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Crítica | Fargo – 4X04: The Pretend War

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todo nosso material sobre Fargo.

É um curioso e muito conhecido fato que laranjas e morte andam de mãos dadas no universo de O Poderoso Chefão e é impossível não reparar nesse “aviso” em The Pretend War, um belíssimo episódio de queima lenta que parece ser um prelúdio para a guerra efetiva entre as famílias Fadda e Cannon. Homenageando o ponto alto da história cinematográfica dos filmes sobre a máfia, Noah Hawley e Stefani Robinson inserem as perigosas frutas em toda a estrutura narrativa, especialmente em seu começo e em seu fim, com a direção de Dearbhla Walsh fazendo questão de quase colocá-las como ponto focal.

Se o incendiário roubo do carregamento de armas disfarçado de caixas de laranja serve como retaliação dos Cannons contra os Faddas por um atentado e um roubo não só não conectados, como também não sancionados que foram abordados no episódio anterior, a presença de laranjas espalhadas na casa de Loy quando ele recebe a visita de Thurman inocentemente querendo pagar seu empréstimo pinta um potencialmente mortal futuro para os Smutnys. A falta de relação direta entre as várias linhas narrativas é, aliás, tão fascinante quanto frustrante, característica de Fargo e da forma de pensar de Noah Hawley que adora cozinhar os acontecimentos de maneira a levá-los a uma poderosa e destruidora convergência. Aliás, falando em Fargo, não só a cidade é finalmente mencionada, outra tradição da série, como, no mesmo diálogo, Mort Kellerman, personagem da 2ª temporada, é mencionado, costurando simpaticamente o Fargoverso.

E, como se as mortais laranjas não fossem suficientes para sublinhar que a morte ronda a série, eis que a jovem Ethelrida, ao fazer faxina no apartamento de Oraetta, esbarra no segredo da bizarra – e por vezes assustadora – enfermeira, um verdadeiro “anjo da misericórdia” que, pelo visto, vem matando pacientes há muito, muito tempo e colecionando troféus, além de uma boa quantidade de medicamentos em seu armário secreto que, claro, sequer fica trancado. Novamente, a desconexão narrativa é sensacional, pois, apesar de Oraetta ter um caso sadomasô com Josto e ter matado o poderoso chefão no primeiro episódio, além de ter do nada feito uma torna envenenada que quase mata Swanee, resultando em notas “marcadas” que certamente significarão que atos de violência contra os Smutnys serão perpetrados, ela mesmo é uma personagem externa aos acontecimentos. Sim, ela sem dúvida ajuda a mover toda a trama, mas ela o faz sem a menor consciência disso, o que só reitera o cuidadoso trabalho do showrunner em amarrar seus bizarros personagens em uma bola de neve cheia de dinamite.

E, seguindo a tradição dos discos voadores da 2ª temporada e da presença de Deus – ou algo semelhante – na , Hawley não se furta de também entrar no sobrenatural aqui. Se uma presença estranha no meio da rua já havia sido sentida – e mantida inexplicada e descontextualizada antes -, agora essa entidade parece ter perdido o pudor, dando as caras primeiro na funerária, assustando Ethelrida e, depois, no quarto de hotel de Zelmare e Swanee, como um anjo da morte saindo da banheira. Não arriscarei qualquer tipo de explicação e nem espero que haja uma até o final da temporada, mas parece-me que essa presença sinistra tem conexão com as duas ladras, especialmente considerando que Zelmare mencionou o “diabo” seguindo-as desde o Mississípi no episódio passado.

Chris Rock tem, pela primeira vez, o destaque que precisa para tirar seu personagem das margens sem brilho à que estava relegado. O ator ainda tem que comer muito feijão com arroz para conseguir ter o mesmo tipo de presença de Glynn Turman como Doctor Senator, Salvatore Esposito como Gaetano Fadda e até mesmo Jason Schwartzman como Josto Fadda, mas, aqui, ele mostra seu potencial primeiro no diálogo que tem com Rabbi no meio da rua e, depois, na conversa com Thurman ao final. Sua aura ameaçadora surge e é bem estabelecida, com Rock conseguindo convencer em seu papel. Ainda é pouco, mas são duas sequências fortes e dignas do líder de uma família mafiosa que parecem indicar que veremos mais de seu Loy Cannon no fronte, deixando de ser sombreado pelos demais personagens ao seu redor.

The Pretend War desacelera para preparar o inevitável e para introduzir de verdade um bem-vindo quê sobrenatural à temporada. Pela quantidade de laranjas naquele caminhão, quer parecer que Hawley pintará de vermelho as ruas de Kansas City…

Fargo – 4X04: The Pretend War (EUA, 11 de outubro de 2020)
Desenvolvimento: Noah Hawley
Direção: Dearbhla Walsh
Roteiro: Noah Hawley, Stefani Robinson
Elenco: Chris Rock, Jessie Buckley, Jason Schwartzman, Ben Whishaw, Jack Huston, Salvatore Esposito, E’myri Crutchfield, Andrew Bird, Anji White, Jeremie Harris, Matthew Elam, Corey Hendrix, James Vincent Meredith, Francesco Acquaroli, Gaetano Bruno, Stephen Spencer, Karen Aldridge, Glynn Turman, Timothy Olyphant, Kelsey Asbille, Rodney L. Jones III, Hannah Love Jones, Tommaso Ragno
Duração: 60 min.

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