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Crítica | Fera Selvagem

por Leonardo Campos
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Num universo cinematográfico com serpentes, leões, tubarões e outros animais transformados em monstros perigosos, por que não investir no javali? O cinema australiano já investiu duas vezes nesta criatura peculiar e a mais recente, Fera Selvagem, é tão burlesca e dinâmica quanto a primeira, O Corte da Navalha, de 1984, também conhecido por Razorback – As Garras do Terror. Ao longo das narrativas mencionadas, este porco selvagem com grunhindo assustador e parte integrante do nosso imaginário ocidental, em especial, o Javali de Erimanto, responsável por dar um grande trabalho ao heroico Hércules, ocupa o lugar de monstro. É uma figura que passa a ideia de força, ideia utilizada por Ricardo III em seus brasões. No filme dos anos 1980, o javali aterroriza uma cidade do interior australiano, abismada pela selvageria de mortes empreendidas por um monstro que durante um longo tempo, traça um rastro de sangue considerável, numa região que precisa lidar com outras subtramas que não chegam aos pés da periculosidade do tema central, isto é, o monstro assassino, mas ainda assim, importam.

Três décadas depois, com apoio da equipe de efeitos visuais supervisionados por Jordan Bartellet, um novo javali surge para ampliar a lista de participações de suas espécies no subgênero horror ecológico. E com apoio total do CGI, associado aos efeitos especiais da equipe de Julian Summers, setor que além da colaboração da onipresença do animal, ajuda com os animatrônicos e demais truques. Sob a direção de Chris Sun, cineasta guiado pelo roteiro escrito em parceria com Kirsty Dallas, Fera Selvagem acompanha a saga da família Monroe, num passeio de final de semana pelo outback australiano, região que será contemplada como um lugar para descanso e prazer apenas nos primeiros momentos dos 96 minutos da narrativa fincada no horror (exageradamente) explícito e (demasiadamente) sangrento, mixagem de momentos com altas doses de humor e medo. Lá, eles não encontram um javali que é parte de uma mutação genética, mas uma criatura de porte colossal incomum, turbinada pelas próprias condições naturais, um ser asqueroso, violento e gigantesco, com os instintos aguçados para executar a única missão que lhe parece destinada: a predação dos humanos.

Quem contempla o grupo é o casal Debbie (Simone Buchanan) e Brice (Bill Moseley), pais do jovem Bart (Griffin Sheridan) e da espevitada Ella (Christie-Lee Written), acompanhada de seu noivo Robert (Hugh Sheridan). Eles vão visitar Bernie (Nathan Jones), o irmão de Debbie. Ao chegar na região, divertem-se ao máximo até que a surpresa estrague tudo. Os banhos no lago, o sol aconchegante e o clima de diversão em família logo é trocado por um festival de mortes e perseguições exaltados pelo trabalho de Michael Newton no design de som e pela textura percussiva de Mark Smythe, pesada em seus metais, apoiada pelos excessos de jumpscare. Na direção de fotografia, Andrew Conder cumpre bem a sua função de contemplar o filme com boa iluminação, uma falha constante em produções de terror com passagens noturnas. Até mesmo no meio da floresta, com toda opacidade que a escuridão e a vegetação impõem nestes espaços, conseguimos acompanhar a narrativa sem prejuízo. Seu trabalho também é adequado no cálculo equilibrado com os efeitos visuais e especiais, dando ao filme a contribuição para os trechos onde a imaginação dá conta do recado, isto é, transmitir a sensação onipresente do monstro.

Ademais, Fera Selvagem ainda traz o arquétipo do caçador, interpretado aqui por John Jarrat, o monstruoso antagonista da franquia Wolf Creek. Ele é o responsável por aniquilar o monstro, pai de Sasha (Melissa Tkautz), personagem que sai da postura de coadjuvante e se torna central próximo ao desfecho. No desenvolvimento da história, no entanto, os atributos técnicos adequados não favorecem o desdobrar do material dramático, pois o roteiro é muito pecaminoso na aleatoriedade dos ataques, no excesso de conveniências e nos diálogos soltos e fracos. Não é porque a trama é sobre um ataque animal que a narrativa tenha que deixar de lado a qualidade dramática de sua história.

As mortes também excedem qualquer produção slasher. O sangue é verossimilhante com o que talvez ocorra numa situação de interação inesperada entre uma criatura tão animalesca e a fragilidade do ser humano que aqui, torna-se pequenino diante das dimensões do bicho. Além disso, o javali aparece bastante, estratégia que pode incomodar aqueles que acreditam no excesso de presença como diminuição do potencial de monstro enigmático, mas se talvez aparecesse pouco, reclamaríamos de monotonia, palavra que passa longe de Fera Selvagem, horror ecológico que é turbinado até demais.

Fera Selvagem (Boar, Austrália – 2017)
Direção: Chris Sun
Roteiro: Chris Sun, Kirtsy Dallas
Elenco: John Jarrat, Bill Moseley, Nathan Jones, Hugh Sheridan, Roger Ward, Simone Buchanan, Melissa Tkautz, Chris Haywood, Madeleine Kennedy, Trudi Ross
Duração: 96 min.

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