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Crítica | Fargo – 4X05: The Birthplace of Civilization

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas de todo nosso material sobre Fargo.

Dana Gonzales começou sua carreira no audiovisual como operador de câmera, graduando para diretor de fotografia, cargo que ocupa até hoje, inclusive na 4ª temporada de Fargo, mais precisamente na dobradinha inicial de episódios. Seu primeiro trabalho como diretor geral foi em um episódio de Pretty Little Liars e, depois, já sob a batuta de Noah Hawley, dirigiu dois capítulos de Legion. The Birthplace of Civilization é seu primeiro trabalho de direção em Fargo e, a julgar pela qualidade, ele pode estar começando a trilhar o mesmo caminho de Michael E. Satrazemis no universo The Walking Dead, o que sem dúvida é uma boa notícia.

Fiz essa introdução para lembrar que foi o grande Roger Deakins quem fez a magistral fotografia de Fargo, de 1996, e se tem uma tradição que Hawley fez questão de manter ao longo das temporadas da série inspirada pelo filme dos Irmãos Coen é seu apuro visual. Mesmo considerando que o diretor de fotografia do episódio sob análise é Pete Konczal, sem dúvida alguma seu trabalho foi guiado pelo olhar técnico de Gonzales, por sua vez muito provavelmente instruído minuciosamente pelo próprio showrunner que muito provavelmente é obsessivo como Stanley Kubrick na composição de cenas.

Pode-se falar o que quiser de The Birthplace of Civilization – que é lento, repetitivo, mais uma forma de atrasar a inevitável guerra de gangues e por aí vai – mas o episódio é absolutamente magistral em sua aparência. Cada fotograma é cuidadosamente colocado no lugar pela decupagem precisa de Gonzales que sempre mantém a mira na fotografia, usando raios de luz filtrados por venezianas, contra-luz, plongées, atmosfera esfumaçada e granularizada, além da manutenção detalhada de uma paleta de cores rígida que gravita ao redor do marrom. É, simplesmente, um deleite visual daqueles capazes de fazer o espectador até mesmo esquecer a trama que, de fato, desenrola-se sem pressa alguma.

No entanto, essa mais absoluta calma no desenvolvimento da narrativa é também marca registrada de Fargo desde o filme noventista, passando por cada temporada de Hawley. O espectador tem memória curta, já que, com o passar dos anos, o que fica de uma obra audiovisual, na maioria das vezes, são seus grandes momentos de destaque, com as sequências entre um e outro sendo sublimadas. Mas são essas sequências que fazem grandes os tais momentos e é exatamente com isso que Hawley brinca. Isso fica evidente com a forma como ele inverte a lógica do já tradicional café de Doctor Senator em seu restaurante favorito. Para começar, nós o vemos chegando pela primeira vez e não já sentado e, quando ele senta, usa a cadeira normalmente dedicada a seus convidados. Além disso, no lugar de plano e contra-plano apenas, temos a intercalação disso com o sundae sendo montado e comido pelo silencioso, mas ameaçador Gaetano bem ao fundo. O roteiro não tem nenhuma intenção de esconder o que vai acontecer ou de surpreender o espectador. Até mesmo Doctor Senator sente seu fim chegando. A beleza da coisa está no ritual criado para o momento de sua morte acontecer fluida e belamente.

Toda essa sequência, aliás, é precedida de outra que tem exatamente a mesma tonalidade, mas com uma pegada mais explicitamente violenta e ao mesmo tempo cômica. Afinal, no momento em que o coitado do faxineiro do bar cai na gargalhada ao ver o estabaco de Gaetano, nós sabemos que ele morrerá. A questão é só exatamente como e quando. A monstruosidade do italiano recém-chegado de seu país destruído pela guerra que quer de toda forma controlar a família Fadda, é construída da mesma maneira que Jack Nicholson estabelece a loucura de Jack Torrance em O Iluminado: ela sempre esteve ali e sua manifestação é apenas o estado normal das coisas.

Mas o assassinato de Doctor Senator é uma grande perda para a série, não tenham dúvida. Glynn Turman era o grande destaque do lado da turma de Cannon e ainda que Chris Rock com seu Loy esteja galgando seus espaço desde o episódio anterior (já não era sem tempo!), valendo especial destaque para sua presença poderosa na funerária tomando posse do negócio da família Smutny e também quando ele revela saber detalhes do passado militar de Odis. Esse é o aspecto da temporada que ainda precisa ser bem desenvolvido e eu temo que já não haja mais tempo antes da eclosão da guerra, a não ser que os planos de Hawley não sejam bem por aí, o que é perfeitamente possível considerando que ele gosta de inteligentemente passar a perna em seus espectadores.

Mas The Birthplace of Civilization tem valor para além de mais um prelúdio para… algo. Aqui, as linhas narrativas de Ethelrida, Deafy, Zelmare, Swanee (aliás, a conversa delas sobre a diferença entre criminoso e fora da lei é sensacional) e Loy ganham mais pontos de convergência, algo que é feito com uma montagem enganosamente paralela no pulgueiro onde as duas amantes estão hospedadas que, mesmo não sendo nenhuma  novidade, sempre diverte quando bem executada. Essa costura narrativa é que me leva a crer que teremos mais do que apenas uma guerra de gangues ou até mesmo nem isso, com saídas mais estratégicas para os conflitos que são estabelecidos, especialmente aquele que cozinha dentro da própria família Fadda.

O roteiro que Hawley co-escreveu com Francesca Sloane é também capaz de inserir, sem didatismos, elementos ainda mais interessantes sobre os conflitos raciais que são pontos relevantes de tensão na temporada, mas que permanecem apenas como pano de fundo. A própria origem em comum da raça humana, aludida no título e explicada, para a surpresa do beato Deafy (mesmo ele sendo surdo para o que ele quer, não teve como não escutar isso), algo particularmente mais contundente considerando sua base religiosa, serve de pedra fundamental para as diferentes formas de preconceito que são trabalhadas com discrição pelo texto.

Fargo sempre foi uma série para ser degustada com calma e The Birthplace of Civilization é uma prova disso. Correr para que se a jornada que nos leva ao tal superestimado fim é muito mais interessante. Hawley sabe disso e, com Dana Gonzales em seu time prometendo os dois episódios seguintes também com ele na direção, com certeza manterá seu ritmo lento, mas certeiro, envelopado em pura mágica televisiva.

Fargo – 4X05: The Birthplace of Civilization (EUA, 18 de outubro de 2020)
Desenvolvimento: Noah Hawley
Direção: Dana Gonzales
Roteiro: Noah Hawley, Francesca Sloane
Elenco: Chris Rock, Jessie Buckley, Jason Schwartzman, Ben Whishaw, Jack Huston, Salvatore Esposito, E’myri Crutchfield, Andrew Bird, Anji White, Jeremie Harris, Matthew Elam, Corey Hendrix, James Vincent Meredith, Francesco Acquaroli, Gaetano Bruno, Stephen Spencer, Karen Aldridge, Glynn Turman, Timothy Olyphant, Kelsey Asbille, Rodney L. Jones III, Hannah Love Jones, Tommaso Ragno
Duração: 61 min.

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