Crítica | Família Submersa

“Conto como você para a vida.”

O quanto a perda de uma pessoa próxima, como uma irmã, é capaz de abalar estruturas aparentemente antes tão sólidas, como supõe ser a estrutura de uma família. Para certas pessoas, esses alicerces prenunciam conexões amorosas extremamente rígidos, que apoiam um indivíduo ao outro e vice-versa. Mas a casa da protagonista de Família Submersa, contrariando essa visão mais rigorosa, é certamente coordenada por uma instabilidade um tanto nervosa, que sufoca as bases de sua personagem principal, a matriarca, e que acabara de perder sua irmã abruptamente. Do nada, uma vida, antes tão ativa, com agendamento para cuidados estéticos, muitas roupas no armário, terminou. E a vida de Marcela (Mercedes Morán), para onde sua narrativa se emancipará, ultrapassando um ordinário dia-a-dia banal?  Ou o prazer está em aproveitar essa dança contínua?

A começar por uma mera mudança de rumos na vida de uma das crianças, não mais crianças, de Marcela, poucos previsíveis serão os próximos passos para esses jovens – que estão em uma fase de construção ainda -, mas não para si, a mãe. Já a garota em questão, com planos pensados, não mais se mudará. Com isso, o seu quarto não estará mais vazio. Por consequência, uma outra filha de Marcela, mais nova, virá a sair de casa, por não aguentar mais dividir um cômodo com seu irmão – o caçula de três. Onde o pai se encontra? Ela, por sua vez, continua a cuidar de cada um dos seus com muita afeição. Mas em tempo tudo se transformará em um cansaço. Os primeiros minutos do também primeiro longa-metragem de María Alché, cineasta argentina, capturam bem essa rotina, esse vai-e-vem da mãe dentro de um espaço em que conforma-se em ser apenas isso.

O enredo reitera a sua premissa como carro-chefe para desventuras contrárias às profundezas do conformismo acontecer. Sua irmã se foi e, agora, com a morte tornando-se uma companheira tão próxima, na mesma camada em que se encontra na árvore genealógica da família, Marcela precisa desvendar o seu espaço no universo. O longa-metragem, portanto, se encaminhará a uma trajetória de melancolia, com Mercedes Morán, interpretando tão singelamente o seu papel, criando essa confusão mental, vívida na perdição que adota para a sua personagem. Quais os próximos passos? O que o destino a reservará? Uma das melhores cenas de Família Submersa coloca a personagem tentando continuar a repassar uma lição de casa com o seu filho, só para ver lágrimas suas escorrerem. Mesmo chorando, persiste.  Mas não pode permanecer a mesma, aponta a obra.

María Alché mostra o domínio que possui dessa protagonista ao conduzir cenas como a do primeiro encontro entre Marcela e Nacho (Esteban Bigliardi), um amigo de um de seus filhos. Durante essa cena, que culmina em Marcela passando mal, nauseada, o texto estará progredindo naturalmente, em um ritmo que é próprio a sentenças proferidas sem muita objetividade, entre conversa fiada e possíveis segundas intenções. E momentos futuros entre esses dois personagens nos instigarão ainda mais a pensá-los como uma ruptura à ordem vigente de monotonia. Com quem, entretanto, que Marcela contará para a vida? O seu marido, sumido, ou esse galã juvenil, que, consequentemente, rejuvenesce a própria mulher? Querendo encontrar alguma resposta, Marcela desbravará antiguidades:  ora o quarto de sua irmã, ora memórias de gerações anteriores.

A protagonista é parte de um realismo mágico, usado como modo de dialogação entre a sua vida e a vida de entes passados, já mortos. Tias surgem do além, vividas com muita graça pelas suas artistas, para comentarem percalços, indas e vindas, sempre com um tom poético. Família Submersa adentra, porém, irregularmente nessa parte mágica de seu realismo, porque não anseia, em momento algum, pensar esses meandros esotéricos de um modo mais objetivo. Para uma obra com pouco mais de noventa minutos, ou seja, uma duração um pouco pequena até, María Alché não consegue – quiçá nem quisesse mesmo – costurar e progredir essa jornada de sua protagonista com mais intensidade, o que cresceria o peso dramático que relaciona-se ao conformismo rejeitado e o inconformismo insuficiente. Onde mora a solução, se é que exista uma?

O mais interessante, no entanto, é perceber um olhar tão atemporal sobre as disfuncionalidades de uma família, sempre contendo os seus personagens mais esquizofrênicos, mais excêntricos, suas várias problemáticas. Contudo, essa é uma instituição que acaba retomando, no final das contas, um laço quase irrompível, regenerando-se a cada um dos contratempos que surge. Quando o longa se aproxima dos seus minutos finais, María Alché cresce o seu projeto rapidamente – e mostra o potencial esquecido para outras situações – com o retorno do pai. Jorge é um homem tão agradável que, por alguns segundos, nos faz esquecer que estava completamente ausente o resto do filme inteiro. Canta na cozinha e conversa entusiasmado, mas sem que soubesse que sua filha havia se mudado de casa. Os problemas não acabaram. E a solução é acompanharmos a canção?

Família Submersa (Familia Sumergida) – Argentina, 2018
Direção: María Alché
Roteiro: María Alché
Elenco: Mercedes Morán, Marcelo Subiotto, Esteban Bigliardi, Laila Maltz
Duração: 91 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.