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Crítica | Família Soprano – 1ª Temporada

O início da revolução televisiva.

por Kevin Rick
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O legado e o impacto televisivo de Família Soprano é incomensurável. Parte da primeira leva de séries de televisão da HBO (junto de Oz, The Wire A Sete Palmos) que deu o pontapé para A Era de Ouro da Televisão (2000-presente), o show acompanha a vida de Tony Soprano (James Gandolfini), um capo (hierarquicamente equivalente a subchefe) da máfia ítalo-americana que enfrenta depressão e decide fazer terapia com a Dra. Jennifer Melfi (Lorraine Braco). Influenciando dezenas de séries sobre protagonistas ambíguos e controversos (ainda que simpáticos e identificáveis), algo extremamente raro à sua época de lançamento, a obra criada por David Chase foi uma das pioneiras em quebrar o molde da grade televisiva estadunidense que vivia de fórmulas agradáveis e triviais de sitcoms e dramas procedurais.

Nos situando de dinâmicas familiares em um ambiente criminoso, David Chase praticamente criou um subgênero televisivo que até hoje faz grande sucesso com o público. De Breaking Bad Mad Men até séries recentes como Ozark, é possível notar exemplares que beberam da fonte de Família Soprano. Chase, por sua vez influenciado por Os Bons Companheiros, queria contar uma história introspectiva e próxima de um realismo (meio doméstico) da máfia, considerando o retrato audiovisual majoritariamente caricato e exagerado de obras do gênero por causa da mística violenta (que contém sua porção de verdades) criada no Cinema. Ainda nesse pensamento iconográfico do gênero, é extremamente curioso como Martin Scorsese, um dos nomes mais eternizados na Sétima Arte com longas sobre a máfia, é o grande responsável pela subversão e pessoalidade dada à essas obras, indo do seu já citado clássico noventista até o bem mais sóbrio e existencial O Irlandês (2019).

Mas como todo esse rodeio por parte da história da Máfia no Cinema se encaixa, ou melhor, se diferencia, na proposta de Família Soprano? Como disse, Chase se inspirou no modelo doméstico de Scorsese para contar uma história mais, digamos, humana dos mafiosos. Entre churrascos, discussões matrimoniais, confusões escolares e ressentimento parental, a 1ª temporada é basicamente um estudo familiar (com holofotes para Tony), que, por acaso, fazem parte da máfia. Todavia, Chase vai além da subversão “scorseseana“, se aprofundando ainda mais no aspecto cotidiano da família Soprano e o restante dos personagens coadjuvantes. A violência e o mundo criminoso são notas de rodapé, pequenos momentos explosivos que nos relembram do ambiente agressivo, mas que não predominam narrativamente.

De muitas formas, a linguagem da série é quase ordinária; anticlimática. Não temos uma trama geral sobre o crime e a máfia, e sim um complexo estudo de personagem intimista. Veja os antagonistas, nesta primeira temporada, que são a própria família de Tony, como sua mãe manipuladora e impulsiva, ou seu tio Junior Soprano (Dominic Chianese), um homem velho, invejoso e ressentido com seu papel inferior hierarquicamente na Máfia. Os conflitos de Tony sempre partem de uma análise terapêutica do campo familiar, seja os antagonistas, os problemas diários e seus transtornos emocionais. Dessa forma, a temporada se estrutura de maneira situacional, até lembrando o formato de sitcom com o teor autocontido de vários episódios e a ordinariedade das subtramas, removendo qualquer tipo de cliffhanger ou grande escopo narrativo para nos mergulhar em seu tom reflexivo e desglamourizado da Máfia.

É a partir disso que o roteiro de Chase e companhia se mostra tão inteligente. Já nesta 1ª temporada, a série consegue fazer uma ponte entre o estilo televisivo semanal com uma história mais “cinematográfica”, utilizando uma estrutura menos objetiva em termos de encadeamento narrativo, mas simplesmente genial em sua proposta temática pessoal, cheia de nuances e sutilezas na construção dramática de Tony. Chase nos deixa obcecado não pelo épico do crime ou a jornada do criminoso, mas o humano em meio a isto. Tony é complexo, pois ao longo da temporada vemos dois lados muito bem aprofundados de sua faceta. Por uma perspectiva, a obra humaniza o personagem, nos fazendo sentir empatia e afinidade pelo protagonista, ao mesmo tempo que constantemente nos relembra da sua personalidade cruel e degenerada.

Então Chase levanta um questionamento, já indicado na primeira sequência do piloto: Tony pode ser tratado? Ou melhor, entendido? Alicerçado nessa indagação que temos a base que carrega a temporada com as sessões de Melfi. Se pararmos para pensar, a premissa da série é absurda e até cômica, mas funciona. Funciona porque os diálogos são bem escritos, os personagens são realistas (ainda que várias situações da Máfia não sejam), e o tom cotidiano (familiar) e terapêutico (Tony está em constante transformação) nos mantém engajados com a história melindrosa do personagem, ainda que pouco tenhamos de “ação”. Em cima disso, é necessário pontuar como Chase adora simbologias (a fuga dos patos, por exemplo) e vários momentos semi-surrealistas com os sonhos de Tony, que adicionam mais algumas linhas filosóficas à temporada.

James Gandolfini se mostra à altura de tal anti-herói tão complexo. Navegando entre emoções com uma facilidade assustadora, o ator consegue transpassar fragilidade das crises emocionais de Tony na mesma medida que nos amedronta com autenticidade sua crueldade e sociopatia. O restante do elenco não deixa a peteca cair, especialmente a curiosa Lorraine Braco (adoro como a personagem funciona como estopim e condutora do lado vulnerável de Tony),  e a igualmente complexa Edie Falco, que interpreta Carmela Soprano, grande responsável por representar um lado feminino pouco visto e aprofundado em obras sobre a Máfia como aqui. Contudo, não sou lá muito fã de algumas tramas secundárias do “exército” de Tony – sempre que ele sai do holofote, a narrativa parece perdida tematicamente -, mas os intérpretes da roda íntima do protagonista assumem uma classe de personagens que, se ainda não tão desenvolvidos, deixam uma tremenda impressão em termos de química (especialmente cômica).

Família Soprano é revolucionária, histórica e pioneira. Isso é fato. Mas curiosamente, a série manifestou tanto sucesso por justamente se afastar do épico mafioso. David Chase preocupa-se com o lado intrínseco de seus personagens, especialmente o fascinante Tony Soprano. Em um mundo do crime, a temporada se interessa pelas consequências e cicatrizes deixadas pelo ramo, e não tanto com a violência ou o jogo marginal em si – os próprios atos hediondos são esparsos e “feios”. Não há glorificação ou grandiosidade da Máfia. Apenas a “comum” e às vezes tediosa vida suburbana, com crises de meia-idade, filhos desobedientes e problemas emocionais, sempre resultado da família disfuncional dos Sopranos. Nesta temporada inicial, a máfia é apenas um artifício, ora atrativo, ora utilitário, para um dos melhores estudos de personagem da história do audiovisual. Em 1999, começava uma revolução das telinhas com o senhor Tony Soprano procurando terapia. Será que ele irá melhorar?

Família Soprano (The Sopranos) – 1ª Temporada (EUA, 10 de janeiro de 1999 a 04 de abril de 1999)
Criação: David Chase
Direção: David Chase, Daniel Attias, Nick Gomez, John Paterson, Allen Coulter, Alan Taylor, Lorraine Senna, Timothy Van Patten, Andy Wolk, Matthew Penn, Henry Bronchtein
Roteiro: David Chase, Mark Saraceni, Jason Cahill, James Manos Jr., Frank Renzulli, Mitchell Burgess, Robin Green, Joe Bosso
Elenco: James Gandolfini, Lorraine Bracco, Edie Falco, Michael Imperioli, Dominic Chianese, Steven Van Zandt, Tony Sirico, Robert Iler, Jamie-Lynn Sigler, Drea de Matteo, John Ventimiglia, Jerry Adler, Vincent Pastore, Matt Servitto, Nancy Marchand
Duração: Aprox. 700 min. (13 episódios)

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