Crítica | Fala Sério, Mãe

Fala Sério, Mãe é um filme com temáticas relevantes, mas execução falha. Em seus 80 minutos, a comédia dramática flerta com o segmento “filme de verão”, conhecido também como “filme família”, tipo de narrativa destinada a agradar ao máximo de pessoas, de faixas etárias distintas, tendo como foco a abordagem de questões peculiares sobre amor, amizade, conflitos e outros tópicos no bojo das relações familiares. Convencional e com uma história amarrada, a produção traz Ingrid Guimarães e Larissa Manoela como mãe e filha, ambas num misto de amor e ódio, satisfação e insatisfação, carinho e irritabilidade, dentre outros sentimentos polares.

Dirigido por Pedro Vasconcelos, cineasta que teve como guia o roteiro escrito por Dostoiewski Champagnate, Paulo Cursino e Ingrid Guimarães, trio inspirado no livro homônimo de Thalita Rebouças, Fala Sério, Mãe é uma comédia dramática com carga emocional conectada aos anseios de uma mãe em busca da perfeição. Composta com traços de seu personagem na franquia De Pernas Pro Ar, a mãe criada por Guimarães é verborrágica, bem pós-moderna e antenada com o universo de seus filhos, numa postura ativa que a permite ser bem próxima, ao passo que eles buscam o distanciamento, por achar “mico” ter uma mãe tão coruja.

A postura de Ângela Cristina é semelhante aos caricatos movimentos de Dona Hermínia, personagem de Paulo Gustavo, comediante que por sinal faz uma participação sem motivação dramática nenhuma, tal como o cantor Fábio Jr. Com pose de celebridade, os artistas aparecem na narrativa como adorno extra, sem função narrativa que explique as suas respectivas presenças em cena. Coisas do campo da comédia cinema brasileira desde a abominável era Xuxa.   Narrado inicialmente pela mãe, para depois ser guiado pela filha, o filme trata de crises matrimoniais, seguida de separação, crescimento dos filhos, desafios da adolescência, perda da virgindade, etc.

Focado nas agruras da mãe e da filha, a produção dá algumas voltas para tratar de temas simples e apresenta de maneira superficial, abordagens que mereciam melhor entrosamento, mesmo se tratando de uma comédia interessada no retorno financeiro imediato. Interessante como um roteiro com homens envolvidos, bem como uma direção igualmente masculina, consiga atribuir vernizes femininos que abordam o machismo em nosso cotidiano. Depois da insatisfação, o pai segue a sua vida, relegando o casamento por conta do desgaste. Ele se refaz, se ajusta e vive um novo amor. Ela precisa de tempo, pois o foco é cuidar dos filhos, “essencialismo” imposto e trabalhado na sociedade para aprisionar as mulheres dentro de obrigações que não passam de construtos sociais de pouca permeabilidade, haja vista a impossibilidade de muitas mulheres em sair de tal condição.

Ao seguir o padrão “nós brigamos, mas no fundo nos amamos”, Fale Sério, Mãe traz uma espécie de leitura do que a psicóloga Doris Janoni chama de contrato social implícito. Tal contrato reforça que todas as filhas devem ser gratas às suas mães pela vida que receberam. Para as mães cabe a dedicação integral, num processo de abstenção que da própria vida, numa sublimação contínua dos desejos e vontades da mulher-mãe, alguém que precisa se habituar ao que dizem ser sua função biológica. A relação de Ângela Maria de Lourdes segue bem este roteiro.

Quando as exigências impostas neste contrato social são violadas, os conflitos pululam para estabelecer a crise. A fase adolescente, foco de ¼ do filme, é a mais crítica. Na infância geralmente a filha idealiza a mãe, o que não ocorre na adolescência, pois a representação materna antes vista como perfeita agora é alvo de críticas e contestações frequentes. Em seu processo de afirmação de identidade, a filha desafia a mãe e rebela-se provisoriamente, sendo necessário a sabedoria do lado mais maduro para que as coisas não causem grandes atritos no bojo familiar, tal como ocorre em muitas passagens de Fala Sério, Mãe.

Interessante observar o paralelo com A Relação Mãe e Filha, de Malvine Zalcberg, livro que aprofunda na radiografia da construção da imagem feminina da mãe. Guiado por teorias freudianas e lacanianas, as reflexões apostam na análise do referencial mãe e filho, problematizados no Complexo de Édipo, mas aponta que o arquétipo da madrasta maléfica dos contos populares ainda é o ponto de partida para análise de muitas relações mãe e filha. Seria interessante se o filme tivesse a preocupação em canalizar a diversão escapista com alguns destes elementos reflexivos.

Com direção de fotografia de Luciano Xavier, o filme apresenta captação de imagens e iluminação sem grandes momentos memoráveis. A direção de arte de Zé Luca faz um trabalho adequado, em especial, no apartamento da família Siqueira Paz. O trabalho de som de Bruno Marques cumpre o seu papel, juntamente com a trilha sonora, responsável por acompanhar as imagens com músicas eternizadas pelo imaginário cultural popular. Lançado em 2017, Fala Sério, Mãe é uma abordagem divertida e leve sobre a maternidade, em alguns momentos cativantes, noutros superficial e com cenas descabidas, arrastadas e repetitivas.

Fala Sério, Mãe — (Brasil, 2017)
Direção: Pedro Vasconcelos
Roteiro: Pedro Vasconcelos, Paulo Cursino, Ingrid Guimarães
Elenco: Ingrid Guimarães, João Guilherme, Larissa Manoela, Marcelo Laham, Paulo Gustavo, Vitória Magalhães, Cristina Pereira, Duda Batista, Fábio Jr.,
Duração: 88 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.