Crítica | Fear the Walking Dead – 5X15: Channel 5

No espírito de Charles Darwin, o Darwin Awards comemora os indíviduos que protegem nosso pool genético ao fazerem o sacrifício máximo com suas vidas. Os ganhadores dos Darwin Awards se eliminam de maneira extraordinariamente idiota, melhorando, assim, as chances de sobrevivência a longo prazo de nossa espécie.
– darwinawards.com (tradução do crítico)

  • Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

Quando Channel 5 acabou, não resisti e abri um sorriso. Mas foi pela pior razão possível para uma temporada de série de TV: fiquei genuinamente feliz não pela qualidade do episódio, mas sim porque percebi que só faltava mais um episódio para o suplício acabar. E olha que eu já fiz críticas de verdadeiros horrores televisivos, como Arrow e coisas do gênero. Fear the Walking Dead, porém, está mais difícil de engolir porque o potencial para algo bom permanece constantemente presente, como em The Romanoffs, mas ele nunca é realizado, ao passo que a série do Arqueiro Verde, só para ficar no exemplo inicial, nunca teve a intenção de ser mais do que a completa bobagem que é. Mesmo que End of the Line, o último episódio, seja a Mona Lisa dos episódios das séries de zumbi, não terá valido a pena acompanhar a temporada. A única exceção é se os chatos de galocha de plantão, a começar por Morgan, sejam todos mortos, de preferência da maneira mais horrível e sanguinolenta possível.

Como isso não acontecerá, Channel 5 torna-se, assim como Today and Tomorrow, bem representativo do que foi a temporada até agora: tem coisas boas, mas elas são soterradas (1) pelo discurso simplista que Andrew Chambliss e Ian Goldberg resolveram transformar em bandeira ideológica inamovível; (2) pela mais completa ausência de um conflito genuíno que nos faça sentir alguma coisa que não seja a mais completa apatia e indiferença e (3) por momentos tão incrivelmente burros que mais parece que o que assistimos é uma paródia à la Z Nation e não algo que, na origem, pelo menos tentava levar-se a sério. O episódio retorna à estrutura de “documentário” que vimos em Channel 4, mas, agora, com uma inadvertidamente hilária roupagem de concorrência publicitária, com Althea e companhia fazendo um filme para provar que os serviços de “bom samaritano” que eles oferecem são melhores do que o de Virginia e seu grupo de cowboys que também fizeram uso de documentário para espalhar a palavra. Em outras palavras, Fear the Walking Dead tornou-se uma “visionária” série sobre marketing em tempos de apocalipse zumbi. Prevejo, na próxima temporada, a contratação de Jon Hamm como o Don Draper desse universo para lidar com as crescentes demandas publicitárias de outros grupo de ajuda que se multiplicarão como uma linda epidemia de bondade, esperança e afagos, com direito a planos sequência bucólicos cheios de arco-íris, unicórnios e coelhinhos brancos…

Mas, como eu disse, apesar dos pesares, havia uma boa história ali em algum lugar. O problema é que o grupo é imenso e disperso, com o roteiro de Michael Alaimo e Samir Mehta não conseguindo dar atenção a ninguém e preferindo colocar algumas curtas frases para serem faladas por todo o elenco principal para dar alguma impressão de conjunto, algo que há muito tempo não tínhamos na temporada, mas cujo resultado, aqui, é artificial e, sobretudo, repetitivo. Não é possível que os showrunners não tenham percebido que essa cantilena de ajuda ao próximo na base do custe o que custar simplesmente não está funcionando mais, se é que  um dia chegou a funcionar. E olha que nem sequer estou falando do drama de Grace, pois o atalho tomado para que Morgan e outros procurassem soro para ela não é nem de longe a razão da morte de Tom. Aliás, nem mesmo Virginia é culpada pela morte do sujeito.

O culpado, obviamente, é o próprio personagem que mais parece um daqueles blogueiros idiotas que fazem todo o tipo de besteira perigosa para conseguir aquela foto, aquela filmagem para poder postar em redes sociais, volta e meia sendo atravessados por chifres de rinoceronte ou caindo de precipícios. Ao contrário de qualquer consideração sobre culpa de terceiros, Tom merece o primeiro lugar do Darwin Awards. Já foi tarde, Tom.

Aos que acharem que estou sendo pouco técnico e sarcástico demais em uma análise crítica, lembrem-se que esta é a 15ª crítica só dessa temporada. O que de positivo e cinematograficamente técnico eu tinha para escrever, eu já escrevi. Fear the Walking Dead já passou, há muito tempo, da linha divisória que marcam as séries que são apenas cambaleantes em sua proposta, mostrando-se um verdadeiro desastre narrativo que, por incrível que pareça, não aconteceu somente com a chegada de Morgan, pois sempre teremos a segunda temporada como prova cabal de que desde o começo a produção não tinha lá uma ideia sólida do que fazer com um spin-off desses. Portanto, perdoem-me pela acidez e pela inclemência, mas já deu.

O que eu quero é que semana que vem chegue logo para que minha odisseia crítica acabe de uma vez. Se eu encerrei o episódio com um sorriso no rosto, encerro a presente crítica com um profundo sentimento de decepção pelo que os showrunners vem fazendo com essa série que, um dia, lá na terceira temporada, mostrou o que podia se tornar.

Fear the Walking Dead – 5X15: Channel 5 (EUA, 22 de setembro de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: David Barrett
Roteiro: Michael Alaimo, Samir Mehta
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Austin Amelio, Sydney Lemmon, Colby Hollman, Peter Jacobson, Colby Minifie
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.