Crítica | Fear the Walking Dead – 5X14: Today and Tomorrow

  • Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

Chega um ponto em uma temporada que é quase que integralmente decepção atrás de decepção que fica difícil apreciar até mesmo episódios que, como Today and Tomorrow, se esforçam para ser algo mais. Não que o roteiro de Richard Naing e David Johnson seja verdadeiramente bem-sucedido na empreitada (longe disso!), mas ele pelo menos traz um vislumbre do que poderia ser, não fosse o peso negativo do que veio antes ficar como aquela nuvem negra chuvosa que paira por sobre a cabeça de personagens de desenhos animados e que faz esvair a paciência do espectador.

Como tem sido a marca da temporada, episódios de grupo não existem mais. O tamanho do elenco tem forçado a produção a quebrar a narrativa em pequenos núcleos que, usando a desculpa da estratégia do bom samaritano, estão fisicamente longe uns dos outros, permitindo, de um lado, histórias quase estanques, o que pode ser bom, mas, de outro, tirando aquela impressão de conjunto, de se contar apenas uma história. Aqui, o foco fica em duas duplas separadas: Morgan e Al de um lado e Daniel e Grace de outro, comunicando-se apenas por rádio e ignorantes do que aconteceu em Leave What You Don’t, já que eles estão além do alcance dos demais.

De um lado, Morgan e Al encontram mais um sobrevivente que furta gasolina deles para desesperadamente fugir do mesmo grupo de cowboys que vimos no episódio anterior. Quando ele diz que sua irmã ficou no condomínio em que eles moravam depois que o grupo aparentemente vilão invadiu o local oferecendo ajuda, Al, também achando que seria sua chance de reencontrar-se com Isabelle (introduzida no sensacional The End of Everything), fica afobada para a missão de resgate. E é no detalhe que a coisa começa a desmoronar. Mesmo que a missão em si seja nobre e que sua execução consiga de fato criar algum grau de tensão graças à boa direção de Sydney Freeland e a fotografia noturna que sempre foi de alta qualidade na série, quando começamos a pensar no quão idiota é invadir um local cheio de gente armada até os dentes cujas intenções são desconhecidas sem um plano minimamente decente (porque entrar pelo portão principal é imbecil demais para o meu gosto). E isso sem nem eles saberem quantos são, se há outros vigiando o perímetro e assim por diante.

Entendo a excitação de Al em matar dois coelhos com uma cajadada só, mas custava mais cuidado na preparação da infiltração? E, mais ainda, custava usar o episódio para revelar um pouco mais do plano macro de Virginia e seus minions que, no final das contas, não têm relação alguma com o misterioso grupo de Isabelle? Certamente as filmagens de Al serão úteis mais para a frente, mas em uma temporada que parece estar à deriva, era importante que algum senso de perigo fora os zumbis de sempre nos fosse apresentado. Do jeito que está, Virginia parece a versão 2.0 de Logan que, por sua vez, tinha o mesmo grau de ameaça da velha louca da segunda metade da temporada anterior. Já disse isso mil vezes, mas vou repetir: a mensagem do “ajude os outros” que os showrunners resolveram usar como força motriz da temporada tem sido tão proeminente que até a introdução de vilões propriamente ditos tem sido deixado de lado, como se a série pudesse viver na base da “rotina de sobreviventes em um apocalipse zumbi”.

Do lado de Daniel e Grace, havia uma história bonitinha ali, algo relacionado com música, gatos e fim iminente, mas nem mesmo Rubén Blades, que tem sido completamente desperdiçado na temporada e a simpatia de Karen David são capazes de tirar leite de pedra de uma situação daquelas, pelo menos não da forma como tudo foi construído, como se os dois estivessem vivendo algumas horas de conto de fadas em um mundo idílico, sem maiores problemas. Mas, mesmo assim, vê-se o esforço para se fazer algo interessante, que poderia levar a algum lugar, se, no final, a mão pesada não se abatesse no episódio com a realização, por Morgan, de que ele não precisa viver no passado e o envenenamento por radiação em Grace não viesse do nada exatamente na mesma hora, exatamente como todo roteiro de filme ruim faz achando que está abafando.

A essa altura do campeonato, faltando apenas dois episódios para a temporada acabar, não temos vilões bem definidos, um propósito maior para os mocinhos que não seja vagar a esmo deixando caixas de suprimentos e vídeos de suas boas ações por todo o canto e uma mínima sensação de conjunto. Fear the Walking Dead parece literalmente ter medo de comprometer-se, de recriar uma identidade, de mostra que não é só uma série cansada e cansativa que só gera decepção atrás de decepção, especialmente quando parece, como aqui, que vai entregar algo um pouquinho melhor do que o meramente mediano.

Fear the Walking Dead – 5X14: Today and Tomorrow (EUA, 15 de setembro de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Sydney Freeland
Roteiro: Richard Naing, David Johnson
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Austin Amelio, Sydney Lemmon, Colby Hollman, Peter Jacobson, Colby Minifie
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.