Crítica | Feliz Natal (2005)

No livro Papai Noel – Uma Biografia, de Gerry Bowler, o autor narra que em 1418, o rei Henrique V, ao invadir um território, ordenou que os seus soldados distribuíssem alimentos para os habitantes da localidade, sitiados durante a conflituosa ameaça externa.  Ele conta também que a Guerra Civil Americana ajudou o Natal a ser visto como uma comemoração que simboliza o retorno para o lar. Há, no entanto, alguns acontecimentos que demonstram a falta de vergonha de “alguns” que não se intimidavam com o período natalino e cumpriam adequadamente a sua agenda bélica, caso dos soldados estadunidenses que avançavam pelo rio Delaware enquanto os inimigos descansavam por conta das comemorações do Natal.

Bowler conta que o Papa Gregório VII foi praticamente expulso de Roma em 1078, durante uma invasão alemã, em pleno período de comemorações natalinas. Os germânicos, no entanto, agiram com mais cuidado numa guerra da era moderna, afinal, tal como reza a cartilha das pessoas de bom coração, o Natal é a época da confraternização. Nada de brigas, confusões e desentendimento. Deveria ser assim, mas na prática sabemos que os festejos nem sempre saem de acordo com o planejado. O cinema já nos provou isso por meio de narrativas de quase todos os gêneros. Feliz Natal, o homônimo brasileiro, dirigido por Selton Mello e lançado em 2008, por exemplo, nos apresenta um amargo retrato do período. Já a produção em questão, alemã, veiculada para o público em 2005, não é amarga, ao contrário, oferta ao espectador uma camada de doçura para um período tomado pelo sofrimento e caos: a Primeira Grande Guerra Mundial.

Inspirada em acontecimentos registrados por historiadores da época, a trama de Feliz Natal, escrita e dirigida por Christian Carion é correta e edificante, com alguns deslizes, tais como o ritmo inicial letárgico e a falta de aprofundamento na concepção do design de alguns personagens, planos quando deveriam ser esféricos, haja vista os efeitos dramáticos que se pretende numa narrativa deste quilate.  O filme retrata a trégua entre os soldados escoceses e franceses que tentavam impedir o avanço das tropas alemãs em determinado ponto geográfico do conflituoso continente europeu em dezembro de 1914. É um momento de propagação da paz, além da reflexão em meio ao estabelecimento da atmosfera xenófoba: quem é mesmo o meu inimigo?

Foi um momento de folga para que os envolvidos pudessem desfrutar do sentimento de paz comum ao que pregam as regras natalinas, um paradoxo para quem está mergulhado profundamente no clima de guerra. Ao longo de seus 116 minutos, o filme traz mensagens positivas sobre o contato humano e a necessidade de refletir nossa relação com o “Outro”. A abertura já traz uma excelente problematização, com a montagem promovendo o diálogo entre três crianças em suas respectivas unidades escolares, cada uma a dizer como e por que cultivaram sentimento de ódio em relação ao suposto “inimigo” estrangeiro.

Ao decidir investir mais na história, Christian Carion deixa os personagens em segundo plano, o que quase enfraquece o seu filme. Numa trama assim, esperamos algo além dos soldados a compartilhar com os demais combatentes as saudades de suas esposas por meio da demonstração de fotos guardadas entre os seus materiais pessoais. Outros escrevem cartas para os familiares, a prometer o desejado retorno em breve. Eles até jogam futebol para passar o tempo. Nós, no entanto, ficamos na expectativa de uma abordagem mais profunda psicologicamente, o que não acontece, mas também não estraga o filme em si. É apenas um detalhe do que “poderia ser”, mas “não foi”. Ademais, o design de produção de Jean-Michel Simonet é meticuloso, devidamente captado pela direção de fotografia de Walther Van Den Ende, ambos numa simbiose perfeita, articulada pela montagem com a condução musical adequada de Philippe Rombi.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006, Feliz Natal é um filme de guerra diferente, um filme de natal diferente, em suma, uma produção peculiar e importante, tanto histórico quanto esteticamente. O enredo bem contextualizado traz em seu subtexto as celeumas de um conflito que de acordo com a “história oficial” foi responsável por redesenhar geograficamente o continente europeu, além de ter promovido a perda de uma fatia considerável da população masculina ativa de algumas nações envolvidas. Aquecida graças ao crescimento do cerco promovido pelo imperialismo que tomou a Europa nos primeiros anos do século XX, a Primeira Grande Guerra Mundial tem como estopim o assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, cometido pelo iugoslavo nacionalista Gavrilo Princip, em Saravejo, na Bósnia. É o que nos foi ensinado. Uma guerra que deixou marcas, resquícios para um segundo grande conflito e posturas que em nada dialogam com o sentimento atribuído ao Natal.

Feliz Natal (Joyeux Noel, Alemanha – 2005)
Direção: Christian Carion
Roteiro: Christian Carion
Elenco: Alex Ferns, Benno Fürmann, Daniel Brühl, Dany Boon, Diane Kruger, Gary Lewis, Guillaume Canet, Lucas Belvaux, Natalie Dessay, Rolando Villazón, Steven Robertson
Duração: 116 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.