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Crítica | Fear the Walking Dead – 6X05: Honey

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas de todos os episódios da série e, aqui, de todo nosso material do universo The Walking Dead.

Confesso que, quando Honey acabou e os créditos começaram a rolar, fiquei com a sensação de ter sido ludibriado, como se Andrew Chambliss e Ian Goldberg tivessem entregue um episódio que eles acharam perdido no fundo de um baú da franquia, sem ter sido utilizado. Afinal, o que o roteiro de Ashley Cardiff faz é o padrão The Walking Dead: a introdução de um novo grupo misterioso que cai de paraquedas com motivações forçadas, que jamais são verdadeiramente sentidas e com um desenrolar repetitivo, cheio de choradeira, que é basicamente o proverbial cachorro correndo atrás rabo, deixando a narrativa principal completamente de lado.

Afinal, reparem na maneira boba como vemos Sherry e Dwight de amorzinho em lugar incerto e não sabido, somente para Sherry misteriosamente desaparecer e misteriosas pessoas mascaradas sequestrem Dwight e, ato contínuo, ele acorde em outro lugar sem saber muito bem o que está acontecendo e desesperadamente pergunte sobre sua esposa. E, surpresa, surpresa, eis que quem desce a escada da piscina vazia é a própria Sherry, também mascarada, revelando que “tudo não passou de um truque”, ou algo assim, e que Al também havia sido capturada. Mas a cereja no bolo é, no momento em que Al será morta ao walkie-talkie, eis que a cena para mais uma vez de forma que outra pessoa mascarada possa ter entrada triunfal, revelando-se como Rollie (Cory Hart), aquele sujeito do grupo de Logan (um dos vários vilões pífios da série) cuja vida Dwight salvara na temporada anterior. Uau, quanta “surpresa” em uma cena só…

Sim, estou até com câimbra nos olhos de tanto eles rolarem enquanto escrevia o parágrafo acima. O roteiro de Cardiff segue o manual de instruções de série de televisão em seu começo, enquanto tudo ainda é novidade, e não uma série derivada já em sua 6ª temporada em que coisas parecidas aconteceram algumas dúzias de vezes antes. E o que segue daí até parece que compensará a falta de originalidade com algum grau razoável de ação, mas tudo o que temos é a sequência – boazinha, mas nada mais do que isso – de recaptura do caminhão da S.W.A.T. de Al, que conta, também, com outra chegada triunfal, desta vez a de Morgan trazendo o motorista amarrado.

A partir desse ponto, a narrativa reverte ao que os críticos mais técnicos classificam como lenga-lenga e outros de blá blá blá, por vezes chororô… É um tal de “eu te amo, mas eu sou assim”, “eu me tornei isso que você está vendo”, “meus traumas do passado são terríveis”, “eu não quero isso para você” e platitudes que giram ao redor disso. Fica logo evidente que razoavelmente do nada, com uma construção restrita aos poucos minutos que o episódio permite, Sherry não é mais a Sherry que Dwight um dia amou. Ela cresceu(?) e amadureceu(?) e, agora, é monocórdia no mantra “quero matar Virginia” sem levar em consideração absolutamente nada, sequer as obviedades de que planos retirados da cartola normalmente não funcionam e que todos os seus amigos dentro das cidades da vilã serão torturados e/ou mortos caso o plano não dê certo como Morgan repete diversas vezes com toda razão. Pior ainda, sequer a existência do grupo de que ela faz parte – e toda a raiva que seus integrantes sentem de Virginia – ganha algum tipo de justificativa boa e coesa, que nos permita dizer algo como “claro, faz todo sentido eles fazerem o que estão fazendo”.

E, ao espectador, fica aquela certeza mais do que certa de que Virginia sequer aparecerá no episódio. Simplesmente não poderia, pois Honey cria uma ameaça inexistente a ela, realmente como uma história separada que por acaso se passa dentro do mesmo universo. Junto com essa certeza, portanto, só resta torcer por algum tipo de desfecho que não seja mais chororô, só que é só chororô que ganhamos, levando à separação de Sherry e Dwight por razões que, mesmo não tendo entendido direito, não fazem o menor sentido lógico. É quase que a aplicação literal e descontextualizada do conceito político, militar e sociológico “dividir para conquistar”, ainda que o certo seria dizer logo que é “dividir porque sim e que se dane”.

Nem mesmo a direção normalmente excelente de Michael E. Satrazemis compensa os problemas de roteiro. Não que o ex-diretor de fotografia, agora diretor e produtor da série não cumpra bem o seu papel, pois ele cumpre, bastando ver a bela sequência da tortura do motorista de Virginia com iluminação aparentemente natural e a tensa (mas não muito) cena climática em que Sherry tem que decidir entre metralhar ou não os bandidos. O problema é que é pouco demais para suprir a bobajada que é o episódio como um todo, praticamente um filler ruim em uma temporada que vinha consistentemente bem, ainda que não maravilhosamente bem. Sim, não tenho dúvida de que os mascarados de Sherry terão suas funções mais para a frente, mas eu só tenho elementos para julgar a aparição atabalhoada deles aqui em Honey.

Alguma hora tinha que acontecer e Honey marca a primeira grande derrapada da 6ª temporada de Fear the Walking Dead ao recauchutar mal e porcamente todo o tipo de clichê cansado da franquia e sequer conseguir desenvolvê-los de maneira minimamente lógica, nem que fosse para transformar o grupo de Sherry em algo relevante. Muito ao contrário, o que temos é mais do mesmo em um episódio imediatamente esquecível e irrelevante…

Fear the Walking Dead – 6X05: Honey (EUA, 08 de novembro de 2020)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Ashley Cardiff
Elenco: Lennie James, Alycia Debnam-Carey, Maggie Grace, Colman Domingo, Danay García, Garret Dillahunt, Austin Amelio, Alexa Nisenson, Rubén Blades, Karen David, Jenna Elfman, Colby Minifie, Demetrius Grosse, Michael Abbott Jr., Zoe Margaret Colletti, Devyn A. Tyler, Christine Evangelista, Peter Jacobson, Cory Hart
Duração: 48 min.

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