Crítica | Feliz Natal e Tal – 1ª Temporada

O período natalino, como sabemos, é uma época de tensões. A hipocrisia, o consumismo e as tradições nos fazem acreditar que todos estão reunidos exclusivamente guiados por uma energia que emana apenas boas vibrações, mas a realidade e a ficção já demonstraram diversas vezes que geralmente as coisas não caminham por este trajeto, digamos, tão fácil. Feliz Natal e Tal, série criada por Tucker Cowley representam bem tais tensões, mesmo que a mensagem final seja a inexorabilidade da família em nossas vidas. Algo do tipo “ruim com ela, pior sem ela”. Por meio de piadas bem construídas e personagens carismáticos, a produção em oito episódios de em média 26 minutos não traz nada de novo em torno de seu formato, isto é, a estrutura sitcom.

Sob a direção de Pamela Fryman, Phill Lewis, Betsy Thomas, Gloria Calderon Kellet, dentre outros, os episódios foram todos assinados por Tucker Cowley, em sua sala de roteiristas com David Holden, Gracie Glassmeyer, Talia Bernstein, etc. É um grupo de profissionais dedicados na tarefa de dar forma aos membros da Família Quinn, encabeçada por Don (Dennis Quaid), o patriarca que comanda à mão de ferro o período em que os filhos já crescidos e estabelecidos retornam ao lar para comemorar as tradições do final de ano. A sua esposa, já falecida, é citada apenas na memória dos personagens, tida como uma pessoa marcante, bondosa, mas sem ser uma sombra que paira sobre a família como um percalço para a felicidade.

A ausência materna é sentida, mas não potencializada, o que torna a série uma discussão bacana sobre a superação do luto. Os filhos até ficam satisfeitos e torcem pelo relacionamento do pai com a enfermeira Nancy (Garcelle Beauvais), uma mulher que também está em busca do recomeço em sua vida amorosa. A questão é saber se ela ficará encantada com o personagem, um homem que segue o clichê do drama natalino estadunidense, tipo de narrativa que geralmente possui um pai ou mãe durão que ao longo da trama demonstra ser mais maleável do que o público e os personagens que gravitam em torno de sua existência imaginam. Quaid interpreta bem e dá forma ao chato, machista, grosseiro, antipático, mas dedicado pai, avô e sogro, uma pessoa com diversas qualidades por debaixo da camada superficial que o envolve.

Apesar de ser o membro mais conhecido do elenco, torna-se relevante ressaltar que a série não trata exatamente sobre ele, pois o foco central é em seu genro Matt (Brent Morin), adorável e carismático, namorado de Emmy Quinn (Bridgit Mendler), uma das filhas mais bem-sucedidas de Don, garota que partiu para Los Angeles e abdicou de algumas tradições da família. Enquanto ela segue todas as formalidade do que se espera de um jovem no final da casa dos vinte para os trinta anos, Emmy trabalha, possui posição relevante na empresa, enquanto Matt é músico, tratado constantemente como algo pouco maduro e inconstante, algo que obviamente, desagradará o seu sogro exigente, um homem que ainda acredita ser o homem o principal provedor no ambiente familiar.

Assim, a série foca o tempo inteiro na tensão de Matt neste espaço de tensões envolvido por amor, mas também carregado de violência simbólica, temas tratados de maneira humorada, sem interesse em aprofundamentos que podem ser feitos pelo próprio espectador com a obra, bem como pela crítica. Matt é acompanhado constantemente por Joy (Elizabeth Mo) e Todd (Adam Rose), cônjuges de Sean (Hayes MacArthur) e Patsy (Siobhan Murphy), respectivamente. Enquanto Sean vive o irmão mais velho, preocupado em contar ao pai que foi demitido, Patsy faz a irmã emotiva que deseja engravidar e que descobre que será mãe em breve. Entre a moça e Sean há a tensão sobre quem colocará a estrela na ponta da árvore de natal neste ano, uma das tradições exigidas por seu pai todo natal, com a família reunida em torno deste “acontecimento”.

Sobre os “parceiros” de Matt, Joy e Todd, podemos dizer que são os pontos de equilíbrio do rapaz que deseja pedir a sua namorada em casamento, mas diversas trapalhadas o retiram deste caminho. Divertidos e também acossados pelo sogro, em especial, Todd, que não sabe mais o que fazer para agradar à Don, a dupla é uma presença importante na condução do humor na série, grandes responsáveis pelo seu sucesso narrativo. Matt ainda precisa lidar com a histérica Kayla (Ashley Tisdale), cunhada que não sabe bem como conduzirá com a família diante das decisões que precisa tomar adiante, questões não apenas sentimentais, mas também sobre a sua forma de amar, algo “diferente” sob o ponto de vista reto de seu pai.

Nesta família também há Sean Jr. (Mason David), interessado em abdicar do catolicismo, uma das tradições (obrigações) para um membro da família Quinn. Ele é irmão de Donny (Lucas Jaye), personagem que aparece menos, mas que surge como responsável por costurar alguns acontecimentos dentro da história, o que chamamos de arauto na teoria do drama. Em meio aos conflitos internos e externos de todos os envolvidos na história, somos apresentados ao despertar do espírito natalino por meio de situações embaraçosas, dinâmicas e divertidas, captadas pela direção de fotografia de Chris La Fountaine, eficiente, responsável por enquadrar e se movimentar pelos espaços erguidos por Wendell Johnson e sua equipe de design de produção. Acompanhados pela textura percussiva de Gabriel Mann, não faltam menções aos clássicos natalinos, numa série encomendada pela NETFLIX que consegue ser especial, mesmo tratando de temas tão batidos na seara ficcional.

Feliz Natal e Tal – 1ª Temporada (Merry Happy Whatever, EUA – Novembro de 2019)
Desenvolvimento: Tucker Cawley
Direção: Pamela Fryman, Phill Lewis, Gloria Calderon Kellett, Betsy Thomas
Elenco: Denis Quaid, Bridgit Mendler, Brent Morin, Ashley Tisdale, Siobhan Murphy, Adam Rose, Elizabeth Ho, Hayes MacArthur, Mason Davis, Garcelle Beauvais,
Duração: 26 min. por episódio (8 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.