Crítica | Fear the Walking Dead – 5X10: 210 Words Per Minute

  • Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

Fear the Walking Dead tem provado que funciona melhor quando oferece histórias humanas protagonizadas por duplas de personagens. Foi assim com John e June em Laura; Dwight e John em Humbug’s Gulch e Althea e Isabelle em The End of Everything e, agora, ainda que não com a mesma qualidade anterior, Morgan e Grace. 

Até a premissa do episódio funciona bem, já que é um bom uso da temática do “bom samaritano” que perpassa toda a temporada. No lugar dos insuportáveis discursos de auto-ajuda, temos uma eficiente desculpa para vermos a ideia materializar-se em ação. Um homem que viu a fita publicitária de Al entra em contato com o grupo dizendo que está morrendo e que gostaria de ser enterrado debaixo das estrelas. Poético e até um pouquinho brega, mas que soa bem e se encaixa harmoniosamente na lição que os showrunners desejam tão desesperadamente passar.

Com isso, Morgan e Grace têm os holofotes em sua missão por um shopping center que, milagrosamente, ainda não fora saqueado, talvez porque esteja repleto de zumbis. E há um motivo maior ainda que volta (ainda bem!) à história da primeira metade da temporada relacionada com o possível envenenamento de Grace por radiação. Aprendemos que ela vive todos os dias na apreensão de descobrir que está com câncer ao ponto de escutar audiolivros em velocidade dobrada, justificando o título do episódio, já que, assim, é garantia que ela consegue acabá-los em um dia (a não ser que seja um daqueles calhamaços, claro). 

Há um tom melancólico interessante que nos pergunta algo como se, em um apocalipse zumbi, uma doença terminal tem o mesmo significado do que em nosso mundo. Grace vive ansiosa e o shopping tem uma clínica médica onde ela espera fazer exames para descobrir o que ela tem certeza que tem. E, com isso, a missão samaritana torna-se, também, uma missão de cunho pessoal que catalisa a aproximação dos dois personagens que fazem de tudo para se manterem longe de todos.

As mortes da esposa e filho que assombram Morgan são abordadas nesse contexto e a conexão ganha contornos naturais, ainda que, aqui nesse episódio, ela seja pouco explorada. Creio, porém, que teremos mais do assunto adiante, mesmo considerando o final com Morgan afastando-se em meio a lágrimas.

O que realmente não funciona integralmente em 210 Words Per Minute é a ação dentro do shopping. Isso vem acontecendo há muito tempo na série, pelo que talvez seja hora de abordar aqui na crítica: os showrunners não têm conseguido trabalhar suspense e tensão sem artificializar situações. Não tem direção que resolva isso, por melhor que ela seja.

Vejam, por exemplo, o momento em que Grace, agindo da maneira mais imbecil possível, desvia-se de seu caminho para matar um zumbi que acha ser a pessoa que os chamou ali. É um momento que não só passa longe de ser crível tamanho é o nível de burrice (custava chamar Morgan pelo menos?), como também é completamente desnecessário, pois toda a construção narrativa já havia ditado que não aconteceria nada do gênero com nenhum dos dois, pelo menos não tão cedo no episódio. Ou seja, ameaça inexistente. Tensão inexistente. 

Mas se fosse só uma questão de burrice, até dava para deixar passar. Mas os showrunners e roteiristas partem para a completa sandice com a inexplicável cena em que a dupla fica esperando na loja de suplementos alimentares até as vitrines começarem a rachar e, em seguida, fazem Morgan protagonizar o maior momento WTF da temporada quando ele desliga a luz de seu capacete e pede para Grace fazer o mesmo para que ele enfrente sozinho os desmortos em um corredor escuro. Para que isso? Para nós rirmos? Para revirarmos os olhos? É uma sequência tão inacreditável que ela ameaçou fortemente fazer todo o episódio ruir sob seu peso. E ainda tem a “batalha” na escada rolante como a cereja nesse bolo…

FTWD, assim como a série-mãe, já passou em muito da “fase” em que o que importa é matar zumbis de maneiras originais. Isso, aliás, nunca foi o objetivo dessas duas séries. Temos Z Nation ou Black Summer para isso. Portanto, quando o roteiro descamba para esses artifícios bobalhões, ele nos retira da história, tornando-nos auto-consciente da situação, o que atrapalha a imersão. 

Finalmente, a subtrama de Dwight dando uma de valentão de bom coração lá com um dos minions de Logan não é também um primor narrativo. Temos, aqui, a típica história que serve de prelúdio para algo que acontecerá mais para o final, com o minion revelando-se como um bom samaritano e salvando todo mundo no último segundo. Será uma bem-vinda surpresa se os showrunners perverterem essa expectativa lá para a frente.

210 Words Per Minute poderia ter sido, sem muito esforço, um baita episódio, daqueles realmente memoráveis. Do jeito que ele foi trabalhado, porém, conseguiu ficar apenas acima do mediano, quase, por muito pouco, chegando a “bom”. É uma pena, pois a temporada já está avançada e ela, infelizmente, ainda não encontrou seu caminho.

Fear the Walking Dead – 5X10: 210 Words Per Minute (EUA, 18 de agosto de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Ron Underwood
Roteiro: Ian Goldberg, Andrew Chambliss
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Matt Frewer, Austin Amelio, Sydney Lemmon, Karen David
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.