Crítica | Fear the Walking Dead – 5X12: Ner Tamid

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Pode ser que a “nova” Fear the Walking Dead, depois que Andrew Chambliss e Ian Goldberg tornaram-se os showrunners da série, esteja querendo fazer algo diferente, ousado, fugindo da estrutura de vilão da temporada para só tratar do cotidiano de sobreviventes em meio ao apocalipse zumbi. Não seria inimaginável algo assim pelo simples fato de que não temos nada do gênero desde a metade da temporada anterior, mas já está na hora da produção perceber que essa tentativa de fazer algo fora da curva não está dando certo. Nem de longe, eu diria.

Afinal de contas, quando um episódio tem como seu ponto alto uma sequência que lembra uma partida particularmente lenta de Mario Bros., com June e John usando uma escada para navegar por uma área infestada de desmortos, fica evidente que há algo muito errado. E olha que eu gosto muito do casal, basicamente a melhor dupla que a série tem no momento. Mas eles não podem fazer milagre com o material que Chambliss e Goldberg, roteiristas do capítulo, entregam para eles trabalharem.

Pior ainda, a subutilização de Peter Jacobson como um rabino carregando o peso de um passado sombrio é quase criminosa. O ótimo ator, introduzido aqui, parece completamente deslocado na estrutura narrativa e não tem muito mais o que fazer a não ser repetir, mudando apenas a religião, basicamente a mesmíssima história do padre Gabriel em The Walking Dead. Se, na série-mãe, Gabriel trancou-se em sua igreja deixando sua congregação para morrer do lado de fora, em Ner Tamid o rabino Jacob Kessner perdeu a fé e abandonou seu rebanho dentro da sinagoga, com o mesmo resultado. Confesso que, diante de tamanha semelhança, fiquei pensando se essa história pregressa não poderia ser uma espécie de homenagem ou auto-referência ao universo das séries, mas tenho para mim que, mesmo que tenha sido, a forma como tudo foi tratado, de maneira simplória e como se não fosse mais do que outro dia normal na vida de todos ali, retirou todo o impacto do que é revelado e qualquer paralelo com o drama de Gabriel caiu por terra completamente.

E isso sem falar em Charlie. As únicas duas funções dessa menina foram desiludir Madison e matar Nick. Depois que ela cumpriu essas tarefas, se ela tivesse andado em linha reta em direção ao por-do-sol e nunca mais sequer fosse mencionada pelos demais personagens, ninguém sentiria sua falta. Eu sei que eu não sentiria… Seu uso no episódio não faz nem muito sentido se pararmos para pensar, já que ela parece estar há dias longe do grupo, mas, na verdade, não se passou tanto tempo assim já que há contagem de pessoas todas as vezes que o acampamento é levantado, o que ocorre diariamente pelo visto.

O que o roteiro fez foi o que tem feito com diversos personagens ao longo dessa temporada: um uso efêmero com o objetivo específico de fazer a história pegar no tranco. E, usando essa estratégia, o que os showrunners estão conseguindo é nos dar uma temporada que é feita de historietas estanques costuradas pela presença maligna (que, confesso, nem sei se é tão maligna assim) de Logan atrás de seu tão precioso combustível para algum objetivo ainda misterioso e que, pelo andar da carruagem, será revelado só no final e desapontará todo mundo (mas espero muito estar enganado, que fique claro). Falta cola narrativa e isso tem sido frustrante.

Pelo menos a direção hábil de Michael E. Satrazemis conseguiu trazer algum nível de tensão ao já mencionado “momento Mario Bros.”, trabalhando bem o posicionamento das câmeras e os cortes, ainda que fosse muito claro pelo tipo de história sendo contada que as chances de June ou John saírem sequer com um galo na cabeça eram mínimas. É quase como se os personagens estivessem sendo economizados para algo grandioso lá na frente, depois que o plano de Logan for revelado e nossas vidas mudarem completamente…

Faltando apenas quatro episódios para acabar, a quinta temporada de Fear the Walking Dead ainda não disse a que veio, a não ser que o objetivo seja afastar espectadores. A falta de uma oposição clara aos nossos heróis casado com um desenvolvimento literalmente episódico, desconexo, e uma completa ausência de objetivo, tem deixado a série à deriva, perdida em elucubrações filosóficas que não levam a lugar algum a não ser à irritação ou à indiferença.

Fear the Walking Dead – 5X12: Ner Tamid (EUA, 1º de setembro de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Matt Frewer, Austin Amelio, Sydney Lemmon, Colby Hollman, Peter Jacobson
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.