Crítica | Fear the Walking Dead – 5X11: You’re Still Here

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Indiferença. Profunda, cansada, irremediável indiferença.

Foi a única coisa que consegui sentir quando os créditos de You’re Still Here começaram a rolar. Tenho até dificuldade de escrever uma crítica sobre o que assisti que seja maior do que um parágrafo curto, mas farei todo o esforço possível. E digo isso não porque o episódio foi ruim. Nada disso. Também não foi bom, podem ter certeza. Ele foi “nhé…”, assim mesmo, com três pontinhos ao final dessa interjeição (que nem sei se é interjeição…), o que me fez imediatamente engatar na conferência do episódio de outra série logo em seguida para eu não ficar com uma sensação de vazio audiovisual, como se não tivesse assistindo a nada que pulsasse.

Na trama, Alicia está sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático depois de seu encontro com centenas de zumbis em Still Standing, o que a torna ainda mais inútil do que Morgan já que ela se recusa a matar até mesmo os mortos. No entanto, esse elemento introduz uma temática interessante que, até onde me consta, nunca havia sido abordada em uma série de zumbis. Acontece que, no lugar de realmente mergulhar no lado psicológico da coisa, os roteiros transformaram a personagem em um zero à esquerda que passou a se interessar por frases misteriosamente pintadas em árvores, frases essas que surgiram convenientemente do nada e que levantaram suspeitas pela internetosfera de que seria um sinal de que Madison, sua mãe, estava viva. Nunca entendi a lógica dessa teoria (Madison jamais escreveria mensagens poéticas em árvores…) e ainda bem que ela foi desbancada aqui, por mais que eu realmente queira que a matriarca volte.

Seja como for, Wes (Colby Hollman), que teve sua bela motocicleta com sidecar maldosamente perfurada pelos minions de Logan em Channel 4, reaparece aqui pedindo ajuda para os bons samaritanos. Alicia e Strand respondem ao chamado somente para serem ludibriados sobre a verdadeira intenção do jovem. Dizendo que queria voltar para onde o irmão estava, ele, na verdade, desejava recuperar um manuscrito de um sujeito que o roubara dele em uma subtrama dolorosa de tão sem sal que é, mesmo que o roteiro de Mallory Westfall e Alex Delyle tente fazer algum esforço para criar um significado maior. Entre cercos sem graça de desmortos, a entrada de Morgan e Al na história – com o drama da esposa e filho de Morgan voltando também – e um encontro anticlimático com Logan, o episódio não entrega nem ação, nem filosofia. A não ser que filosofia de botequim tenha algum valor (e não tem, vou logo dizendo) para além de alguns segundos de “ohhhh” e “ahhhh” sob efeito daquela cachacinha bacana.

No final das contas, tudo o que Alicia precisava para voltar a esfaquear zumbis era descobrir o autor das mensagens nas árvores – que, surpresa, surpresa, é o próprio Wes! – e transformar-se, ela própria, em uma hippie pintora de árvores (ok, o hippie foi por minha conta, mas não resisti). Deve haver algum significado mais profundo aí nessa brincadeira, mas o episódio foi construído de tal maneira que fiquei – e estou ainda – com preguiça de pensar. Uma coisa, porém, tenho certeza: é uma bobagem qualquer que seria dita por um amigo bêbado no tal botequim onde se fala muita filosofia.

De diferente mesmo, tivemos o cofre onde Al guarda suas tão preciosas fitas, os objetos mais importantes da série desde que os novos showrunners entraram. Fico muito curioso para saber até onde esse artifício narrativo vai, já que de projeto pessoal, as gravações passaram a ser confessionário, depois propaganda da Cruz Vermelha de Morgan e, agora, como trabalho de detetive para Logan e companhia descobrirem onde está o tão cobiçado combustível. Ah, outra coisa foi pela primeira vez mencionada com todo o ar de mistério possível aqui: Logan tem um plano maior. O que é, não faço ideia, mas gostaria muito que tivesse alguma conexão com a organização secreta de Isabelle como vimos no excelente The End of Everything (mais conhecido como o único episódio dessa temporada que merece esse adjetivo). Entretanto, tenho para mim que não haverá ligação alguma, o que terminaria de enterrar qualquer valor para esse inimigo tão apagado dessa temporada. Seja como for, teremos que esperar para ver.

You’re Still Here é sem graça e incapaz de despertar a curiosidade do espectador por mais do que alguns segundos esparsos aqui e ali. Nossa, acho até que escrevi demais, mas, mesmo assim, o sentimento de indiferença continua sendo o dominante.

Fear the Walking Dead – 5X11: You’re Still Here (EUA, 25 de agosto de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: K.C. Colwell
Roteiro: Mallory Westfall, Alex Delyle
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Matt Frewer, Austin Amelio, Sydney Lemmon, Colby Hollman, Karen David
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.