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Crítica | Feels Good Man

por Roberto Honorato
241 views (a partir de agosto de 2020)

Para o quadrinista Matt Furie, o sapo Pepe era apenas um personagem engraçado que criou despretensiosamente para seu quadrinho, Boy’s Club. Mas ele não imaginou que sua criação tomaria conta da internet e se transformaria em uma das figuras mais populares entre os usuários do fórum de discussão online 4chan, onde o sapo foi imortalizado em incontáveis memes. Por conta de sua expressão deprimida, traços exagerados e um corpo humano, o famoso sapo serviu como porta-voz para uma geração de jovens que viam no personagem alguém com quem poderiam se identificar. Para a decepção de Furie, Pepe fugiu do controle e começou a ser adotado por pessoas mal intencionadas, indo parar nas mãos de supremacistas brancos, que chegaram ao ponto de usá-lo como símbolo para discursos de ódio, estampando ilustrações e memes sexistas, xenófobos e racistas. 

Tão surpreso quanto Matt Furie ficou ao ver sua criação sair de seu controle, eu não imaginaria que um documentário sobre os memes de um sapo antropomórfico seria tão intrigante. O que poderia ser mais uma produção com um debate indulgente e unilateral acaba exibindo uma linha temporal consistente sobre a criação de uma sensação da internet que logo chegaria a influenciar a geração millennial, mas também impactar o mundo real, até mesmo estar relacionado à tiroteios em escolas e afetar a campanha presidencial de Donald Trump em 2016 (por mais que esta seja uma resolução que tem se tornado cada vez mais recorrente e previsível em outros documentários do gênero, aqui os argumentos possuem um real impacto, por vezes até direto, no que seria a vitória do apresentador da versão original de O Aprendiz). 

Ter o ilustrador Arthur Jones na direção deu um dinamismo necessário ao documentário, com uma edição rápida e animação bem fluída que evitou a rigidez de sequências onde imagens estáticas são apresentadas. Podemos ver o sapo verde nadando e atravessando as caixas de diálogo e janelas abertas durante as inserções de arquivos. Isso não só é uma boa maneira de explorar o formato documental, como também mostra o comprometimento da equipe criativa em deixar a narrativa mais acessível. 

Ainda que tenha seus méritos, também há alguns tropeços. Por conta do dinamismo e narração mais objetiva, o documentário pode passar por alguns assuntos de maneira rasa, deixando pontas soltas em alguns aspectos e entrevistados que poderiam receber mais espaço em tela, mas acabaram abandonados ao longo do caminho. A falta de certas informações apresentadas de forma mais didáticas para o espectador talvez confunda aqueles que não entendem a linguagem dos usuários de fóruns online, por exemplo. O documentário tem consciência desse comprometimento, mas se estes pequenos elementos não forem uma barreira para quem assiste, a narrativa geral é muito bem executada e consegue explorar um cenário de mudanças significativas para a cultura norte-americana. 

Não só de estrutura narrativa vive um documentário, que é tão bom quanto o seu assunto e as personagens, e há figuras peculiares de sobra nessa história. O próprio Matt Furie é um protagonista aparentemente apático, principalmente por sua reação inicial ao sucesso do sapo deprimido, mas ainda assim ele tem uma personalidade um pouco excêntrica,

considerando seu humor e comentários sobre o assunto. Quando as coisas fogem do controle, Furie assume uma postura mais ativa e o que antes já chamava a atenção pelo silêncio, agora chega a desenvolver uma torcida pela sua causa. 

Além dele, o documentário apresenta outros ilustradores, colunistas de grandes jornais, amigos de Furie e até o ator e ocultista John Michael Greer para comentar sobre a forma que a crença em um personagem fictício acabou invadindo a realidade (por mais exagerado que possa soar, é uma das partes mais provocantes do longa), mas são os depoimentos de figuras que ajudaram a distorcer a mensagem original de Pepe que realmente elevam a qualidade dessa obra. 

Arthur Jones procurou pessoas que se denominam apenas como “usuárias do 4chan”, como o patético Mills, um adulto que encontra humor em viver em um quarto bagunçado e ser alimentado pela mãe enquanto irrita pessoas online. Mas as coisas crescem em escala quando assistimos Matt Braynard, um dos diretores da campanha presidencial de Trump, explicar como se uniu aos usuários do 4chan e utilizou o meme de um sapo verde para construir uma base de eleitores. É uma daquelas coisas que você não imagina, ou apenas não quer acreditar. 

Feels Good Man pode parecer comum na superfície, mas acaba sendo um dos documentários mais criativos sobre o cenário atual dos Estados Unidos, e tudo que precisou foi de um sapo antropomórfico chamado Pepe. 

Feels Good Man – EUA, 2020
Direção: Arthur Jones
Roteiro: Giorgio Angelini, Arthur Jones, Aaron Wickenden, Matt Furie
Elenco: Matt Furie, Jeremy Blackburn, John Michael Greer, Emily Heller, Matt Braynard, Marc Randazza, Oren Segal, Adam Serwer
Duração: 92 min.

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