Crítica | Family Romance, Ltda

Podem dizer o que quiserem de Werner Herzog, mas é indiscutível a coragem posta em cada um de seus filmes. Desde seus clássicos Aguirre e Fitzcarraldo onde o diretor desafiou a natureza e a sanidade humana, até seus documentários mais recentes, onde o cineasta busca juntar seu olhar atento à excentricidade de seus sonhos. 

Estamos falando do homem que levou um barco de mais de trezentas toneladas por cima de uma montanha nos anos oitenta, visitou vulcanos aos setenta anos de idade, usou o já saturado 3D para filmar pinturas rupestres, e até mesmo está para interpretar um vilão na nova série da franquia Star Wars. Gostando ou não de seus filmes, cuja maioria são documentários, é de se admirar a vontade de explorar do diretor, que sempre tem o olhar voltado ao novo e ao desconhecido.

Dito isto, parece que por mais que Family Romance, Ltda seja um retorno à ficção, Herzog segue entusiasmado pela busca de um mundo novo dentro da realidade. O pano de fundo é a empresa Family Romance, que Yuichi trabalha, onde ele é pago para interpretar um amigo ou membro da família para qualquer um. Ele é contratado para fazer o papel de pai para uma garota de doze anos que perdeu o pai ainda bebê, e rapidamente é criado um laço entre os dois.

A trama é das mais herzoguianas possíveis, mas o que é mais bizarro é saber que Yuichi é uma pessoa real assim como sua empresa. Herzog vai para o oriente para expor os limites do capital, em que até o afeto tem um preço, onde relações humanas se dão muito mais pela necessidade do que pelo apreço. Yuichi uma hora visita um hotel cuja recepção trabalham apenas robôs, eliminando a cordialidade do vínculo pessoal para priorizar a eficiência do trabalho. Não há uma barreira clara entre ficção e documentário no longa, tudo é parte do mundo que vivemos porém encarado de forma fantasiosa, transparecendo a imprudência que a humanidade vem caminhando nas últimas décadas ou até mesmo séculos.

A decupagem do filme se dá menos pelas situações que Yuichi deve enfrentar e mais por ocasiões incomuns que Herzog encontra no Japão. Seja o hotel já citado, o dia a dia dos jovens nipônicos ou as relações laborais opressivas, todas as cenas são compostas pelo olhar etnográfico do cineasta, que opta por uma inconveniente câmera na mão para acompanhar a rotina do ator. 

É certamente um filme ocidental como Aguirre foi um filme europeu, não se enganar pelo elenco completamente japonês. A visão que chega ao espectador é a de um mundo novo, mas que obscuramente tomará conta de todos nós com o decorrer do tempo. Muitas das cenas parecem incompletas por não terem as reflexões profundas narradas pelo diretor, e a direção acaba entrando num automático levado muito mais pelo fascínio pelo contexto que pelo ato de se filmar. 

Por mais que seja uma experiência conduzida pela atração pelo novo, ela jamais é moralista ou busca uma resposta, pois Herzog está sempre disposto a ouvir e aprender mais com o que é novidade, por mais o moderno esteja nos trazendo a ruína. Talvez por isso que Herzog, por mais que não esteja sempre em seu ápice, sempre seja um cineasta que mereça atenção, pelo simples prazer que ele tem em oferecer espaço para o novo.

Family Romance, Ltda (Family Romance LLC) – 2019, Alemanha, Japão
Diretor: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Elenco: Yuichi Ishii, Mahiro Tanimoto, Miki Fujimaki, Takashi Nakatani, Shun Ishigaki, Umetani Hideyasu, Take Nakamura
Duração: 89 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.