Crítica | Fando e Lis

O cinema de Alejandro Jodorowsky não é dos mais fáceis. Carregado de simbolismos e metáforas, os trabalhos do cineasta chileno – que também é poeta, escritor e psicólogo – podem exercer grande fascínio no público interessado em compreender os significados por trás das imagens filmadas por suas lentes. Trata-se de um cinema especial, por vezes difícil de digerir, com imagens que flertam com o lirismo e a fantasia, passando pelo surreal e o misterioso, mas sem deixar de lado uma abordagem crítica sobre o que é exibido.

Esses atributos já podem ser constatados em curtas do autor – como A Gravata, sua primeira imersão por trás das telas –, assim como em Fando e Lis, seu primeiro longa-metragem. Roteirizado pelo próprio Jodorowsky ao lado de Fernando Arrabal, cuja peça de teatro inspirou o filme, a premissa da obra é simples: o casal formado por Fando (Sergio Kleiner) e a paraplégica Lis (Diana Mariscal) parte em busca da mítica Tar, última cidade a continuar existindo após uma espécie de catástrofe ter destruído todas as restantes.

A faceta de poeta de Jodorowsky já é sentida nos crédito iniciais, onde uma bela narração em off contextualiza o espectador àquele universo fantasioso e cinzento, ao conceber Tar como um lugar onde todos os sofrimentos e tristezas não têm espaço. Assim, Fando quer encontrá-la na promessa de curar a amada de suas dores. Carregada por ele em um carrinho, ela vai se transformando em uma figura cada vez mais melancólica e trágica ao longo do filme, enquanto ele se revela como um homem muito mais insensível do que aparentava.

Na trajetória do casal, o cineasta exibe uma coleção de cenas que mesclam memórias com acontecimentos presentes para trazer dimensão a seus personagens. Por exemplo, a relação conflituosa de Fando com a mãe é refletida no momento em que ele a enterra — o que, em contrapartida, traz o pai emergindo de dentro de uma cova em certo momento, em uma eficaz rima visual. Já Lis, que aparentemente foi abusada quando criança, não consegue se entregar ao ato sexual justamente por isso — mas ele não entende e se zanga com a companheira. E as reações de impaciência de Fando são constantes em toda a película, e o roteiro aproveita o universo fantasioso para discutir a posição da mulher no mundo, por vezes de maneira irônica, por vezes com passagens mais impactantes (e vale apontar que o filme, quando lançado, se encontrava em meio aos fervorosos discursos de feminismo oriundos da contracultura).

Logo após Lis renegar seu parceiro, ele a amarra no carrinho, tira toda a sua roupa e a anuncia para transeuntes que passam a observá-la como um animal e a tocá-la como um objeto. Mas o sexo feminino também se vira contra Fando, na cena em que ele abandona Lis e logo após encontra um grupo de mulheres que lhe joga bolas de boliche e o dão chicotadas. E nessa mesma cena, em termos de gênero, os papéis de dominador e dominado são invertidos, ao trazer três mulheres decidindo no baralho quem irá ficar com um homem feito de servo.

Mas o texto não esquece de dar a devida atenção aos seus personagens-título. No final das contas, o desejo de Fando de ir para Tar é tanto por querer ajudar sua parceira quanto pelo fato dele se sentir só – em certo momento, um personagem diz para ele que, quando estivesse solitário, fosse em busca da mítica cidade que tudo ficaria bem. Já Lis frequentemente fala sobre a morte, e como será esquecida quando sua hora chegar; suas lástimas incomodam o companheiro e ela sabe que a qualquer momento ele pode deixá-la, permitindo-se, assim, aceitar todos os excessos dele. Lis precisa de Fando pois é seu único contato humano remanescente, aquele que irá se lembrar dela e que a carrega por todos os lugares. Fando precisa de Lis, pois sua solidão é preenchida por ela, mesmo que ele só perceba isso posteriormente.

Ao longo dos anos, Jodorowsky se mostrou hábil no uso das cores, e aqui, a fotografia em preto e branco também é muito bem empregada ao lado da paisagem árida e rochosa que reflete os conflitos internos e a vida vazia e dura dos personagens. Enquanto isso, os efeitos sonoros usados são fundamentais ao criarem barulhos estranhos e que chamam atenção – como o borbulhar de uma seringa –, e a trilha sonora funciona não apenas ao pontuar os momentos que surgem, mas também para servir enquanto narrativa.

SPOILERS

A infantilidade do casal que é retratada no início do filme (ele brinca com soldados e ela com bonecas) pode provocar interpretações a respeito do desfecho de Fando e Lis, com um ambiente repleto de árvores, plantas e folhas espalhadas pelo chão – uma vista que o casal descreveu ao longo do filme como sendo algo existente apenas na imaginação. Há, ainda, uma interpretação mais religiosa, pois Fando carrega Lis quase que como uma cruz nos momentos derradeiros da projeção, e esse ambiente alegre, cheio de vida, poderia representar a chegada dos protagonistas ao Paraíso. Assim, o verdadeiro significado de Tar é duvidoso, podendo ser real, apenas uma invenção dos personagens em busca de uma vida melhor ou, ainda, ser um lugar de transcendência. Qualquer que seja a conclusão do espectador, Jodorowsky planta dicas que sustentam todas as hipóteses ao longo de seu trabalho.

Mas nem tudo se desvenda em apenas uma investida, ou talvez nem tenhamos exatamente o que decifrar; o grupo que dança no meio dos escombros, as pessoas que tomam banho de lama, a dupla de homens que bebe sangue e diversas outras passagens são tão simbólicas quanto enigmáticas. Mesmo que seja repetitivo ao expor a interdependência de seus protagonistas, e ainda que El Topo e A Montanha Sagrada tenham uma repercussão maior do que Fando e Lis, o primeiro longa do intrigante Alejandro Jodorowsky sobrevive principalmente para os amantes do cinema de imagens, poesias e reflexões.

Fando e Lis (Fando y Lis, México, 1968)
Direção: Alejandro Jodorowsky
Roteiro: Alejandro Jodorowsky e Fernando Arrabal (baseado na peça de Fernando Arrabal)
Elenco: Sergio Kleiner, Diana Mariscal, María Teresa Rivas, Tamara Garina, Juan José Arreola, Amparo Villegas, Valerie Jodorowsky
Duração: 93 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.