Crítica | “Father Of The Bride” – Vampire Weekend

Na esteira de uma série de bandas indie clássicas ressurgindo de hiato está o Vampire Weekend, a banda nova yorkina que ficou marcada por seu enorme frescor autêntico no cenário do indie rock, implementando uma sonoridade com flertes com o erudito. Desde 2013 sem lançar disco – o último sendo o ganhador de Grammy Modern Vampire Of The City – era normal que a expectativa fosse elevada para o novo trabalho. Father Of The Bride surge então como um misto de coisas: se por um lado mostra um grupo fazendo algo rico e cheio de personalidade, por outro é um tanto irregular.

A criatividade de Ezra Koenig, como sempre, é um grande trunfo aqui. Totalmente livres nas composições, a banda não se prende a estruturas clássicas do rock, um exemplo é como a guitarra tenta a todo custo renovar sua sonoridade em meio aos mais variados synths e percussões. Uma influência que encontro a cada faixa do disco é Brian Wilson. Existe uma certa ingenuidade nas composições da banda que lembram os Beach Boys, indo desde as letras, passando pelas percussões diferenciadas e um leve flerte com psicodelia. Veja Big Blue, por exemplo, uma canção que mostra o vocalista encarando o oceano em um arranjo crescente e belíssimo que lembra as mesmas abordagens sonoras do clássico compositor californiano.

Além dos ótimos instrumentistas do grupo temos aqui bem vindas participações especiais. Steve Lacy, guitarrista do The Internets, participa das duas melhores canções pop do disco, a dobradinha floral de Sunflower e Flower Moon com um tom R&B irresistível. Já Danielle Haim, líder das irmãs Haim, faz participação em três canções – com destaque para a ótima Married In A Gold Rush – atuando quase como parte da banda. Embora sempre precisa e fazendo um bom contraponto ao vocalista, chega a ser meio frustrante que sua participação não atinja o mesmo resultado excelente de Lacy (bem pelo contrário, algumas canções estão entre as piores do álbum).

Dentro de toda estética bizarra e um tanto aleatória de divulgação do disco (parecem logos de brinquedos ou de ONGs?) está uma temática meio misteriosa do álbum. Ezra parece tentar em vários momentos fazer algum comentário político, mas acaba sempre caindo em terreno vazio (o que não deixa de passar uma sensação meio covarde, de certa forma). Afinal, suas letras direcionam muitas vezes para assuntos mais diferenciados e foras da caixa, mas a maioria acaba caindo em padrões clássicos do rock alternativo. Entre os pontos altos estão Harmony Hall, parecendo falar sobre o espaço que grupos de ódio vem recebendo, e Jerusalem, New York, Berlin, onde o vocalista parece tentar se conectar às raízes da religião judaica.

Father Of The Bride de certa forma é uma obra que se aproxima de outra indie bem recente: Tranquility Base Casino & Hotel, do Arctic Monkeys. Ambas possuem uma certa autenticidade que merece ser aplaudida, além de uma certa estranheza. Ambas são, em cada uma de suas respectivas abordagens, visões sobre o mundo moderno. No entanto, Alex Turner se sai muito melhor na narrativa de seus pensamentos (escreve absurdamente melhor que Ezra), além de soar com maior regularidade. Ainda assim, mesmo sendo uma obra imperfeita, o novo disco do Fim de Semana Vampiresco mostra uma sonoridade de grande frescor nos dias de hoje e só por isso já merece sua atenção.

Aumenta!: Big Blue
Diminui!: Hold You Now

Father Of The Bride
Artista: Vampire Weekend
País: Estados Unidos
Lançamento: 3 de maio de 2019
Gravadora: Sony
Estilo: Indie Rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.