Crítica | Fé Corrompida

Spoilers!

A religião fez parte da minha vida durante a adolescência. Não por escolha, a doutrina cristã participou de minha criação, com todos seus dogmas e mandamentos. Uma das frases que mais ouvia dos líderes religiosos era: “o corpo é um templo”. Ou seja, não podíamos ingerir bebidas alcoólicas, fazer tatuagens, colocar piercings ou até mesmo ter relações sexuais antes do casamento porque, segundo eles, o corpo é sagrado demais para coisas “mundanas”. A obra de Deus deve ser preservada, diziam. As mesmas pessoas que afirmavam isso, não demonstravam interesse por pautas ambientais, por exemplo. Se o corpo humano é um templo, o que dizer da Terra? Se a obra de Deus deve ser protegida, isso não inclui o planeta?

Portanto, quando assisti Fé Corrompida, de Paul Schrader, pela primeira vez me vi diante de uma obra que aborda essas questões. O Pastor Ernst Toller percebe que vive em um mundo poluído e caminhando para tornar-se inabitável e seus colegas religiosos importam-se apenas com o poder, criando laços com empresários. Porém, a hipocrisia religiosa não existe apenas no ódio que propagam enquanto Cristo prega “ama teu próximo como a ti mesmo”, mas também ao não proteger a verdadeira obra de Deus, mais preocupados em defender instituições criadas por homens. Dito isso, é genial a abordagem moderna que Schrader consegue estabelecer a partir de um tema tão antigo quanto a religião. No entanto, apesar dessa reflexão mais pessoal, o longa é brilhante em várias esferas, como o incrível estudo de personagem que promove.

A premissa do longa apresenta o ex-capelão militar Toller (Ethan Hawke), o qual sofre pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Além do trauma, ele precisa lidar com outro desafio que começa quando faz amizade com a jovem paroquiana Mary (Amanda Seyfried) e o marido dela, um ambientalista radical. A partir do contato com o casal, o pastor descobre segredos nebulosos de sua igreja com relação a empresas inescrupulosas.

Marca registrada em sua carreira, Schrader utiliza a narração em off aqui não como elemento expositivo dentro da narrativa, mas sim para apresentar comentários de Toller sobre o universo que o rodeia. Conhecer as reflexões do protagonista não torna a experiência do público mais fácil, pelo contrário, desafia o espectador para compreender o nível de sanidade do pastor e se seus pensamentos extremistas podem ter algum sentido. Apesar do claro enlouquecimento do personagem, somos constantemente provocados a concordar com ele, como se fosse inevitável não enlouquecer em um mundo tão decadente. Portanto, Schrader promove desenvolve um personagem complexo e coloca o público dentro da história com precisão.

Outra estratégia de Schrader para promover a imersão está na fotografia, optando por uma razão de aspecto em 1.37:1 (como uma caixa) e preferindo enquadramentos centralizados. Além disso, a estratégia cria uma atmosfera clautrofóbica que, aliada à paleta fria e acinzentada, reforça o sentimento de frieza dos personagens. Schrader também utiliza trilha sonora em poucos momentos e constrói ambientes vazios e amplos, aumentando a sensação de silêncio e isolamento. Por fim, a edição estabelece um ritmo lento, alongando as cenas e promovendo poucos cortes, dando tempo ao público para ingressar na narrativa. Aqui, nada é entregue de maneira banal, nem mesmo o sentimento de cada cena, algo apropriado para que o espectador possa ter suas próprias conclusões.

Seja a parte técnica ou o roteiro, todo o longa gira entorno do protagonista. Os coadjuvantes e espaços estão a serviço dele. Portanto, para uma proposta assim funcionar, é necessário um grande ator e Ethan Hawke não decepciona. Em uma das melhores interpretações de sua consistente carreira, estando melhor apenas na Trilogia do Antes, o ator expõe as camadas de Toller no ritmo lento que o filme pede. A bondade do pastor com os fiéis e a dor do passado fica evidentes no primeiro ato, com sua postura ereta e voz suave, mas, quando a loucura e obsessão começam a tomar lugar, Hawke apresenta isso com a força necessária, expondo um corpo e uma voz trêmulos.

Outro elemento trabalhado pelo roteiro de Schrader é a relação do protagonista com Mary, interpretada com competência por Amanda Seyfried, apesar de não ter o destaque de Hawke. A interação entre eles mostra-se estratégica dentro da narrativa justamente para evocar o lado humano do pastor, evitando que o personagem pareça apenas um homem em pleno declínio psicológico. Aliás, é a relação que proporciona um dos momentos marcantes do longa, a viagem psicodélica deles deitados no chão, representando como a poluição do planeta, moral ou física, só pode ser superada pela união e amor reais ensinado por Jesus, não a toa, a silhueta dos dois juntos remete à ele.

Assim como Cristo, a jornada de Toller também é de sacrifício. Aliás, a culpa e a entrega pessoal é um tema recorrente em filmografias de cineastas que abordam temas religiosos, como Lars Von Trier e Martin Scorsese, eventual parceiro de Schrader. Em Fé Corrompida, o dilema do protagonista está em ver sua religião agindo de maneira oposta ao que acredita. Vários realizadores geniais, como Ingmar Bergman, abordaram a perda da fé em Deus e o silêncio do Criador em um mundo em declínio. Porém, Schrader promove uma subversão disso. A agonia do personagem está em observar o silêncio da religião em um planeta corroído. A crença em Deus permanece, mas a confiança na igreja não. Como o protagonista diz: “sabemos quem fala pelos grandes negócios, mas quem fala por Deus?”. Esse conflito movimenta a jornada de sacrifício do personagem, construída com lentidão para que o público sinta cada passo da queda de Toller.

O pastor conclui que, se não pode punir uma instituição tão manipulatória, punirá a si mesmo. Esse é seu sacrifício pessoal. Se Jesus pagou pelos pecados de toda a humanidade, o pastor escolhe pagar pelos pecados da igreja. O beijo entre Mary e Toller na sequência final destaca como, em um mundo tão acinzentado e individualista, um ato de amor também é um gesto doloroso. Propagar a verdadeira obra de Deus é algo cada vez mais raro entre aqueles que se dizem seguidores Dele.

Fé Corrompida (First Reformed) – EUA, 2017
Direção: Paul Schrader
Roteiro: Paul Schrader
Elenco: Ethan Hawke, Amanda Seyfried, Cedric the Entertainer, Victoria Hill, Philip Ettinger, Michael Gaston, Bill Hoag
Duração: 113 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.