Crítica | Feliz Natal (2008)

Engraçado como não é muito fácil encontrar filmes brasileiros com a temática natalina. Conforme o nosso panorama histórico, a festa europeia foi importada pelos missionários portugueses e adquiriu por aqui traços peculiares da nossa geografia cultural, tornando-se uma celebração do calendário. Com o advento das mudanças comportamentais, em especial a questão do consumo, oriunda do advento da sociedade industrial, o “esquema” ganhou novas nuances. A carne de peru se tornou a substituição do porco nas casas com ceias abastadas, além dos traços folclóricos afastados do centro das comemorações, conectadas com as práticas estrangeiras de trocas de presentes entre amigos e familiares. Com o cinema, por sua vez, o processo foi diferente.

Diferente do sistema hollywoodiano de produção, o Brasil não possui uma tradição de filmes natalinos. Feliz Natal, dirigido por Selton Mello, também responsável pelo roteiro, escrito em parceria com Marcelo Vindicato é um dos poucos.  Não espere, entretanto, uma trama melodramática e repleta de elementos simbólicos do período, tais como guirlandas, pisca-pisca em excesso e pinheiros decorados. Há alguns elementos entre uma passagem e outra, mas a primeira incursão do ator na direção é uma aula de como dirigir desempenhos dramáticos. Um filme de atuações e diálogos afiados, tendo a estética autoral como algo para segundo plano.

Em Feliz Natal, acompanhamos a trajetória de Caio (Leonardo Medeiros), um homem de 40 anos de idade “deprimido e deprimente”. Com perfil social e psicológico bem construído, algo que também pode ser visto em sua concepção visual, a representação visual cabal da simplicidade que beira ao abandono. O seu retorno na noite de Natal não é nada agradável. A sua mãe, interpretada por Darlene Glória, sente saudades, apresenta postura afetuosa demasiadamente exagerada, mas não pode ser levada muito à sério pelos participantes da festa, pois anda constantemente alcoolizada. O seu pai, o outro elo problemático de seu passado, o rejeita. A interpretação de Lúcio Mauro dá conta de estabelecer esse tom de distanciamento.

O seu irmão Theo (Paulo Guarnieri), bem sucedido financeiramente, responsável por ajudar os familiares em suas mazelas materiais, é casado com uma esposa antipática, interpretada por Graziella Moretto. O casamento em crise é a prova concreta da sobrevivência por meio das aparências. Com sobrinhos mais interessados nos presentes que na presença da união familiar, Caio é o ponto central deste mosaico de pessoas disfuncionais que gravitam em torno de uma família deteriorada por mágoas, ressentimentos e relacionamentos sucateados pela ação do tempo e dos agentes que carregam o fardo de ser parte deste agrupamento de pessoas que tem apenas o laço sanguíneo como referência de pertencimento.

Ao longo dos 100 minutos de produção, Selton Mello demonstra segurança na direção de atores. Ele consegue articular bem os elementos do roteiro e dosar o sarcasmo e a ironia que transbordam destes encontros natalinos revestidos por camadas generosas de sentimentos fabricados, nada genuínos. Lula Carvalho, ganhador do troféu de Melhor Direção de Fotografia no Festival de Cinema de Paulínia em 2008, cumpre bem o seu papel, juntamente com a Direção de Arte de Renata Pinheiro, ambos muito crus, algumas vezes propositalmente incômodos. A condução musical de Plínio Profeta é bastante correta, dando o devido “tom” ao drama.

Com ressonâncias do estilo independente de John Cassavetes e das realizações do brasileiro Luiz Fernando Carvalho, diretor com quem Selton Mello trabalhou em Lavoura Arcaica, Feliz Natal demarca a primeira incursão de Mello na direção, entrada num setor que permaneceu tímida depois de uma década de lançamento, haja vista o foco profissional na dramaturgia em cena, como ator, ao invés de manter o interesse na cadeira de cineasta. Boa escolha de Selton Mello, agente do cinema brasileiro que tem mais a oferecer com seus desempenhos diante de personagens tão díspares, cheios de brilho e vigor. Isso não impede que haja um investimento peremptório entre uma direção e outra, não é mesmo, caro leitor?

Feliz Natal (Brasil, 2008)
Direção: Selton Mello
Roteiro: Marcelo Vindicato, Selton Mello
Elenco: Darlene Glória, Graziella Moretto, Leonardo Medeiros, Lúcio Mauro, Paulo Guarniere
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.