se ela é a responsável pela credibilidade de toda magia passada pelo filme, Isla Fisher, por sua vez, é a gata borralheira do século 21, com filhos, dívidas e inúmeras incertezas. Com outras figuras mal desenvolvidas, a interação entre as duas é palco para uma provável empatia do público. Considerado que as personagens enfrentam “chefes” autoritários, ambas contradizem, cada uma de sua maneira, as regras impostas por seus superiores, correndo atrás de seus ideais e transformando seus ambientes vigentes, seja o escritório ou seja uma sala de aula mágica mas pouco amistosa.  

Fada Madrinha não condiz com 2020. Leve, o filme de Sharon Maguire não reflete os tempos atuais e não parece extraído da realidade, por mais que certos momentos – falhos – tentem combinar com uma vida habitual. Todavia, o longa-metragem acaba por suavizar momentos potencialmente graves por intermédio de um humor infantil e de uma atmosfera na qual tudo é solucionado de forma fácil. E essa é a intenção. O conto de fadas cheio de imprevistos já previstos, na verdade, só se atualiza na hora de conceder a famosa lição de moral, acompanhando a onda movida pela Disney de repassar conceitos que devem ser adotados pela sociedade, como a condição da mulher independente e mesmo assim realizada. É fato que o roteiro não dá prioridade à complexidade do âmago dos personagens, mas sua opção de estagnar seu foco na aceitação de uma escondida fantasia inserida no dia a dia, pode acalentar alguns corações. Os outros, que caçam fábulas com uma sutileza narrativa aliada a detalhes técnicos mais aprimorados, podem pesquisar posteriormente sobre A Bela e A Fera (1946), de Jean Cocteau.

Fada Madrinha (Godmothered) — EUA, 04 de Dezembro de 2020
Direção: Sharon Maguire
Roteiro: Melissa Stack
Elenco:  Jillian Bell, Isla Fisher, Santiago Cabrera, Mary Elizabeth Ellis, June Squibb, Jane Curtin, Utkarsh Ambudkar, Stephine Weir
Duração: 110 min.

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4 comentários

Beatriz Lynch 18 de dezembro de 2020 - 18:19

Nossa, sua primeira postagem aqui, que bacana, gostei da sua escrita. Parece ser um longa assistivel.

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Laisa Lima 13 de janeiro de 2021 - 11:00

Obrigada! Não é dos melhores, mas é bem assistível sim!

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Davi Lima 18 de dezembro de 2020 - 18:19

Com ares de encantada e com esse essência da Disney fora da realidade…deu interesse de ver. Vou atrás do filme da Bela e a Fera de 46.

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Laisa Lima 13 de janeiro de 2021 - 11:00

Não vai se arrepender, junta esse ar encantado da Disney com uma trama mais complexa. É maravilhoso!

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