Crítica | Famigerado (Primeiras Estórias), de João Guimarães Rosa

Famigerado mostra o poder da palavra, em vários níveis, num história um tantinho cômica e incomum, onde homem perigosíssimo chamado Damázio busca se informar de algo que o atormenta imensamente. A história tem ares de crônica, pela rapidez com que acontece todo o processo de ação e pela urgência vital daquilo que o perigoso homem da Serra quer saber do narrador do conto, o pobre infeliz que precisa dar para este lendário boiadeiro o significado da palava famigerado.

Há uma tensão no ar. Guimarães Rosa alterna uma apresentação ameaçadora de Damázio e seus companheiros com os pensamentos meio desastrosos do narrador, que teme ter dito alguma coisa sobre o perigoso indivíduo à sua frente e que qualquer coisa que proferir agora poderá ser a justificativa para a sua morte. Nesse processo, o autor expõe um lado de fraqueza dos dois personagens, um que admite o medo mas é bravo o bastante para enfrentá-lo e outro que também teme a desonra, a possibilidade de ser caçoado, xingado, principalmente de algo que ele não sabe o que é.

A maneira como o visitante dispara a pergunta é deliciosa:

__ “Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgeradofaz-me-geradofalmisgeraldofamilhas-gerado…?”

… então dois tipos de inquietação passa a tomar parte da cena. Há um senso de urgência, mas Damázio, claramente com vergonha de entregar logo a dúvida ao seu interlocutor, disfarça falando de algumas amenidades do sertão. O leitor nesse momento sente crescer a tensão da conversa e imagina um possível destino trágico para o homem. O conto não deixa muito claro qual é o real sentido da visita e em dado momento a pergunta do significado da palavra parece mesmo uma provocação, como se o próprio narrador estivesse sendo testado, tivesse que assumir algum impropério e, por isso, pagar pelo difame.

Em torno desse clima de tensão — que o texto faz questão de delinear ao máximo, detalhando a posição dos cavalos, a postura meio hostil de Damázio e o motivo obscuro de sua visita –, o pensamento do narrador vai sendo desnudado, desde o seu desejo de que o homem esteja em paz até as informações que ele tem sobre o tal perigoso, informações que compartilha conosco. E então o “acerto de contas” vem e tudo se torna ainda mais interessante. Porque Rosa brinca com o significado REAL da palavra famigerado e faz com que seu personagem oculte o significado SIMBÓLICO, ou seja, o narrador não mente em sua resposta, mas certamente oculta o real motivo pelo qual Damázio foi chamado pelo moço do governo de famigerado. Não é nome de boa fama, mas o significado simples da palavra oculta isso.

A palavra tem um poder imenso. A literatura de João Guimarães Rosa prova isso em diversos níveis e esta aventura, parte de suas Primeiras Estórias, faz um jogo de importância social, cultural, linguística e até vital ligado ao poder de uma palavra. Um homem mal afamado como Damázio, nas brenhas do sertão, certamente dá muita importância ao que se diz sobre ele. E cá está um exemplo de que é possível evitar desastres e agradar a alguém com capacidade de fogo como este homem, entregando-lhe apenas a verdade simples de uma palavra e não a totalidade do que ela quer dizer. Não é uma mentira, mas também não é uma verdade completa. E fica a pergunta: o nosso narrador fez isso sabendo exatamente o que ocultar ou ele mesmo desconhecia a aplicação mais comum da palavra e simplesmente desejava ser aquilo que Damázio também era? Uma dúvida diante de algo tão simples e tão genial como este causo de vida e morte que depende do significado de um verbete para terminar em sangue ou em risonha despedida.

Famigerado (Brasil, 1962)
Em: Primeiras Estórias
Autor: João Guimarães Rosa
Editora original: José Olympio
Outras editoras: Nova Fronteira
Arte da capa original: Luís Jardim
19 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.