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Crítica | Fear the Walking Dead – 6X02: Welcome to the Club

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas de todos os episódios da série e, aqui, de todo nosso material do universo The Walking Dead.

Estreia de ninguém menos do que o próprio Lennie James na direção, Welcome to the Club é um episódio de Fear the Walking Dead que empacota um número surpreendente de reviravoltas em meros 44 minutos, mas que tem como pano de fundo a boa e velha discussão sobre a moralidade, especialmente a moralidade em situações extremas que, se pararmos para pensar em retrospecto, é a base para todo e qualquer filme ou série de premissa pós-apocalíptica que minimamente se preze. É a eterna pergunta sobre o que faríamos em determinada situação limite.

No capítulo, que abandona o novo e potencialmente (espera-se!) mortal Morgan quase que completamente e revela o destino de alguns dos outros personagens do núcleo central. Aprendemos que Strand e Alicia estão trabalhando juntos no “saneamento básico” da cidade em construção comandada por Virginia, que Daniel aparentemente perdeu a memória e, agora, é um mero cabeleireiro e Charlie e Janis estão em uma espécie de campo de concentração. Depois de um entrevero entre Strand e um dos pistoleiros, a dupla é enviada para limpar um armazém cheio de zumbis sob a premissa de que Virginia deseja o que está lá dentro e é partir daí que a história engrena.

Mas engrena na base do estranhamento. Se o preâmbulo cria uma mítica ao redor do tal armazém, o espectador não tem outra opção que não coçar a cabeça sobre como é que Virginia até hoje não acabou com os desmortos de lá de dentro se ela quer tanto o conteúdo do lugar. Chega a ser bobo, até que a explicação final de que tudo é um estranho e doentio teste sobre liderança torna a coisa um pouco melhor, mas não o suficiente para realmente fazer valer toda a rocambolesca trama para chegarmos a esse ponto.

Como esse é o foco da ação, mas não exatamente da base da narrativa, a atenção dada a Strand, que se debate sobre sua própria moralidade, é interessante, mas poderia ser muito mais se exatamente a mesma questão não tivesse sido abordada em relação ao personagem umas outras 358 vezes ao longo das temporadas anteriores. Afinal, se existe um personagem na série que transita enlouquecidamente de um lado a outro do fio da navalha moral é ele e esse artifício já cansou um pouco, exatamente na mesma linha que o discurso paz e amor de Morgan já havia cansado.

No frigir dos ovos, reduzindo o episódio ao mínimo, a questão que é posada é: esfaquear Sanjay (Satya Nikhil Polisetti) e jogá-lo aos zumbis para salvar seus amigos é um ato justificável? Por duas vezes, o episódio estabelece a covardia mortal do personagem, mas nossa moralidade padrão nos faz correr para responder que é claro que não é justificável. O que Strand fez foi um ato monstruoso. Esse é nosso reflexo. É o que queremos que seja a verdade, porque responder qualquer outra coisa deixa entrever nosso lado sombrio. Welcome to the Club, portanto, nos faz olhar incomodamente para nós mesmos e, em alguns casos, chegar à conclusão que sim, Strand está certo ao fazer o que fez naquelas circunstâncias.

Strand pelo menos tem consciência das implicações do que fez. Ele sempre foi egoísta, sempre pensou primeiro nele e só com muita hesitação fez o que unanimemente consideraríamos o correto. A mera presença de Alicia ali ao seu lado é um lembrete do que ele deveria ser e não é e ele precisa ser que o que ele é novamente para fazer o que precisa. É um dilema bem colocado, mesmo considerando que a situação não é nova para o personagem e mesmo que, para isso, Alicia tenha que ter sido jogada para escanteio quase que completamente no episódio, assim como Charlie (como a atriz cresceu, não?) e Janis que, aqui, são mais figurantes do que Dakota (Zoe Margaret Colletti), irmã de Virginia e a mais recente personagem que não é de uso único a se juntar à série. Pelo menos Colman Domingo fez seu dever de casa dramático e, como quase sempre, encarnou muito bem seu personagem.

No lado de Daniel, minha primeira reação foi ficar enfurecido pelo que achei que tinham feito com o personagem até que o foco intermitente nele começasse a passar a mensagem de que não, que tinha alguma coisa a mais ali. E, de fato, tinha. Fingindo-se de bobo em mais uma esplêndida atuação de Rubén Blades, Daniel está em plena forma e com algum tipo de plano de longo prazo. Só confesso que não entendi como a lógica daquela cena final da carroça puxada à burro funcionou. Ele esperava alguém ou mesmo Morgan, inclusive com um assobio secreto? Ou foi sentido de aranha mesmo?

Aliás, falando em plano, ainda não sei qual é o de Virginia e tenho medo que ele não seja nada relevante. Desde que a personagem apareceu na temporada passada tentando recrutar os sobreviventes para seu time, sua existência não foi ainda muito bem justificada sequer como grande ameaça à la Negan ou algo do gênero. Há mesmo um plano ali ou é só mais uma promessa de paraíso no apocalipse que precisa de mão de obra escrava para funcionar à contento? Espero que haja algo maior do que apenas outra repetição temática no universo The Walking Dead e espero que vejamos efetivamente essa ameaça toda que ela supostamente representa.

Welcome to the Club é um pouco desconjuntado e cauteloso demais em termos de roteiro, mas é uma boa, ainda que não excelente, estreia de James na direção. Presumo que por pelo menos mais uma dupla de episódios aprenderemos o destino dos demais sobreviventes para que, então, a história da temporada possa andar de verdade, isso se a temporada tiver uma história, porque pé atrás com Fear the Walking Dead é a palavra de ordem, não é mesmo?

Fear the Walking Dead – 6X02: Welcome to the Club (EUA, 18 de outubro de 2020)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Lennie James
Roteiro: Nazrin Choudhury
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Austin Amelio, Alexa Nisenson, Rubén Blades, Karen David, Jenna Elfman, Colby Minifie, Demetrius Grosse, Michael Abbott Jr., Holly Curran, Zoe Margaret Colletti, Satya Nikhil Polisetti
Duração: 44 min.

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