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Crítica | Família Soprano – 4ª Temporada

Caem as máscaras.

por Kevin Rick
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No quarto ano de Família Soprano, vemos um deslocamento ainda maior para o núcleo doméstico da história, não porque a máfia desapareça, longe disso, mas porque David Chase parece cada vez mais menos interessado na criminalidade como gênero e mais fascinado por aquilo que a sustenta silenciosamente, como o casamento, a família e a fantasia de estabilidade burguesa que Tony tenta comprar com sangue e consumo. A temporada é, nesse sentido, uma obra de desgaste. Tudo se desgasta: alianças, amizades, ilusões, rotinas e máscaras. O que emerge é um retrato de convivência insuportável, onde a violência deixa de ser apenas um instrumento de poder e passa a funcionar como linguagem afetiva, como única forma que esses personagens conhecem de lidar com frustração, desejo e culpa.

Logo de saída, a série reafirma que esse universo não oferece saída real. Tony diz a Melfi que as únicas portas de saída do seu ramo são “morto ou na cadeia”, uma das formulações mais secas e definitivas da lógica interna da série até ali. O que muda na quarta temporada é que esse beco sem saída deixa de ser apenas profissional ou existencial e passa a contaminar frontalmente a vida doméstica. Tony continua sendo chefe, pai, amante, amigo e paciente em terapia, mas cada uma dessas funções começa a pressionar as outras de maneira insustentável. A ascensão provisória de Christopher, a crescente instabilidade com Paulie e a relação cada vez mais venenosa com Ralphie mostram um Tony que tenta se reorganizar estruturalmente dentro da organização, mas o verdadeiro colapso está em outro lugar: em casa, com Carmela, onde a podridão não pode mais ser disfarçada com presentes, joias ou viagens.

É justamente por isso que a quarta temporada talvez seja a mais “conjugal” da série até aqui. Carmela finalmente deixa de ser apenas observadora privilegiada da hipocrisia do marido para se tornar seu espelho mais cruel. Sua atração por Furio não é um simples romance contido ou uma válvula melodramática, e sim a irrupção concreta daquilo que a série vinha trabalhando havia muito tempo com o desejo de Carmela por uma forma de masculinidade que não seja puramente predatória. Furio, um dos personagens mais silenciosos da série, encarna esse desvio com precisão. Ele também é violento, também é homem da máfia, também participa da máquina de extorsão, mas o modo como sua sensibilidade se insinua no cotidiano, com a casa, a dança, a cozinha, os pequenos gestos, é suficiente para desestabilizar Carmela. O mais brilhante é que a série nunca transforma essa paixão em idealização romântica plena. O que existe ali é menos a promessa de uma nova vida do que a percepção, por parte de Carmela, de que ela ainda é capaz de desejar algo para além da repetição do sofrimento, tudo tratado com extrema sensibilidade e naturalidade pelo texto e pelos atores.

Esse movimento torna Whitecaps não apenas o ápice da temporada, mas um dos episódios mais devastadores de toda a televisão. Chase e seus roteiristas conduzem o desmoronamento do casamento de Tony e Carmela com uma precisão cirúrgica, recusando qualquer explosão melodramática simplista em favor de algo muito pior: uma briga longa, feia, repetitiva, rancorosa, em que anos de humilhação e ressentimento vêm à tona não como revelação, mas como constatação. Edie Falco e James Gandolfini atingem um nível de atuação brutal nesse episódio, ao ponto que o conflito parece escapar da própria ficção.

Mas o gênio da temporada está em não fazer desse colapso algo isolado. Ao contrário, tudo ao redor ecoa esse mesmo processo de erosão. Christopher mergulha ainda mais fundo na heroína, e seu vício deixa de ser traço de decadência boêmia para se tornar ameaça estrutural. The Strong, Silent Type é uma pequena obra-prima de crueldade cômica, talvez um dos episódios mais sardonicamente precisos da série. A intervenção, que em qualquer outra obra poderia funcionar como rito de reconciliação, aqui se torna uma sessão de humilhação física e moral, culminando em espancamento. Christopher é o herdeiro natural de Tony em vários sentidos, mas o que a temporada revela é que ele também herda sua incapacidade de lidar com a dor sem transformá-la em autossabotagem.

Enquanto isso, Ralph Cifaretto continua sendo o grande espelho monstruoso de Tony, mas a relação entre os dois se torna ainda mais interessante porque deixa de depender apenas do antagonismo explosivo. Chase faz algo brilhante ao longo da temporada, deslocando a tensão entre eles para uma zona ambígua entre afeto, propriedade e deslocamento emocional. O cavalo Pie-O-My é um dos objetos mais estranhos e importantes da temporada justamente porque permite acessar uma parte de Tony que ele não consegue verbalizar. Seu apego ao animal é real, terno até, e sua fúria diante da possibilidade de Ralph ter provocado o incêndio do estábulo funciona em vários níveis ao mesmo tempo. Não é só sobre o cavalo. É sobre o fato de Ralph tocar num resquício de sensibilidade que Tony ainda protege em segredo. O assassinato de Ralph, num confronto físico longo, sujo e desesperado, é um dos momentos mais poderosos da série porque encena o que Família Soprano faz de melhor: transformar um conflito aparentemente circunstancial em condensação total da psicologia do protagonista. Tony mata Ralph por Pie-O-My, por Tracee, por irritação acumulada, por ressentimento, por nojo de si mesmo.

A temporada também segue expandindo o universo ao redor de Tony com uma naturalidade impressionante. O julgamento de Junior funciona menos como suspense jurídico e mais como comentário sobre envelhecimento, repetição e inutilidade. Junior já não impõe medo como antes; o sistema ao redor dele continua funcionando quase por reflexo. Janice, por sua vez, reafirma seu papel como uma das figuras mais corrosivamente cômicas da série. Sua aproximação de Bobby Baccalieri após a morte de Karen é de um oportunismo quase obsceno, mas também genuíno. Ela entende o luto alheio como espaço de inserção, manipula afetos com habilidade e, ainda assim, permanece profundamente humana em sua carência. Poucos personagens em Família Soprano capturam tão bem a mistura de ridículo, desejo e cálculo emocional quanto Janice.

Um dos méritos mais impressionantes do quarto ano é como ele continua usando episódios aparentemente laterais para afinar sua visão de mundo. Christopher, por exemplo, parte da disputa em torno do Colombo Day para desmontar identidades étnicas, ressentimento histórico e performatividade comunitária com uma ironia impiedosa. O episódio poderia soar menor, até folclórico, mas é essencial para entender a série: todos ali querem reconhecimento de uma identidade coletiva, mas ninguém está disposto a encarar honestamente o que essa identidade encobre. Tony, irritado com o desfile de grupos reivindicando lugar na narrativa da vitimização, dispara contra essa lógica porque ele próprio depende dela. O orgulho ítalo-americano, como a religião de Carmela ou a terapia de Melfi, é mais uma forma de racionalizar o intolerável.

Falando em Melfi, a quarta temporada trabalha sua relação com Tony de maneira especialmente frustrada, e isso é ótimo. Depois do trauma absoluto da temporada anterior, a série parece ainda mais interessada em mostrar o limite do discurso terapêutico. As sessões já não apontam para transformação; são rituais de nomeação do impasse. Tony sonha, interpreta, reclama, evita, mas raramente se move. Quando finalmente abandona a terapia, o gesto vem como consequência previsível de um processo que se esgotou temporariamente. O sonho da casa, da figura feminina descendo as escadas, de Gloria e Svetlana se misturando em imagens de desejo e culpa, é típico de Chase: menos um enigma a ser resolvido do que um modo de dar forma simbólica a uma interioridade que nem o próprio personagem suporta olhar de frente.

Do ponto de vista formal, a quarta temporada confirma o domínio absoluto da série sobre o ritmo. Poucas obras televisivas conseguem ser tão pacientes sem parecer inertes. Chase entendeu antes de quase todo mundo que o poder dramático da televisão não estava apenas em cliffhangers ou reviravoltas, mas na capacidade de acompanhar o desgaste. Há episódios mais cômicos, outros mais sombrios, alguns deliberadamente dispersivos, mas todos alimentam essa sensação de mundo contínuo, de vida que prossegue mesmo quando parece parada. O subúrbio, os restaurantes, os clubes, os estábulos, as casas de repouso, os canteiros de obras, os sonhos e os becos compõem um mosaico onde tudo é ao mesmo tempo banal e ameaçador. A construção das cenas continua precisa em sua aparente simplicidade.

Vemos na quarta temporada muitas discussões sobre quem possui o quê, quem controla quem, quem acha que pode comprar estabilidade. Tony quer possuir Carmela, seus subordinados, sua família, seus cavalos, suas amantes, seus investimentos, sua imagem de chefe e de pai. Carmela quer possuir uma ideia de dignidade e de segurança material que justifique sua permanência. Ralph quer possuir dinheiro, humor e status sem consequências. Johnny Sack quer possuir honra. Christopher quer possuir uma versão de si que ainda seja compatível com o vício. Todos fracassam, porque a série deixa cada vez mais claro que nada ali é realmente possuído; tudo é provisório, alugado, ameaçado, corroído. O sonho suburbano, que desde a primeira temporada era tratado como fachada instável, aqui apodrece de vez por dentro.

Família Soprano deixa de olhar apenas para a banalidade do mal e passa a observar a banalidade do convívio com ele. Não há mais distância entre o crime e a sala de jantar, entre a máfia e o casamento, entre o afeto e a manipulação. Tudo se contaminou por completo. É por isso que a temporada pode parecer menos “explosiva” em certos momentos e, ainda assim, ser tão devastadora. Chase não está mais interessado em surpreender o espectador com a violência; ele quer mostrar como ela se instala como método de vida, como gramática emocional e como rotina. No fim, a quarta temporada não amplia apenas o universo da série e sim o envenena de maneira irreversível.

Família Soprano (The Sopranos) – 4ª Temporada (EUA, 2001)
Criação: David Chase
Direção: John Paterson, Allen Coulter, Timothy Van Patten, Henry Bronchtein, Jack Bender, Dan Attias, Steve Buscemi, Alan Taylor, James Hayman
Roteiro: David Chase, Mitchell Burgess, Robin Green, Michael Imperioli, Terence Winter, Maria Laurino, Lawrence Konner, David Flebotte, Nick Santora
Elenco: James Gandolfini, Lorraine Bracco, Edie Falco, Michael Imperioli, Dominic Chianese, Steven Van Zandt, Tony Sirico, Robert Iler, Jamie-Lynn Sigler, Drea de Matteo, Aida Turturro, John Ventimiglia, Federico Castelluccio, Steve Schirripa, Robert Funaro, Kathrine Narducci, Nancy Marchand, Joe Pantoliano
Duração: 730 min. (13 episódios)

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