Crítica | Fausto (1926)

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Embora talvez não seja tão conhecido quanto outras obras do cineasta F.W Murnau, como Nosferatu, A Última Gargalhada, ou mesmo Aurora, esta adaptação da clássica história de Fausto, talvez seja o filme que melhor sintetize a filmografia do diretor. Murnau era tão apaixonado por este projeto, que aceitou dirigir Tartufo (filme que ele inicialmente não estava interessado) para trazer a sua visão do famoso pacto com o demônio para as telas.

Na trama, um arcanjo (Werner Fuetterer) e o demônio Mephisto (Emil Jannings) fazem uma aposta. O mundo será entregue ao demônio, se conseguir corromper a alma de um homem justo, e destruir tudo que há de divino nele. Fausto (Gösta Ekman), um velho médico, torna-se o objeto desta aposta. Quando a peste negra secretamente espalhada por Mephisto atinge a sua aldeia, Fausto passa a acreditar que Deus é indiferente diante do sofrimento humano. Ele então evoca Mephisto, que lhe oferece um acordo. Fausto pode ter tudo o que desejar, da capacidade de curar o seu povo até a restauração de sua juventude, desde que abra mão de sua alma.

Último filme de Murnau produzido na Alemanha (o diretor foi para Hollywood logo após as filmagens), Fausto foi um projeto altamente ambicioso para a época, tornando-se o filme mais caro produzido na Europa até aquele momento (sendo superado por Metrópolis no ano seguinte). Escrito por Hans Kyser, que usa como base várias versões da lenda de Fausto, como o poema de Goethe e a peça teatral de Christopher Marlowe, o filme de Murnau trata sobre a tentação dos prazeres fáceis e de como a corrupção pode surgir inicialmente das boas intenções.

Existe certo subtexto religioso no roteiro de Kyser (e não escrevo isso por que o vilão é o demônio). Fausto, inicialmente é mostrado como um homem bastante religioso, que ao ver seus conhecimentos médicos serem incapazes de socorrer o seu povo, volta-se para Deus em busca de um milagre, mas não obtém resposta. É a sensação de que as forças do bem seriam indiferentes ao sofrimento humano, que faz com que o médico invoque Mephisto. O texto de Kyser continua a trabalhar com uma ironia trágica, já que Fausto começa a demonstrar desejos mais egoístas, justamente quando o povo o rejeita ao ligar os seus poderes de cura a pactos demoníacos, levando o protagonista a desejar a sua juventude de volta, pois passa a achar que a desperdiçou buscando conhecimento e cuidando dos outros. O filme mostra um roteiro sólido, que se perde um pouco apenas no 3º ato, ao apresentar um desfecho simplista demais diante da complexidade com que havia trabalhado até então.

Nos quesitos técnicos e estéticos, Fausto é deslumbrante. Quadros como as panorâmicas onde vemos um gigantesco Mephisto abrir suas asas para liberar a peste na aldeia, ou a encruzilhada onde Fausto invoca o demônio, colaboram para criar o tom épico buscado pelo cineasta. A fotografia e direção de arte são outro grande acerto, concedendo ao longa-metragem uma aura surrealista que combina com a atmosfera onírica e fabular do projeto.

Murnau merece todos os elogios por seu trabalho em Fausto, mas os devidos créditos também devem ser dados a Emil Jannings, que interpreta Mephisto com grande energia nas três formas que assume durante o filme (a saber, um demônio monstruoso, uma forma humana idosa, e outra mais jovem). Parceiro de longa data de Murnau, Jannings vive Mephisto sempre com uma expressão de astúcia e malícia no rosto, entregando um vilão que transita com elegância entre o cômico, o ameaçador, e o dramático. Já Gösta Ekman dá a Fausto uma natureza introspectiva, seja na forma do médico velho e cansado, ou do jovem hedonista, criando um contraste interessante com a performance mais enérgica de Jannings. Por fim, Camilla Horn, que tem aqui o seu primeiro papel de destaque, vive a trágica Gretchen, uma jovem por quem Fausto se apaixona, como o arquétipo da garota pura, e cujo arco dramático envolve justamente a destruição desta pureza.

Explorando os temas da força sedutora da corrupção, Fausto revela-se como um dos filmes mais grandiosos dirigidos por Murnau. Contando com um elenco afiadíssimo, efeitos especiais muito à frente de seu tempo e uma estética acachapante, a derradeira obra alemã de Murnau foi uma saída em grande estilo, e que mais de noventa anos após o seu lançamento, ainda mantém a maior parte de sua magia.

Fausto (Faust-Eine Deutsche Volkssage). Alemanha, 1926.
Direção: F.W. Murnau.
Roteiro: Hans Kyser.
Elenco: Emil Janning, Gösta Ekman, Camilla Horn, Frida Richard, William Dieterie, Yvette Guilbert, Eric Barclay, Hanna Ralph, Werner Fuetterer.
Duração: 116 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.