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Crítica | Fake, de Felipe Barenco

por Cida Azevedo
20 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

No ano passado (2016), as escolas municipais de São Paulo receberam uma portaria que versava sobre o trabalho desenvolvido nas chamadas salas de leitura. Segundo as novas diretrizes, deveriam ser abordadas obras de autores e temáticas tais como mulheres, negros, periféricos… e público LGBT. Só nesse momento — cegos pelos privilégios, como somos às vezes — percebi que praticamente não conhecia literatura que tratasse da homossexualidade e/ou transexualidade de maneira central e natural. Havia visto uma ou outra coisa no cinema (como o belíssimo Hoje eu Quero Voltar Sozinho), mas em matéria de leituras… Nada. Felizmente, pouco depois chegou às minhas mãos o romance Fake, do estreante Felipe Barenco. O livro veio até mim pela recomendação de um amigo que achava importante justamente a representatividade do romance, especialmente se tratando de literatura juvenil.

Fake é narrado em primeira pessoa por Téo, um jovem carioca que acaba de ingressar numa prestigiada faculdade de direito. Téo mora com os pais, o irmão Lucas e a avó, numa perfeita família tradicional brasileira… exceto o fato de que ele é gay, embora os pais ainda não saibam no início da trama. A verdade virá à tona, no entanto, pois Téo se apaixona por Davi, um jovem paulista com o sonho de ser ator. E desse relacionamento conturbado e cheio de reviravoltas vai se tecendo um romance moderno e personagens muito reais, que enfrentam desde problemas familiares, primeiro emprego, dor de cotovelo, até… o vírus HIV.

O livro de Felipe Barenco trata, antes de tudo, da entrada na vida adulta. O ingresso na universidade, a independência — desejada ou forçada pelas circunstâncias –, a dificuldade em se tomar decisões e em pagar as contas são questões que permeiam o enredo. É interessante como é fácil para um leitor jovem adulto se identificar com grande parte dos problemas de Téo. Fake é sobre a vida comum, o cotidiano. Mas isso não o torna menos atraente, pelo contrário: como numa novela, somos impelidos a descobrir como o jovem protagonista vai resolver a vida e se livrar das enrascadas tão reconhecíveis por tanta gente. Quem sabe a resolução da trama não dá até umas dicas, por que não?

Outro ponto legal do romance de Barenco é o tratamento dado ao HIV. O vírus que foi o pavor de gerações e repetidamente tratado na mídia de maneiras bem questionáveis aqui adquire contornos mais realistas. Não há descrições terríveis sobre pessoas à beira da morte, nem idealização do mártir que sofre com a doença cruel e incurável. Só pessoas comuns, com seus defeitos inerentes, lidando da maneira possível com o choque, o medo, a doença. As dificuldades enfrentadas por um casal em que há apenas um soropositivo. E, o mais importante: como a presença da doença não anula todos os conflitos existentes antes, durante ou depois da descoberta, nem transforma ninguém em santo ou capeta. Parece básico, mas infelizmente nada disso é óbvio.

A narração do romance também é bacana. O livro é escrito em capítulos curtos, cheios de referências à poesia e à cultura pop. Autodefinido como YA, apresenta a linguagem simples, jovem e tranquila comum ao gênero, acrescida de certo lirismo bonitinho e autoral. De maneira simples, sem muita firula, conquista pela proximidade com o que é real, com o que é nosso, por assim dizer, pelo menos no que diz respeito a um brasileiro urbano jovem de classe média. Não é melhor também por isso: às vezes, falta um pouco de emoção, uma sacudida (assim como na nossa vida real também, né não?), uma reviravolta que esquente as coisas. Às vezes é muito morno. Porém, o crescimento do jovem Téo — a história se passa mais ou menos no intervalo de um ano, mas muuuuita coisa acontece com ele nesse período — é trabalhado de maneira delicada, cumprindo aquilo a que o romance se propõe.

Cabe dizer que o desfecho é inusitado — um tanto engraçado e surpreendente, pode-se dizer, especialmente depois da já citada carência de emoção. Uma mancada grande da edição que vale mencionar é a presença de um baita spoiler no marcador de página que acompanha o livro: imperdoável. De resto, a gente perdoa os pequenos deslizes de Barenco porque a proposta é bacana demais. Estamos falando de um protagonista gay não estereotipado e com o qual é fácil se identificar. O tipo de livro que é necessário e muito bacana, mas que infelizmente ainda é pouco acessível. Segundo o site do autor, Barenco “escreveu o livro que sempre quis ter lido quando era novo, mas que ninguém escreveu”. Só podemos esperar que os jovens Felipes de hoje possam ter cada vez mais livros e personagens que os representem.

Fake – Brasil, 2014
Autor: Felipe Barenco
Publicação: Umô – Usina de Criação
263 Páginas

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