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Crítica | Femme Fatale (2002)

por Leonardo Campos
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Brian De Palma é um dos cineastas mais geniais da história recente do cinema. As peculiaridades narrativas são primorosas. Cada filme seu, independente da experiência, é um exercício cheio de delírios audiovisuais, dos bons. O realizador nunca escondeu as suas inspirações, em especial, o cinema de Alfred Hitchcock. Amado ou odiado por muitos, De Palma já criou diversas mulheres perigosas, obcecadas e fatais em sua filmografia, algo que rende bastante material para estudos críticos e acadêmicos. Em 2002, depois de tantas realizações bem sucedidas, fomos apresentados ao suspense Femme Fatale, narrativa carregada de sensualidade e erotismo, uma abordagem noir instigante, com algumas falhas e inconsistências, mas que não permite o bom espectador passar indiferente.

Se o filme fosse uma aula de cinema, alegoricamente podemos dizer então que se trata de uma metodologia ativa. Você acessa a produção lançada em 2002 e ao longo de seus 114 minutos, contempla o jogo de imagens e simbologias, mas precisa ir além da passividade de muitas produções que nos entregam praticamente as suas explicações em slides. No filme, dirigido e escrito por De Palma, as armadilhas do destino e as aparências enganosas pairam no ar, como em outras produções do cineasta. Laure Ash (Rebecca Romji-Stamos) entra na vida de Nicolas Bardo (Antonio Banderas), um paparazzo voyeur fascinado pela beleza da platinada, sem sequer sonhar com os perigos que a femme fatale apresenta, um “monstro” manipulador disfarçado pelos encantos de sua beleza física padrão, com postura semelhante ao canto das sereias que levou boa parte da tripulação de Ulisses no poema homérico.

Laure é uma ladra eficiente que está no Festival de Cannes para extorquir algumas joias que fazem parte do novo esquema de sua equipe de furtos. O problema é que ao enganar os envolvidos e fugir com os diamantes para Paris, ela começa a ser perseguida e precisa camuflar a sua identidade para não ser encontrada. Deste ponto, começam a surgir as coincidências. Ela é confundida com uma morena recém-falecida, toma posse na vida de Watts (Peter Coyote), um diplomata estadunidense, momento em que sua vida aparentemente ajustada ganha novos rumos. Ela se torna alvo da obsessão do personagem de Banderas. Com a imagem exaurida pelos mecanismos da sociedade do espetáculo, torna-se visível para o mundo que desejava manter-se isolada. É quando começa a ser procurada pelos comparsas traídos.

Em sua teia, essa viúva negra envolve a todos que se deixam levar por seus truques de sedução. Os personagens trafegam pelas imagens captadas por Thierry Arbogast, diretor de fotografia guiado pelas orientações de Brian De Palma, realizador conhecido por sua assinatura em cada produção. A condução sonora de Ryuichi Sakamoto permeia as imagens de maneira eficiente, dando ao filme um tom sedutor coerente com as imagens intensas, oriundas de outro setor que trabalha muito bem: o design de produção de Anne Pritchard. A sua equipe, composta por Denis Renault na direção de arte e Françoise Benoit-Fresco na cenografia é bastante meticulosa nos detalhes que compõem as cenas enquadradas e iluminadas por Arbogast, conexão entre uma equipe que colabora na entrega de um material visualmente deslumbrante.

Outro elemento de importância para o desenvolvimento dos personagens é o figurino, assinado por Olivier Bériot, setor que dialoga bem com o exercício de estilo proposto por De Palma. Ademais, o que podemos observar em Femme Fatale é uma história contada de maneira visceral no tratamento estético, mas que narrativamente depende bastante das coincidências para acontecer. Lembro-me perfeitamente da crítica da época, dividida entre considerar o filme uma obra-prima ou destrata-lo como algo menor para alguém que já fez Scarface, Vestida Para Matar, O Pagamento Final, etc.  Mantenho a minha reflexão na linha do nem tanto nem tão pouco. O filme é interessante sim, os exageros estão firmes e fortes como sempre, afinal, depois do desfecho de Síndrome de Caim, Dublê de Corpo e Um Tiro na Noite, compreendi de fato os mecanismos que engendram as escolhas estéticas e dramáticas de Brian De Palma.

Como não podia deixar de ser diferente, afinal, os tributos ao mestre do suspense nunca foram disfarçados, Femme Fatale traz conexões metalinguísticas com o universo de Hitchcock ao emular traços de Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai. Um reflexo da personagem fatal do filme, diante de uma televisão que exibe Pacto de Sangue, de Billy Wilder, reforça as trocas que não ficam apenas nas identidades enganosas, mas também no campo da intertextualidade. Meticulosa, fria e calculista, a personagem de Rebecca Romji-Stamos se aproxima das fatais multifacetadas do cinema por meio de sua destruição das masculinidades que trafegam pelos caminhos das incertezas.

Ela não quer o marido de outro cara, tampouco ser a esposa de alguém por longo tempo, tendo em vista caminhar em jardins floridos. O seu desejo é mesmo a autossatisfação, o consumismo, o prazer diante do gozo sem culpa e despreocupado com compromissos e outras solenidades. Diante do exposto, ela é uma “destruidora”, contemplada por um realizador que atua dentro das demandas industriais, mas conseguem exercer o seu estilo com proeza, o cineasta faz em Femme Fatale um panorama das escolhas narrativas realizadas ao longo de sua carreira até então. Mergulhados em convenções narrativas oriundas de linhas de produção homogeneizadas, precisamos manter certo afastamento de filmes desse tipo, tendo em vista traçar uma análise que seja minimamente justa e adequada.

Sem as obviedades que esperamos por conta do costume em filmes de mulheres fatais avassaladoras, isto é, sedução, ataque e desfecho, com destruição ou não do monstro, no intuito de tornar o mundo um lugar bom e seguro novamente, a produção em questão quebra bastante as nossas expectativas. Investe em sonhos que podem ou não ter acontecido, quebra as barreiras entre o onírico e a realidade, nos faz calcular as cenas como se estivéssemos numa equação e ao tirar a narrativa da linha que explica tudo minuciosamente, causa o tal estranhamento que desagrada as mentes preguiçosas de muitos espectadores. Caso seja do interesse, pare e observe bem a permanência e vigor do sangue com tons vermelhos na camisa de um personagem por longo tempo, bem como a relação dos relógios e sua marcação constante em 3:35, além da metáfora sonora entre o aquário e a banheira. Se percebeu tais detalhes, creio que você tenha entendido o filme da mesma maneira que eu. Acredito ter sido a proposta de Brian De Palma. O que acha?

Femme Fatale (idem – Estados Unidos/França, 2002)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma
Elenco: Antonio Banderas, Edouard Montoute, Eriq Ebouaney, Peter Coyote, Rebecca Romijn, Rie Rasmussen, Thierry Frémont
Duração: 114 min.

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4 comentários

Carlos Henrique 8 de julho de 2020 - 23:30

Uma das várias obras-primas do maior cineasta vivo. Meu 2º filme preferido dele, top 10 da década de 2000 e tá no meu top 100 da vida.

O plot twist, supostamente roubado – ou, no mínimo, pegou de inspiração – de outro filme da mesma época (não vou falar qual mas quem viu sabe a qual filme me refiro) é puro De Palma. Puro cinema.

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paulo ricardo 22 de julho de 2019 - 20:41

Acho esse filme bem fraquinho , n tá nem de longe nos melhores momentos do De Palma !

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cristian 16 de julho de 2019 - 14:38

Não acho esse filme digno de entrar na filmografia do cineasta, prefiro Dália Negra dos seus últimos filmes que já não era memorável. Mais depois de Guerra sem Cortes (uma abominação) e Passion fico na duvida do que De Palma pode oferecer. Esse ano temos dois filmes em seu nome, veremos…

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Gabriel Carvalho 16 de julho de 2019 - 03:39

“Brian De Palma é um dos cineastas mais geniais da história recente do cinema”! Disse tudo logo na primeira linha. Ótimo texto!

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