Home TVEpisódio Crítica | Fear the Walking Dead – 3X13: This Land Is Your Land

Crítica | Fear the Walking Dead – 3X13: This Land Is Your Land

por Ritter Fan
222 views (a partir de agosto de 2020)

– Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

Eliminar o rancho e seus habitantes tão cedo da equação foi uma aposta arriscada de Fear the Walking Dead. Se, por um lado, a série passa a impressão de ritmo acelerado, por outro ela pode voltar a transmitir a sensação da falta de rumo que marcou sua famigerada segunda temporada. No entanto, se considerarmos This Land Is Your Land isoladamente como o grande ponto de virada na vida de Alicia, temos um dos melhores episódios da temporada, ainda que não seja perfeito.

Continuando exatamente do ponto em que Brother’s Keeper parou, os sobreviventes do Rancho Broke Jaw estão entocados no depósito subterrâneo de comida e armamentos, com os zumbis da horda do lado de fora em quantidades bíblicas. Mais distantes, Nick e Troy – este último o causador de toda a desgraça – se juntam, depois da morte de Jake, para tentar salvar todo mundo com um plano que parece tão mal feito quanto sua execução. Madison, Strand e Walker não aparecem até os minutos finais.

Nesse beco sem saída, o foco é nos sobreviventes e, dentre eles, em Alicia. Assumindo de vez a liderança que ela começou a demonstrar nos episódios anteriores, a jovem precisa lidar com uma terrível sinuca de bico: matar para que os demais possam sobreviver mais tempo, já que a ventilação do local está bloqueada e Ofelia e Lee estão rastejando pelo sistema para descobrir o que aconteceu. Separando o grupo entre aqueles mordidos e os sadios, Alicia tem a dificílima missão de matar quase que ritualisticamente cada um do primeiro grupo, em um processo que, claro, a destrói internamente ao longo do pouco tempo que passa ali.

Se a personagem demorou a encontrar sua função na série, sempre rumando perdida de um lado para o outro, na terceira temporada ela foi se encontrando, seja pelo romance “com interesses escusos” com Jake, seja pela forma com ela enfrenta e substitui Madison em diversos momentos. Tudo, quer parecer, caminhava para este clímax, um dos mais torturantes até agora neste zumbiverso de Robert Kirkman. Na verdade, chega a ser terrivelmente injusto como toda a responsabilidade recai, quase que em um piscar de olhos, sobre seus ombros. Não só ela precisa liderar e inspirar, como ela precisa executar seu plano quase que completamente sem ajuda. E isso, lógico, tem um preço, preço esse ainda difícil de medir, mas que já fica delineado pela vontade de Alicia de simplesmente ir embora ao final, sozinha para a cabana que Jake mencionara antes de morrer.

O trabalho de maquiagem no episódio merece destaque. E não falo, aqui, dos zumbis, pois é chover no molhado. O ponto que merece comenda é a regressão física de Alicia, com seu rosto cada vez mais cansado e cavado, que, lá por seus momentos finais, a transforma em uma verdadeira “morta caminhante” como diria Rick Grimes. Esse tipo de abordagem sempre foi o coração de Fear the Walking Dead e de sua série-mãe e é quando a natureza humana é desafiada que normalmente os melhores episódios vêm à tona.

Da mesma forma, a direção de Alrick Riley é excelente, com a câmera fechada em Alicia, fazendo-nos viver de forma vicariante os terríveis dilemas da personagem, mas ao mesmo tempo deixando claro que ela não tem saída. A sensação de claustrofobia e finalismo é massacrante, algo que é também amplificado pelo quase completo desaparecimento das cores.

O roteiro de Suzanne Heathcote é inteligente nessas sequências ao criar uma conexão entre Alicia e Christine, uma das poucas que oferece algum tipo de ajuda para ela. Quando elas, com o ar acabando, conversam sobre o passado – Christine sobre o primeiro marido que estava em uma das Torres Gêmeas no 11 de setembro e Alicia sobre uma lembrança constrangedora em um acampamento em que ela e Nick esqueceram a letra da música que batiza o episódio – vemos, ali, que a humanidade tem saída exatamente ao mesmo tempo que percebemos que elas não. Sim, é intuitivo que Alicia sobreviverá, mas a forma como a sequência é trabalhada, notadamente a menção ao 11 de setembro, estabelece o fim do rancho e de todos os seus habitantes, ao mesmo tempo que faz da personagem de Alycia Debnam-Carey, mostrando toda sua capacidade dramática, uma das mais fascinante da série em um piscar de olhos.

Mas é na forma como esse fim é arquitetado que minhas reservas começam. Primeiro, assim como aconteceu com a água, os problemas com a ventilação me pareceram aleatórios e repentinos demais, ainda que haja uma explicação lógica quando Ofelia e Lee descobrem o desmorto enganchado na hélice do ventilador. Mas o elemento principal é a forma como todos – menos Alicia – morrem sem ar e são transformados em zumbis. Conveniente demais, fácil demais. Não há nem mesmo uma outra pessoa que, junto com a personagem, pudesse oferecer resistência?

E, se o plano atabalhoado de Nick e Troy não dá em nada, algo que é de se esperar, a chegada deus ex machina de Madison, Strand e Walker no proverbial último segundo irrita. O roteiro vinha construindo Alicia magistralmente, demonstrando que a personagem tem força suficiente para se virar sozinha, mesmo sem ar e cercada de zumbis. Foi desnecessário que “mamãe” chegasse de repente para salvar o dia e tirá-la daquele inferno. Teria sido muito mais digno se tivessem deixado a jovem livrar-se do problema integralmente sozinha.

Além disso, a dizimação completa do rancho, que ainda tinha potencial para lidar com o conflito oriundo da versão pós-apocalíptica do Destino Manifesto, é um pouco desapontadora. No entanto, a grande verdade é que reservo esse julgamento para depois que a temporada acabar, pois pode ser que a nova divisão do grupo ao final funcione e leve a série a novos e ainda mais interessantes caminhos. Apenas lamento que a história do Rancho Broke Jaw e tudo o que ele significava tenha chegado a um abrupto e cataclísmico fim.

Mesmo diante de problemas, This Land Is Your Land é um episódio potente que deixa o espectador tenso e angustiado, ao mesmo tempo que termina de construir – no processo de destruição do rancho – a personagem de Alycia Debnam-Carey que, espero, terá um futuro que faça jus aos seus sacrifícios. Partindo para uma nova fase, a terceira temporada de Fear the Walking Dead permanece firme e forte em sua intenção de nos fazer esquecer seu passado claudicante, e isso só para usar um eufemismo.

Fear the Walking Dead – 3X13: This Land Is Your Land (EUA, 1º de outubro de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Alrick Riley
Roteiro: Suzanne Heathcote
Elenco: Kim Dickens, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher, Rubén Blades, Jason Manuel Olazabal,  Jesse Borrego, Lisandra Tena
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 44 min.

Você Também pode curtir

16 comentários

Vinícius Alexandre 8 de outubro de 2017 - 10:35

O episódio realmente foi muito bom. Já estava ansioso por saber como eles sairiam do bunker. Mas o final deus ex machina realmente não convenceu, tendo somente a Alicia como sobrevivente. Além das decisões tolas comentadas, tem a ideia da Ofelia de atirar no zumbi depois de subir nos ombros do “cachorro louco”. Por que não atirar enquanto estava embaixo e depois puxá-lo? Tensão gratuita. A outra ideia idiota é da Alicia de ficar trancada na sala gradeada do arsenal e ter que sair pra matar zumbis. Por que não matar dali mesmo?

Enfim, fora a soma de todas as ideias babacas, gostei bastante do episódio.

A forma como terminou só leva a crer que tudo vai culminar na descoberta por parte da Alicia de que Troy foi o responsável pela horda e Nick pela morte de Jake. A surpresa será a reação dela. Não consigo prever depois dos últimos acontecimentos.

Responder
planocritico 9 de outubro de 2017 - 14:07

É bem por aí. Apesar das idiotices, o episódio funcionou muito bem como um estudo sobre Alicia e o desenvolvimento da personagem.

Abs,
Ritter.

Responder
Artur Montenegro 6 de outubro de 2017 - 19:49

Excelente Review, Ritter! Foi um surpreendente episódio, cheio de tensão, drama e desenvolvimento por parte de Alicia. Jamais imaginaria que fossem acabar com o núcleo do rancho de uma forma tão rápida e grotesca. Fiquei esperando sim que houvesse um outro sobrevivente além de Alicia porque é muito louco e inconveniente que apenas ela tenha este feito. A questão da falta de ar não acho que seja algo questionável, até porque foi algo que se decorreu após a chegada da horda (quero acreditar que o zumbi tenha vindo dela e caído na passagem de ar), então deixa claro o motivo de não explicarem ou abordarem algo antes. Adorei o merecido destaque de Alicia, foi tocante, comovente e muito crível. A atuação da atriz também foi ótima, carregou o episódio todo em suas costas. É inacreditável a qualidade dessa temporada de Fear, quem diria que chegaríamos tão longe com ótimos episódios ao longo do caminho? Esse fim rápido do rancho e o destino de Alicia me deixam preocupados. Quem não lembra de Nick sozinho na segunda temporada e o núcleo sendo dividido em episódios sem rumo algum? Temo por isso novamente, até porque o showrunner não vai retornar na próxima temporada. Não sei o que esperar do finale, mas espero não decepcionar. Enfim, ótima crítica!

Responder
planocritico 6 de outubro de 2017 - 20:02

Obrigado, @arturmontenegro:disqus ! A questão do ar foi lógica sim, só achei conveniente demais, assim como a morte de todos, menos de Alicia. Mas isso não tira o brilho episódio não.

Sobre o final, é meu temor também. Da última vez que houve uma divisão dessas, a série se destruiu de vez. Espero muito que a temporada acabe redonda, pois só faltam mais três episódios!

Abs,
Ritter.

Responder
Alex Alves 6 de outubro de 2017 - 13:57

Gostei muito do episódio, cortaram personagens desnecessários que quase nada acrescentavam a trama. A série esta bem dinâmica e rápida mas nada me tira da cabeça que Travis daqui alguns episódios vai voltar rsrs.

A personagem Alicia tem sido bem desenvolvida essa temporada deixando de ser a mocinha bobinha que pensava que tudo ainda daria certo algum dia.

Responder
planocritico 6 de outubro de 2017 - 15:22

@disqus_wHnwexv2Fr:disqus , não roga praga não!!! Deixa o Travis morto, pelo amor de Romero!

Abs,
Ritter.

Responder
Vitner Santos 6 de outubro de 2017 - 04:23

Como que TODOS morreram menos a Alicia? Ai com essa eu ri haha

Responder
planocritico 6 de outubro de 2017 - 15:20

Como disse um leitor aqui na seção de comentários, “injetaram o poder do protagonismo ali”… Deveriam ter deixado mais alguns sobreviverem, nem que fosse para eles serem comidos por zumbis em seguida…

Abs,
Ritter.

Responder
Huckleberry Hound 5 de outubro de 2017 - 22:00

Ás vezes sinto que nem é a mesma série das duas temporadas anteriores!

Responder
planocritico 6 de outubro de 2017 - 15:18

Ué, tem duas temporadas anteriores? HAHAHAHHAHHAHAHAHAHAHAH

Abs,
Ritter.

Responder
SomBR@ 5 de outubro de 2017 - 21:25

Amei esse episódio, estou tão fascinado com essa temporada, que não estou com tantas expectativas para a volta de TWD, não vou maratona, se torna cansativo, desde a última maratona ter sido com 30% de velocidade. Enfim, ótimo episódio, sua opinião sobre os pontos fracos da série eu concordo, acho que umas 2 pessoa tivesse sobrevivido ao ar com a Alicia, nem que fossem mordidos depois, ficaria mais real. Espero que Alicia se desenrole sozinha, e nós apertos, que não seja preciso seu irmão a salva-la. Nick e Troy… vai dar trabalho em kk. (Porque a Madison ta tão calma com toda situação? a atriz não é muito boa, não demonstra afeto algum pelos filhos, porém eu curto a dupla dela com o Strang). Até agora, foi meu episódio predileto, falta 3 episódios ainda, então ficar no aguardo, e esperar pelas surpresas. Pessoal onde ta aquela namorada do Nick? será que ela só irá aparecer na próxima temporada? não acho que eles vão descarta-la assim.

Responder
planocritico 6 de outubro de 2017 - 15:18

Também espero que Alicia continue sozinha, pelo menos por um tempo. E estou curioso para ver o que a dupla de desajustados Troy e Nick farão agora que estão sozinhos… Coisa boa não será…

Verdade, a namorada do Nick! Tinha até me esquecido dela… Realmente, ela tem que aparecer.

Abs,
Ritter.

Responder
Junito Hartley 5 de outubro de 2017 - 12:29

Otima critica! Concordo com todos os pontos levantados por vc, me incomodou a parte em que geral morre e somente a Alicia fica viva, injetaram o poder do protagonismo ali, fora isso mais um ótimo episodio. Sobre a Alicia querer ficar sozinha me lembrou o Nick la na 2 temporada, o bom é que agora vamos ter a dupla Nick/Troy andando por ai.

Responder
planocritico 5 de outubro de 2017 - 14:21

“Injetaram o poder do protagonismo ali” HAHAHHHAHAHHA – Boa, isso mesmo!

Vamos ver com as coisas vão andar. Realmente, ter Troy e Nick juntos por mais tempo será bem interessante! Eu só espero que não façam de Troy um herói agora…

Abs,
Ritter.

Responder
Joly81 5 de outubro de 2017 - 08:40

Concordo com vc em relação aos pontos fracos do episódio, essas conveniências de roteiro foram um pouco negativas. O “plano” de Troy e Nick foi patético. Agora, a interpretação de Alycia Debnam-Carey foi sensacional, ela passou a crível sensação de terror, sacrifício e claustrofobia. Ou seja, se revelou uma excelente atriz, que estava adormecida por uma personagem que não tinha função, limitando então seu potencial. Já a atriz que faz Madison é ruim de doer, a mulher só tem uma expressão facial. Também achei o fim do rancho precipitado, porém acho que muita treta ainda vai acontecer na represa. Aliás, pelo jeito, creio que a próxima temporada (se houver) vai ter essa represa como cenário.

Responder
planocritico 5 de outubro de 2017 - 14:22

A atriz desabrochou finalmente! Foi só darem um espaço para ela e ela mostrou a que veio. Essa temporada tem sido surpresa atrás de surpresa.

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais