Crítica | Fear the Walking Dead – 5X09: Channel 4

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Era inevitável que as filmagens de Althea fossem utilizadas alguma hora para compor um episódio da série. Até demorou demais, diria. Em um episódio de transição, que nos arremessa para algum tempo depois de Is Anybody Out There?, aprendemos que o grupo não caiu na segunda historinha de Logan, deixando o pilantra para trás e que o projeto “Bom Samaritano” de Morgan Paz-e-Amor começou a dar certo. Apesar de começar de maneira cansada, o pseudo-documentário que, na verdade, é uma espécie de peça publicitária para os serviços de ajuda ao próximo que o grupo oferece, até consegue engrenar quando passar a abordar a história da mulher e do filho ermitões em uma casa cuja defesa é um campo minado anti-zumbi ao redor (ideia de gênio essa, especialmente considerando que ela não tem nem um mapa das minas…).

Essa história provê o entretenimento de Channel 4. Ver os zumbis vagarosamente entrando no jardim da casa da mulher e sendo explodidos é engraçado demais, assim como a completa incompetência da equipe de resgate em fazer alguma coisa que faça algum sentido. É como ver palhaços de circo batendo cabeça tendo pedaços de desmortos voando como pano de fundo, algo que ficaria perfeito em uma série como Z Nation ou seu prelúdio Black Summer, mas que, no universo de The Walking Dead, parece um pouco deslocado, ainda que FTWD tenha mais constantemente se aproximado do “artifício surreal da semana” para justificar sua existência.

Enquanto a situação principal se desenrola da maneira mais previsível possível, mas sem perder em divertimento explosivo, ganhamos enfadonhas entrevistas com os integrantes do elenco que passam a abordar seus propósitos de vida em sessões terapêuticas filmadas. Morgan está como um pinto no lixo já que seu projeto está dando certo, mas ele ainda não conseguiu desvencilhar-se dos fantasmas de seu passado, notadamente sua esposa e filho mortos. Alicia está traumatizada desde seu último encontro com uma horda de zumbis a ponto de se recusar até mesmo a matar os mortos, contribuindo para que a personagem torne-se mais inútil ainda que Morgan. Os demais, muito sinceramente, estão diante das câmeras como fillers humanos, já que não têm muito mais o que falar além de platitudes ou obviedades que já estamos cansados de ouvir.

Mesmo considerando que o “documentário” é bem produzido, com o diretor Dan Liu preocupando-se em pixelizar as imagens e emprestar um ar amador à montagem, como se realmente estivéssemos assistindo filmagens em VHS (juro que não sei aonde é que Al acha tanta fita dessa tecnologia saudosa, mas completamente ultrapassada desde bem antes do apocalipse zumbi da série começar) editadas na própria câmera. Nesse aspecto e também no campo minuto, o episódio vai muito bem, prendendo razoavelmente bem a atenção do espectador. Quando, porém, as filosofias de botequim do elenco passam a  ser derramadas no melhor estilo de documentário de auto-ajuda, confesso que minha vontade foi de clicar no fast forward ou de pegar o celular para ver a previsão do tempo. É absolutamente cansativa a insistência de Andrew Chambliss e Ian Goldberg em martelar incansavelmente a linha narrativa de ajuda ao próximo que se tornou o mantra da série desde a chegada de Morgan na temporada anterior. E, como já tive oportunidade de afirmar antes e repito aqui para dissipar eventuais dúvidas, a questão não é o conceito em si, pois ele é nobre e pode funcionar; o problema reside mesmo é no quanto isso é didaticamente repetido mais de uma vez a cada novo episódio. É desnecessário e irritante, além de ser uma péssima técnica narrativa, aqui tornando-se mesmo uma muleta para dar a impressão de algo maior, mas que, na verdade, apenas tenta disfarçar um vazio enorme desde a metade da última temporada.

Como se isso não bastasse, quando fica evidente que o documentário é mesmo uma peça publicitária para provar que Morgan e seu grupo são salvadores da pátria, comecei a pensar na mecânica da coisa. Para que um documentário audiovisual de 40 minutos fosse divulgado com algum escala aceitável em um mundo pós-apocalíptico, imaginando que algum pobre coitado fugindo de monstros pararia para assistir algo tão longo, claro, a infra-estrutura necessária seria impensável: no mínimo uma televisão, um aparelho VHS (novamente, onde achar isso?) e um gerador para fazer tudo funcionar. Dito e feito, é isso mesmo que vemos ao final, o que só não fica mais ridículo porque o “espectador” arromba a porta do gerado para furtar aquilo que realmente é o mais importante nessa equação: a gasolina. Parece até que Morgan e seus amigos nunca assistiram Mad Max

E a cereja nesse bolo mixuruca é a “volta” de Logan ao final. Confesso que não tenho muito a dizer sobre ele no momento a não ser que ele e sua equipe parecem ser mais desinteressantes que a velha louca do final da temporada anterior. Esse vilão de meia-tigela terá que comer muito – MAS MUITO – feijão com arroz para chegar ao ponto em que ele poderá ser levado em consideração como uma ameaça realmente assustadora e perigosa. Será que FTWD pecará mais uma vez nesse quesito e entregará algo tão sem graça quanto esse vilão genérico?

Channel 4 tem seu valor estético e por lidar com um “caso” que é realmente interessante por causa de sua bizarrice. Mas o episódio peca por bater na mesma tecla cansada anterior e por deixar de apresentar de maneira realmente eficiente aquele que parece ser o vilão dessa segunda metade. Uma pena.

Fear the Walking Dead – 5X09: Channel 4 (EUA, 11 de agosto de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Dan Liu
Roteiro: David Johnson
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Matt Frewer, Austin Amelio, Sydney Lemmon, Colby Hollman, Karen David
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.