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Crítica | Falcão Negro em Perigo

por Marcelo Sobrinho
506 views (a partir de agosto de 2020)

Contém spoilers!

Ridley Scott é um especialista em dirigir grandes superproduções com bastante versatilidade de temas. Do drama épico em Gladiador ao aclamado futuro distópico de Blade Runner, o diretor britânico se aventurou com igual abundância de recursos técnicos também no gênero de guerra com Falcão Negro em Perigo – seu longa-metragem de 2001, que segue dividindo opiniões. A minha é bastante clara a respeito. Scott pode não ter entregado aqui o seu melhor filme nem ter inscrito o seu nome no hall de obras-primas do gênero, mas me parecem injustas algumas críticas que Falcão Negro em Perigo tem recebido em todos esses anos.

A grande força-motriz do longa-metragem é mesmo a sua direção. Ridley Scott consegue sustentar um incrível nível de tensão em pelo menos dois terços da obra. Faz tudo o que a gramática do gênero pede e oferece: com a câmera nas mãos, sempre tremulando, mapeia todo o caos do campo de batalha em meio a tiros sem origem certa, explosões ensurdecedoras e pedaços de corpos espalhados pelas ruas. Um grande mérito do diretor é o de tirar proveito de cenas extremas mas verossímeis, como a do soldado partido ao meio e balbuciando um pedido em seus estertores e, principalmente, do jovem ranger desmaiando de dor enquanto o médico tentava estancar a hemorragia de sua femoral. Penso que a direção acerta ao deixar o drama nascer espontaneamente dessas cenas, sem recorrer a um apelo emocional fácil nem tentar transformar a tragédia humana em momentos de pieguice deliberada.

A trilha sonora e a mixagem de som aparecem perfeitas. As cenas de batalha são quase sempre acompanhadas por melodias e ritmos de sotaque africano, com grande destaque à percussão. O trabalho sonoro de Falcão Negro em Perigo ambienta bem o combate em solo somaliano. Outro destaque técnico importante surge na cinematografia granulada de Slawomir Idziak, que tinge os planos com tons saturados predominantemente em verde e amarelo. Se o ponto de vista do filme é retratar que jovens norte-americanos foram enviados para o sacrifício em uma missão absurda na Somália, parte disso quem diz é a própria fotografia da obra, que torna o ambiente hostil, insalubre e mórbido. A paleta de cores pretendida por Idziak insere a tropa americana em um autêntico pesadelo. Falcão Negro em Perigo parece apostar na figura do soldado estadunidense não como um combatente do caos, mas como um de seus partícipes.

O filme de Ridley Scott me parece bem direto em sua forma e conteúdo. Não acho que defenda que os somalis sejam apenas bárbaros, combatendo em desordem o civilizador branco vindo do Primeiro Mundo. Essa é uma das críticas mais imponderadas que já ouvi sobre o longa, uma vez que pouco é retratado do soldado somaliano além de seus atos desesperados no campo de batalha (algo que se encontra facilmente também do lado dos norte-americanos). O que me parece precípuo é notar que o filme assume todo o tempo o ponto de vista do soldado americano lançado ao inferno. O longa-metragem não se desvia disso em nenhum momento. Não muda de lentes nem para retratar a visão do soldado inimigo, nem da população local e muito menos do governo norte-americano. Falcão Negro em Perigo poderia descambar para o patriotismo mais canalha, tratando dos rangers como heróis a serem ovacionados. Mas nada disso ocorre. O retrato que se faz é de vidas que nada valem e são levadas ao abate em uma batalha inútil. Em sua entrelinhas, o filme me parece bater bem forte na política externa governista.

Exatamente por isso, o roteiro enxuto opta abertamente por não realizar grandes desenvolvimentos de personagens, já que o seu brutal sacrifício é o mote do começo ao fim da obra. Os roteiristas apenas pincelam alguns traços de suas personalidades e suas biografias. Há quem tenha se desagradado com frases clichês (como a do soldado com o corpo despedaçado que mencionei antes) ou com lugares-comuns que surgem aqui e ali (a exemplo do ranger que se agarra à foto da família na iminência de um linchamento). Mas penso que é válido perguntar: qualquer um de nós não teria dito ou feito exatamente o mesmo que aqueles soldados em seus últimos momentos? É preciso sempre ressaltar que nem todo clichê é falso. Além disso, inserir brevemente alguns traços humanos em meio ao incessante caos da batalha me parece uma boa forma de mostrar a devastação emocional do soldado – tratado como uma engrenagem na máquina da guerra, que no fim das contas só colapsa sua humanidade e estilhaça sua biografia.

Falcão Negro em Perigo não é um filme para emocionar. Ao contrário de outros dramas de guerra, como Fomos Heróis e O Resgate do Soldado Ryan, que carregam nas tintas para comover o público com o heroísmo e a coragem de seus protagonistas, o filme de Ridley Scott os coloca apenas para serem moídos em um verdadeiro triturador de gente. E para quem ainda sair da projeção enxergando algum patriotismo desavisado nessa história, vale lembrar a informação implícita que perpassa todo o filme: quem foram mesmo os homens que mandaram à Somália os dezenove jovens norte-americanos que de lá nunca voltaram?

Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down) – 2001, EUA
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Ken Nolan, Mark Bowden
Elenco: Eric Bana, Ewan McGregor, Josh Hartnet, Sam Shepard, Tom Sizemore, Charlie Hofheimer, Orlando Bloom, Tom Hardy.
Duração: 152 minutos.

 

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4 comentários

Rodrigo Rocha Vaz 30 de agosto de 2019 - 20:20

Um dos meus favoritos do gênero. Creio que o tempo fez justiça ao longa. Concordo plenamente, Marcelo, quanto à critica ao militarismo. O filme mostra o horror e a perda de todos os lados do conflito. A cena em que o comboio americano para enquanto um pai carrega o corpo do filho é tocante e singela. Uma brutal experiência sensorial.
ABS

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Ted Rafael Araujo Nogueira 30 de agosto de 2019 - 14:36

Excelente texto. Sempre tive uma visão de que este filme visa aprofundar o terror do conflito. O triturador de gente que citara acima. O lance aqui é visar o desastre e a imbecilidade de determinados conflitos travestido de democracia. O problema é que cada um quer enxergar mais do que o filme propõe, ou até o contrário do que k mesmo faz. Tudo por uma questão de visão política viciada.

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JC 30 de agosto de 2019 - 14:17

Oxente….vocês tão me monitorando? Por acaso comprei esse filme hoje haahahaa

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pabloREM 30 de agosto de 2019 - 14:17

É um dos filmes de guerra mais legais que já assisti, apesar de guerra e legal não serem coisas que se encaixem rs. Foi também o início de um período no cinema onde Josh Hartnet parecia que se tornaria um dos maiores nomes do cinema mundial.

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