Crítica | Fear the Walking Dead – 5X05: The End of Everything

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Jamais imaginaria que um episódio inteiro focado em Althea pudesse resultar em algo como The End of Everything. A personagem, interessante quando foi introduzida na 4ª temporada, havia perdido muito de sua função, ou, pelo menos, não havia mostrado para que exatamente ela servia além de ser a pessoa que – não muito diferente do cansativo Morgan – batia sempre na mesma tecla da importância da história, do legado, só que sem maiores consequências para a história maior. E eis que, surpreendentemente, temos algo que poderia muito bem ser visto como o equivalente do excelente Laura, não coincidentemente, também o quinto episódio da temporada anterior.

O roteiro, escrito pelos showrunners, mostra toda a capacidade da dupla de escrever algo de grande significado, mas sem precisar esfregar esse significado na cara dos espectadores como eles vêm fazendo na direção geral da série com a história do “bom samaritano” que não cansou pelo que ela é, mas sim pela forma como ela é transmitida. Se o título fala no “fim de tudo”, o episódio é exatamente o começo de algo bem pequeno, uma história de amor proibido disfarçada de narrativa macro que pode deixar muita gente chateada pelo quanto que finge que vai revelar, sem, na verdade, revelar nada sobre o grande mistério que cerca as duas séries do zumbiverso de Robert Kirkman: afinal, que organização é essa responsável pelos helicópteros que levaram Rick Grimes embora na 9ª temporada de The Walking Dead?

Certo, “nada” é exagero, já que há algumas linhas de diálogo que dão a entender mais ou menos o óbvio e que já era mais do que esperado. Em princípio, estamos diante de algo grande, que pode significar a salvação da humanidade de uma maneira ou de outra. Basicamente, como diz Isabelle, a misteriosa personagem fardada que sequestrara Al em Here to Help, essa organização representa o futuro. Só para não deixar de cobrir esse assunto, já que ele nem de longe é o principal do episódio, devo confessar que não gosto dessa direção, de algum centro ou localidade em que o futuro da humanidade está sendo preservado e que pode ser o grande “final” dessas séries, se é que um dia elas acabarão. Prefiro algo mais pessimista do que o delineamento de um Éden que representará o reboot da humanidade e, quem sabe, pior ainda, trazer a cura para a praga zumbi.

Feito esse desvio necessário, voltemos para a história de amor que The End of Everything quer nos contar. A revelação imediata do que Isabelle quer – a fita de Al – e como os primeiros dois ou três minutos são utilizados de maneira muito precisa para colocar as duas em uma situação de “paz armada”, exigindo muito das duas atrizes. Maggie Grace e Sydney Lemmon, em atuações memoráveis, precisam transmitir imediatamente, mas sem obviedades, uma conexão maior do que uma espécie de admiração mútua pela tenacidade que suas personagens demonstram. O subtexto de uma atração mais profunda precisa estar presente de início para o episódio funcionar, como se isso fosse o diamante bruto que o roteiro, então, muito calmamente, lapida a cada minuto que passa.

As aventuras porque elas passam ajudam nesse trabalho, pois, novamente, o roteiro acerta em criar um frescor narrativo, uma curiosidade com os desmortos alpinistas, que desvia nossa atenção por alguns momentos, incluindo aí bons momentos de tensão como a surpresa do desabamento em cima do carro e, depois, a escalada das duas atrás de combustível para o helicóptero. Sim, é bem verdade que  temos que aceitar que Althea é uma alpinista (pelo menos amadora), mas isso não é muito difícil, já que não sabemos absolutamente nada sobre a personagem além de sua obsessão por entrevistar pessoas e um gosto por carros fortemente armados. A prova maior disso é que sequer sabíamos o sobrenome dela, um toque genial bem no finalzinho do episódio, quando ela finalmente se junta à Morgan, Alicia e os garotos perdidos.

Com isso, a eficiência nas sequências de ação – que lembram bastante em tom as de Humbug’s Gulch – é como a névoa meticulosamente inserida para atrapalhar nossa visão por tempo suficiente para que a atração entre as duas seja perfeitamente natural de forma que, na hora em que ela se concretiza, o beijo seja mais do que esperado. E não digo esperado como um clichê ou algo óbvio e piegas, mas sim como algo legítimo, perfeitamente inserido dentro desse contexto finalista que essa e a série-mãe sem dúvida sempre carregam.

Mas o melhor é que o que realmente interessa, lá no fundo, não é o romance, até porque ele não pode ser concretizado de maneira tradicional e aí sim clichê. É, como disse mais acima, o romance proibido que exige sacrifício das duas. Isabelle quebra o protocolo rígido de sua organização, colocando tudo que acredita em perigo. Althea não só entrega uma de suas valiosas fitas, como também promete – e pelo menos em tese parece que cumprirá – que não perseguirá essa história, mentindo para seus amigos ao final. O sacrifício é necessário por razões práticas construídas dentro da história, mas também por questões líricas, que emprestam todo o embelezamento ao episódio. A conexão entre as duas representa a esperança para elas e, de certa forma, para a Humanidade, mais até do que o paraíso prometido. Ainda há espaço para amor ali dentro daquele inferno total, mesmo que seja um amor que precisa ser mantido escondido, que traga com ele um sofrimento embutido.

Para dar vida a tudo isso, Michael E. Satrazemis volta para a direção e, fugindo de sua tendência de criar assombrosos episódios escuros, com fotografia exemplar, ele lida com tudo com muita iluminação, quebrando por alguns minutos até mesmo a rígida paleta de cores emudecida que vem marcando a série desde a temporada anterior. Com isso, vemos cores mais fortes aqui e ali nas roupas e apetrechos de escalada, assim como a luz natural do dia passa a ser a regra, tudo de forma a traduzir a sensação de proximidade que as duas passam a sentir desde os primeiros segundos, mesmo depois de uma violenta coronhada em Al por Isabelle.

The End of Everything encerra o arco do sumiço de Al como um daqueles fillers bem trabalhados que são tão úteis em uma série sangrenta como essa. Além disso, o episódio mostra que temas positivos, edificantes e bonitos não precisam ser marretados de forma didática toda hora. Se a linha narrativa dos helicópteros será explorada futuramente? Provavelmente sim, mas, por enquanto, pouco importa desde que FTWD saiba capitalizar em cima do que os showrunners fizeram aqui e realize todo seu potencial.

Fear the Walking Dead – 5X05: The End of Everything (EUA, 30 de junho de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Matt Frewer, Austin Amelio, Sydney Lemmon
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.