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Crítica | Fallout – 2ª Temporada

Tentando descobrir a origem de tudo.

por Kevin Rick
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A segunda temporada de Fallout abandona qualquer ilusão de que estamos apenas acompanhando uma aventura episódica em uma wasteland estilizada. Se o primeiro ano funcionava como introdução a um mundo retrofuturista ácido e visualmente exuberante, agora a série assume um caráter muito mais político, conspiratório e estrutural. O tom continua irônico e ultraviolento, mas há um peso novo pairando sobre a narrativa com a revelação de que o apocalipse talvez nunca tenha sido apenas consequência da paranoia nuclear, e sim produto de interesses corporativos muito mais calculados.

Isso já vinha sendo insinuado na temporada de estreia, mas o ano anterior estava mais focado em apresentar esse mundo, enquanto a nova temporada quer desvendá-lo, dando a abordagem de mistérios que acompanha boa parte do desenvolvimento da trama. Logo nos primeiros episódios, a expansão temporal alternando 2077 e 2296 com ainda mais agressividade deixa claro que a série quer transformar o passado pré-guerra em peça-chave dramática. A inserção de Robert House, a intriga envolvendo a Enclave e o aprofundamento dos experimentos da Vault-Tec ampliam o escopo da história. Essa escolha é coerente com o espírito da franquia dos jogos, que sempre usou seu humor ácido como véu para críticas ferozes ao militarismo e ao complexo industrial, mas confesso que senti falta da pegada mais episódica do primeiro ano, principalmente em razão do número muito grande de subtramas e tangentes que nos envolvemos aqui.

De qualquer forma, há muita coisa boa, com o arco envolvendo os chips de controle mental sendo talvez a ideia mais perturbadora da temporada. A imagem recorrente de cabeças explodindo é a literalização do controle corporativo sobre corpos e vontades. A Vault-Tec deixa de ser apenas empresa cínica para assumir contornos quase teológicos de engenharia social. A revelação de que Hank esteve envolvido na destruição de Shady Sands e que seus experimentos continuam no presente reposiciona Lucy de heroína ingênua para figura tragicamente ligada ao próprio mal que tenta combater.

Ella Purnell encontra uma nova camada para Lucy. Se na primeira temporada sua ingenuidade era motor de descoberta, agora ela é gradualmente corroída. A captura pela Legião, o vício, a traição do Ghoul e a decisão de implantar o chip no próprio pai são momentos que deslocam a personagem para um território moralmente ambíguo. Gosto bastante de todo esse desenvolvimento com a Lucy, que gradualmente vai sendo forçada a mudar por conta das “regras” da superfície. 

Walton Goggins, como o Ghoul, continua sendo o eixo mais carismático da série. A segunda temporada o humaniza ainda mais, sobretudo ao revelar fragmentos de sua vida pré-guerra com Barb e Janey. A conexão com Robert House e o conflito envolvendo a cold fusion technology inserem seu drama pessoal em uma escala histórica. Seu retorno ao Lucky 38 e o encontro indireto com House são momentos que dialogam diretamente com o imaginário dos jogos, mas a série evita transformar isso em fan service vazio. Há principalmente muita melancolia em seu arco de um homem que atravessou séculos apenas para descobrir que talvez tenha perdido tudo de qualquer forma.

Maximus (Aaron Moten), por sua vez, ganha protagonismo dentro da Irmandade do Aço. O conflito interno, a tentativa de golpe contra Quintus e o uso da tecnologia de fusão fria para potencializar uma guerra civil interna dão à Irmandade uma complexidade que faltava no primeiro ano. Ainda assim, seu arco por vezes parece mais funcional do que emocional, servindo ao tabuleiro maior da temporada. Muitos dos eventos em torno da Irmandade e da Legião também são meio aleatórios e mal conduzidos, na minha visão.

Narrativamente, a série se torna mais fragmentada. Há múltiplos núcleos: os Vaults 31, 32 e 33, a Legião, a NCR enfraquecida, a Irmandade dividida, a Enclave nas sombras, muitos flashbacks e uma história cheia de mistérios e twists. Em certos momentos, essa expansão dilui a tensão central, como se estivéssemos jogando várias sidequests simultâneas sem tempo suficiente para aprofundá-las. Porém, isso também espelha a própria estrutura dos jogos Fallout, onde o mundo nunca gira em torno de um único conflito.

Visualmente, a temporada continua impressionante. A incursão em New Vegas, o retorno ao Lucky 38 e os Deathclaws no Strip são momentos que capturam com precisão a grandiosidade decadente do universo. A estética atompunk permanece forte, mas agora há uma sensação maior de desgaste, de ruína acumulada. A trilha sonora retrô, sempre irônica, contrasta com decisões cada vez mais sombrias.

O maior mérito da temporada está na coragem de deslocar a pergunta central da série. No primeiro ano, questionávamos como sobreviver ao apocalipse. Agora, a pergunta é quem realmente o provocou e se o mundo pós-guerra é apenas continuação de um sistema que nunca deixou de existir. A revelação de que a Enclave pode ter sido a verdadeira instigadora da guerra nuclear insere a série em uma dimensão quase conspiratória que, se bem conduzida, pode redefinir completamente os próximos anos. O final deixa o cenário preparado para um conflito em larga escala com os diversos grupos desse universo. Há um sentimento de que a aventura nômade do primeiro ano deu lugar a uma guerra estrutural iminente. Talvez menos leve, talvez menos episódica, mas certamente mais ambiciosa, mesmo em suas falhas.

Se a primeira temporada de Fallout era sobre explorar um mundo absurdo e cruel com curiosidade, a segunda é sobre entender que esse mundo foi meticulosamente planejado para ser assim. Nem todos os arcos têm o mesmo peso dramático, e a fragmentação pode cansar, mas há uma evolução clara de escopo e maturidade temática. Fica a sensação, ao final, de que a temporada toda é uma ponte de transição sem muitas resoluções ou clímax, mas acho que podemos ser recompensados posteriormente por tudo construído aqui. A série deixa de ser apenas a adaptação bem-sucedida de videogame para se tornar uma ficção especulativa política em larga escala, ainda violenta, ainda sarcástica, mas agora muito mais interessada em perguntar quem apertou o botão, e por quê.

Fallout – 2ª Temporada | EUA, 2025-2026
Desenvolvimento: Graham Wagner, Geneva Robertson-Dworet (baseado na série de jogos homônima)
Direção: Frederick E.O. Toye, Liz Friedlander, Stephen Williams, Lisa Joy
Roteiro: Graham Wagner, Geneva Robertson-Dworet, Kieran Fitzgerald, Dave Hill, Karey Dornetto, Chaz Hawkins, Chris Brady-Denton, Jane Espenson, Owen Ellickson
Elenco: Ella Purnell, Aaron Moten, Kyle MacLachlan, Moisés Arias, Frances Turner, Walton Goggins, Xelia Mendes-Jones, Leslie Uggams, Johnny Pemberton, Justin Theroux, Annabel O’Hagan, Dave Register, Rodrigo Luzzi
Duração: 439 min. (08 episódios)

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