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Crítica | Fale Comigo

por Leonardo Campos
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Alguém ainda duvida que nós vivemos num mundo sem equilíbrio, repleto de pessoas privilegiadas enquanto outras amargam as agruras da marginalidade social? Isso não é novidade para ninguém. Há quem diga que o discurso da meritocracia seja coerente, mas convenhamos, a questão é mais complexa do que imaginamos de imediato, numa leitura amena e basilar das coisas. Fale Comigo, por exemplo, é um filme que nos permite discutir opções, escolhas, destino e claro, o poder do rádio enquanto meio de comunicação efusivo e popular.

Como apontado no texto de Bom Dia, Vietnã, um dos principais detalhes para o sucesso comunicacional numa rádio é a presença de um apresentador cheio de carisma e presença magnética diante dos receptores. Tal como o filme de Robin Williams, esse também é o caso de Peter Greene (Don Cheadle), protagonista de Fale Comigo, dirigido por Kasi Lemmons, cineasta que teve como guia, o roteiro de Rick Famuyiva e Michael Genet.

Lançada em 2007, a produção narra a trajetória de dois homens com interesses similares, mas em constante conflito, um a ocupar local privilegiado numa sociedade que segrega sem pudor algum e o outro um presidiário carismático e com muito apelo popular, homem que encontra a oportunidade de trilhar novos caminhos por meio da comunicação, um dos seus talentos mais delineados no que tange à sua personalidade forte.

Com história desenvolvida entre maio de 1966 e janeiro de 1984, a narrativa que também flerta com o uso demasiado de drogas, bem como a pobreza e as tensões raciais nos Estados Unidos traz a saga de Petey Greene, um presidiário que depois de uma situação inusitada com outro preso, consegue acordo com a justiça para sair da prisão. Ele consegue fazer o homem em postura de motim, desarmar as suas propostas de balbúrdia, postura que chama à atenção dos envolvidos na situação e registra para o público a faceta irreverente, dinâmica e popularesca de Greene ao assumir o posto de locutor numa rádio mais adiante.

É na prisão que ele conhece Dewey Hughes (Chiwetel Ejiofor), um homem negro relativamente bem sucedido quando comparado ao irmão, Milo (Mike Epps),  que visita peremptoriamente na cadeia, espaço que permitirá o encontro entre os personagens que se tornam grandes amigos por uma longa época, mas acabam colidindo nas opiniões contrárias e no ego que cegará ambos os lados, ceifando uma bela amizade e trazendo dor e tristeza num feixe constante de tragédias. Entre idas e vindas, mudanças de posição e de regras no jogo da vida, os personagens encontram no rádio o veículo ideal para desaguar as suas sensações.

Hughes representa alguém que em plena era de lutas por parte de Martin Luther King, conseguiu se manter ileso diante das estatísticas no que concerne à criminalidade. Ao sair da prisão, Greene vai até Hughes em busca de oportunidades. Os primeiros momentos são de resistência severa, amaciada posteriormente, sob a supervisão absoluta do editor-chefe E. G. Sanderling (Martin Sheen), homem com idade relativamente avançada que vai sentir a pressão subir constantemente diante do estresse diário, pois conter Petey Greene é uma missão desafiadora, tal como o popular e desbocado protagonista de O Rei da Baixaria, narrativa que também versa sobre o poder comunicacional do rádio e a força midiática de uma celebridade instantânea.

Com design de produção assinado por Warren Alan Young, Fale Comigo resgata o período histórico com bastante competência, sendo auxiliado pela direção de arte de Patrick Banister, detalhista e comprometida. Os figurinos de Gersa Phillips conseguem captar bem o espírito da época, elemento que juntamente aos demais setores da visualidade, ganham captação além do trivial de Stephane Fontaine, diretor de fotografia. As imagens captadas por Fontaine são adornadas pela composição musical de Terence Blanchard, veterano no campo em questão, bastante conhecido por suas parcerias com Spike Lee.

Ao longo de seus 118 minutos, a produção radiografa a biografia dos personagens de maneira didática, dinâmica e bem conduzida, talvez um pouco alongada diante da quantidade de conflitos e questões a resolver em sua estrutura dramática. Como boa parte das narrativas biográficas, Fale Comigo não contou com o apoio da família Greene, o que de imediato geralmente mina as expectativas do público. De volta ao que toquei rapidamente na abertura desta reflexão, a produção em questão é um filme sobre escolhas, opções e destino, tal como o brasileiro Uma Onda no Ar, cada um com sua particularidade, mas ambos conectados pelas celeumas vividas por seus personagens, em especial, o racismo como estigma e a pobreza oriunda de um determinismo avassalador.

Após a morte de Greene, homem que defendia a reforma no setor penitenciário, seus familiares criaram uma fundação que tinha como lema “a mudança é atingível”, o que pavimenta mais uma vez a trilha de aproximação entre Fale Comigo e o brasileiro citado anteriormente. Com personagens cheio de loquacidade, carisma e talento para executar suas funções no meio de comunicação em questão, a produção romantiza uma história mais complexa do que já apresentado durante o filme. Escutado por todos, Greene sentiu profundamente o sabor da fama, recebeu propostas, convergiu para a TV, mas decidiu que era o rádio a sua paixão, pois segundo um de seus lemas, “meu povo me ouve na rádio, não na TV”.

Fale Comigo — (Talk To Me) Estados Unidos, 2007.
Direção: Kasi Lemmons
Roteiro:Kasi Lemmons, Michael Genet, Rick Famuyiwa
Elenco:  Cedric the Entertainer, Chiwetel Ejiofor, Don Cheadle, Elle Downs, Jeff Kassel, Martin Sheen, Taraji P. Henson, Vicky Lambert
Duração: 121 min.

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