Crítica | Fear the Walking Dead – 5X16: End of the Line

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Ao longo das últimas críticas, alguns leitores comentaram que já estava na hora de Morgan morrer, que ele estava chato demais e assim por diante. Em resposta, disse que só isso mesmo poderia redimir a temporada, mas que achava muito pouco provável que acontecesse, algo que cheguei até mesmo a incorporar no primeiro parágrafo de meus comentários sobre Channel 5, ainda que lá meu descontentamento estivesse tão grande que eu desejei logo a morte do elenco todo. Ironicamente, portanto, vem End of the Line para encerrar a temporada tendo como clímax justamente a “morte” de Morgan e com a temporada entregando seu segundo melhor episódio ou, mais precisamente, já que “melhor” em uma temporada de episódios ruins não é lá muita coisa, um episódio realmente bom, quase no mesmo nível do espetacular The End of Everything.

A razão para eu não dar uma nota ainda mais alta, talvez até mesmo a máxima seja algo que não é culpa do episódio em si, mas, como uma crítica de episódio de série precisa levar em consideração o que veio antes, até porque, nesse caso, ele é o último da temporada, não tive alternativa. É que a história que levou o grupo de Morgan a pedir ajuda para o exército de Virginia é, na falta de um adjetivo mais educado, completamente imbecil. Afinal, considerando tudo o que esse pessoal já passou – especialmente Morgan!!! – não era minimamente razoável que, diante de uma cidade fictícia de faroeste tomada de zumbis e que eles consideravam como sua Terra Prometida, eles imediatamente desistissem de tudo e chamassem Virigina pelo rádio. Foi uma escolha narrativa absolutamente patética que fere de morte até mesmo a lógica interna da já fraca temporada, em que eles se recusaram, reiteradas vezes, a dobra-se perante os métodos da cowgirl vilanesca, mesmo considerando as condições precárias e, convenhamos, bem forçadas, do grupo.

Portanto, é o que leva a End of the Line que impede que o episódio alcance todo o seu potencial, já que ele em si é muito bem executado, trabalhando não só bons momentos de tensão, como alguns outros emocionantes de verdade, incluindo o já mencionado clímax em que Virginia decide matar Morgan por ele ser o líder do grupo que ela acaba absorvendo e, portanto, potencial ameaça à organização dela. É como se Andrew Chambliss e Ian Goldberg, que escrevem esse capítulo, tivessem acordado de seu torpor como showrunners e finalmente trabalhado em algo relevante e com potencial, extirpando as lenga-lengas chatíssimas dos discursos de Morgan e a mais completa falta de antagonismo efetivo que deixaram a temporada à deriva.

End of the Line prova que não é preciso muito para fazer uma boa história passada no apocalipse zumbi. O retrabalho de conceitos já usados e até de clichês é suficiente quando o roteiro é bem azeitado e a direção sabe fazer proveito disso, como é exatamente o caso aqui. Para começar, o uso de Dwight como aquele que traz a esperança de volta ao grupo foi uma escolha inspirada por não só dar mais importância a um personagem muito interessante que soube migrar bem da vilania para a boamocice, como também por fazê-lo encontrar sua redenção final quando retorna aos amigos com os cavalos que, em uma simples, mas eficiente sequência de tensão, encontrara em seu caminho de fuga, de revolta com o que ele viu como sendo a desistência de Morgan. Seu retorno leva ao que já deveria ter sido feito no episódio anterior: um plano para arrebanhar os desmortos e afastá-los de Humbug’s Gulch, algo que, de maneiras diferentes, já foi feito diversas vezes ao longo das duas séries do kirkmanverso. Essa estratégia, ato contínuo, nos leva a outros bons momentos que colocam o próprio Dwight em outra sequência tensa em que, perdendo o controle de seu cavalo, ele quase vira refeição de mortos-vivos e acaba, com isso, estragando a “arma” que seria usada contra Virginia.

Voltando à cidadezinha, agora vazia, temos um belo – e que muitos acharão piegas, desconfio – momento em que finalmente vemos o casamento de John com June, sem dúvida os dois melhores novos personagens da série, com direito à Igreja, padre (ou melhor, rabino), fundo musical ao vivo graças a Charlie, Daniel e Grace, alianças e figurinos para acompanhar. Foi a necessária e bem-vinda calma antes da tempestade que parece encerrar um ciclo nessa série, já que o grupo é salvo, mas separado por Virginia, o que provavelmente levará a uma temporada de reconstrução ano que vem. Isso somado à gravidez surpresa de Grace e o “assassinato” de Morgan pode resultar em algo bom se os showrunners pararem com sua panfletagem da parábola do bom samaritano e entrarem no espírito que a série chegou a ter em sua memorável terceira temporada. Como diria o sábio, menos papo, mais tiro só para deixar bem claro o que quero dizer.

Sobre Morgan, é claro que ele não morreu e não morrerá. As aspas que usei duas vezes acima ao me referir a ele são auto-explicativas, mas espero que não aconteça, na próxima temporada, o que aconteceu com Glenn na sexta temporada de The Walking Dead. Em outras palavras, nada de criar mistério sobre Morgan, nada de tentar surpreender todo mundo com um retorno vários episódios para a frente. Ele pode até não voltar ao grupo rapidamente, mas nós, espectadores, não precisamos de mais uma bobagem dessas. Seja como for, porém, a sequência em que Viriginia e Morgan se enfrentam foi muito bem executada com a fotografia noturna que é marca registrada dos melhores momentos de Michael E. Satrazemis. Sem que muitas palavras sejam ditas, fica evidente a razão pela qual ela tenta matá-lo assim como o porquê de ela, depois, hesitar. E, pela primeira vez em muito tempo, as habilidades ninja de Morgan são bem utilizadas, mesmo que vareta X revólver não seja lá um duelo muito fácil de se fazer sem que o empunhador da vareta seja massacrado. A grande verdade, porém, é que, aqui, a coisa funcionou como mágica, por alguns segundos me fazendo esquecer que já tinha cansado de Morgan (e veja, eu gostava dele no começo) e, por consequência torcer por ele. Mais uma prova de que não é preciso muito para fazer um episódio de FTWD funcionar.

Obviamente que, por melhor que seja, End of the Line não redime a quinta temporada da série. Nem de longe, na verdade. Mas o episódio conseguiu não só ser muito eficiente como final de ano, como também em reacender a chama da curiosidade pelo destino imediato dos personagens. Sei que provavelmente me arrependerei, mas, agora, tenho uma razão para encarar a próxima temporada com algum esperança de que os showrunners demonstrarão que sabem o que estão fazendo.

Fear the Walking Dead – 5X16: End of the Line (EUA, 29 de setembro de 2019)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Alexa Nisenson, Jenna Elfman, Rubén Blades, Austin Amelio, Sydney Lemmon, Colby Hollman, Peter Jacobson, Colby Minifie
Duração: 51 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.