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Crítica | “Fallen” – Evanescence

por Iann Jeliel
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Fallen

Wake me up… Wake me up inside Fallen

Wake me up… Wake me up inside

Save me…

Call my name and save me from the dark!

O movimento gótico na música surgiu no final dos anos 70 como uma resposta à jovialidade colorida e otimista do movimento punk. Inspirado nas raízes de uma literatura  sombria, bandas como The Cure, Joy Division e Siouxsie & The Banshees representavam todo um nicho de uma sociedade adolescente pessimista e melancólica que criaria seu próprio movimento cultural, com estilo de vestimentas personalizado e um som marcado pela idealização romântica da morte e do imaginário sobrenatural expressionista. Ao longo dos anos 80, o movimento foi perdendo a força, ficando cada vez mais dentro do nicho original e ganhando até outros nomes como “Cultura Obscura”, deixando no imaginário popular uma imagem estereotipada que não conseguia mais se comunicar amplamente com novos públicos, mesmo os mais céticos da geração noventista com os males da iminente chegada da tecnologia, refletida na cultura cyberpunk.

Eis que entra um novo século e a indústria musical começa a viver um novo ciclo de experimentações, que lá atrás deram origem à música gótica na mistura de pós-punk e dark wave, e agora dariam uma sobrevida ao gênero dentro do auge do nu-metal, caracterizado justamente por amplas misturas de diferentes estilos dentro do rock/metal. Evanescence e Fallen, seu primeiro álbum, surgiram justamente no intuito de teatralizar a cultura gótica sobre mixagens contemporâneas. Ninguém da banda provavelmente imaginava que o sucesso absolutamente estrondoso do disco influenciaria também, diretamente, a formação de um novo paradigma na sociedade gótica que direcionaria suas questões existencialistas em pautas sociais presentes. E pensar que no início Fallen foi vendido como álbum de rock cristão, o que é uma loucura, porque há muito pouco ou quase nada de menções diretas ao sobrenatural, nem a monstruosidades vampirescas típicas do gótico nem a divindades angelicais. No máximo, era uma vestimenta teatral, como dito, para vender um conteúdo relevante de indignações pertinentes a serem debatidas.

Going Under, Bring me to Life e Taking Over Me explicitam os males de um relacionamento abusivo numa época que isso nem era pauta direito. Tourniquet, Haunted e Whisper abordavam com enorme sensibilidade a depressão e o suicídio, uma temática que no corpo de romantização gótica poderia ser problematizada facilmente se cada música não tivesse uma escolha tão feliz de acordes. My Last Breath basicamente recriava o desespero de alguém no meio do atentado do 11 de setembro. Everybody’s Fool denunciava personalidades que criavam personagens para viver de um falso senso de idolatria – apesar de teatralizar o gótico, Amy Lee nunca vendeu outra persona dentro e fora da banda –, além de ser uma crítica à indústria da moda de forma ampla. Enfim, como dito, pautas relevantes socialmente, mas também existiam os conteúdos de pautas mais pessoais, como as homenagens maduras aos lutos particulares dos eu-líricos em My Immortal (direcionada para o avô de Ben Moody, cocompositor da banda) e em Hello (dedicada à irmã mais nova de Amy que morreu aos 3 anos de idade), ou à despravação psicológica viajante de Imaginary.

Independentemente da pauta, Fallen seguia a unidade temática ligada à superação do eu-lírico sobre sua alma devastada. Quando se pensa no título, o gótico surgia ali como amplificador melancólico da ambiguidade da posição do eu-lírico, geralmente arrependido e se martirizando com seus erros, extraindo alguma reflexão deles sem, contudo, dar uma posição final se seu sentimento superou ou não aquele trauma. Essa relação ambígua das letras possivelmente conversou demais com a geração millennial, que passava a idealizar incertezas ao invés de exageros existenciais. Além do ritmo conseguido com a mistura de mixagens eletrônicas com piano clássico, orquestra e guitarra objetiva do nu-metal, o que dava às canções uma energia extremamente envolvente e bem batida, com refrões memoráveis cantados pela voz hipnotizante de Amy Lee. Aliás, a voz feminina como protagonista num universo predominantemente masculino ajudou muito nessa iconização quase automática da banda, fora que no contexto do nu-metal, existia a carência por grandes vocalistas, e apesar de isso ter um pouco de fundamento, Lee no mínimo é uma exceção à regra.

Sem sua sensibilidade vocal, talvez Evanescence ficaria contida no nicho, o que não invalida a qualidade das músicas isoladamente, mas fato é que na voz de Lee elas ganham todo o seu poder sensorial. No máximo, desgosto um pouco da harmonia instrumental de Whisper, de resto, é uma sequência coerente de obras-primas, das quais até hoje tenho dificuldade de decidir qual é a melhor. Bring me to Life foi a que teve esse posto por mais tempo, então talvez seja ela, não à toa é um dos singles mais ouvidos e viciantes da década de 2000, e tem méritos para ser tamanho hino. Contudo, diria que hoje Imaginary ocupa esse posto, por ser a canção mais diferente do álbum. Enfim, é um cenário que continua mutável em minha mente, e é um cenário que só grandes álbuns possuem, fazendo-os nunca serem diluídos pelo tempo. Fallen segue como um dos meus álbuns favoritos da vida, mesmo que minha fase “gótica” mais radical já tenha passado, a ressignificação transposta pelo álbum permanece forte na minha mente e foi muito importante na criação de minha personalidade, e imagino eu, que deva permanecer assim em todos aqueles jovens melancólicos millennials que se sentiram representados por Amy e suas canções.

Aumenta!: Bring me to Life, My Imortal e Imaginary
Diminui!: Whisper

Fallen
Artista: Evanescence
País: EUA
Lançamento: 1º de março de 2003
Gravadora: Track Record Inc. & Recording NRG Studios, Ocean Studios, Conway Recording Studios
Estilo: Rock, Nu metal, Rock Alternativo, Metal Alternativo, Metal Gótico

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