Crítica | Fear the Walking Dead – 5X06: The Little Prince

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Depois de um episódio sensacional como The End of Everything, é natural uma certa frustração com The Little Prince. Já esperava por isso e fui de peito aberto, mas o episódio conseguiu me desapontar mais do que eu esperava não só por começar com mais um discurso de auto-ajuda de Morgan, como também e especialmente por atirar para todos os lados, abordando todos os núcleos narrativos de uma vez só, mas, incrivelmente, sem avançar muito em nenhum deles.

Se o grande momento do episódio foi a chegada de Strand e Charlie de balão-cerveja em uma composição visual de chroma key inacreditavelmente terrível, por outro lado ele não faz sentido nenhum. Quer dizer então que os dois partem para a zona radioativa sozinhos e sem combustível para sequer manter o balão no ar? E sem levar as peças que os demais precisam? Confesso que fiquei estupefato com o momento “triunfal” e não ficaria triste se a dupla morresse na queda, de preferência levando Morgan junto. Mas claro que nem isso aconteceu…

O drama das crianças lideradas por Annie e todo aquele loooooongo diálogo expositivo da garota explicando basicamente o que já sabíamos para justificar sua escolha de abandonar os adultos foi de revirar os olhos. Já passamos do ponto em que esse tipo de artifício choroso é necessário em Fear the Walking Dead. Já passamos do momento em que precisamos que cada situação deixada minimamente enevoada nos seja entregue de bandeja, quase que juntamente com gráficos e uma apresentação em PowerPoint toda colorida para acompanhar. O roteiro de Mallory Westfall, nesse quesito, foi abissal e completamente desnecessário, tudo para justificar o título O Pequeno Príncipe e toda a responsabilidade e processo de crescimento e maturidade do protagonista da obra do francês Antoine de Saint-Exúpery que, com a subtrama do avião, parece ser o manual que os showrunners decidiram seguir na temporada.

O grande problema não é as crianças irem embora ou Morgan e companhia decidirem reconstruir o avião em pedaços como se Althea, depois de revelar-se como uma alpinista de mão cheia, também fosse especialista em aeronáutica, basicamente como um MacGyver feminino pós-apocalíptico. O problema maior e mais desconcertante reside na bagunça que é o episódio todo, com alguns poucos minutos para cada situação como se Westfall tivesse recebido ordens para tentar compensar o “tempo perdido” pelo foco exclusivo em Althea e Isabelle. Afinal, não podemos esquecer que além de Strand e Charlie no armazém de Daniel (e, depois, no fatídico balão), Alicia com as crianças, Al com o avião e Morgan partindo para ajudar Maggie com a usina nuclear, ainda temos John Dorie ajudando Dwight a encontrar sua esposa. Tudo de uma vez agora sem permitir desenvolvimento, sem fazer mais como The End of Everything e menos como se estivéssemos diante de uma sangria desatada só porque a temporada está chegando ao seu hiato de praxe.

Afinal de contas, há boas histórias aí nesses núcleos, notadamente a busca de Dorie e Dwight, mas seus respectivos dramas e tensões caem por terra ao não nos permitir uma conexão maior com elas de forma a nos importarmos de verdade com os destinos dos personagens ou temermos – como deveríamos naturalmente temer – um vazamento nuclear na região onde os protagonistas estão presos. É como se tudo fosse burocrático, padrão, sem maiores esforços para tornar as subtramas verdadeiras e, sim, realistas. E o mais frustrante é saber que o potencial para boas histórias está todo lá. As peças estão todas em cima da mesa, faltando, apenas, que elas sejam encaixadas de forma que seja possível apreciar o todo como um grande feito e não como algo reunido de qualquer jeito só para acabar logo.

Provavelmente meu amargor tem relação com a qualidade do episódio anterior, mas creio que não. Eu consigo ver o que tentaram fazer aqui em The Little Prince, mas as partes simplesmente não se somam, não resultam em um conjunto harmônico como foi a relação relâmpago entre Al e Isabelle. Não tenho culpa, no final das contas, se Andrew Chambliss e Ian Goldberg de repente me lembraram que eles sabem escrever grandes episódios quando querem.

Fear the Walking Dead – 5X06: The Little Prince (EUA, 07 de julho de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Sharat Raju
Roteiro: Mallory Westfall
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Matt Frewer, Austin Amelio, Sydney Lemmon
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.