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Crítica | Ferrugem (2018)

por Felipe Oliveira
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Consequências também são compartilhadas”, dizia o slogan nos cartazes de Ferrugem, terceiro filme ficcional do cineasta baiano Aly Muritiba como diretor — depois do drama Para Minha Amada Morta em 2016, e Nois por Nois em 2017 — o qual fez sua estreia no Festival de Sundance em 2018 e abocanhou o prêmio de melhor filme (Kikito) no Festival de Gramado, quando exibido no mesmo ano. Ainda que pouco fosse sabido sobre a trama do longa-metragem, os pôsteres de divulgação despertavam curiosidade, ao ter os personagens posando com smartphones em mãos, apontando como armas em suas cabeças ou pescoço. O conceito apelativo foi afiado em sinalizar para o escopo da trama, ao tempo que contrastava os personagens. Pouco falamos disso, mas é inegável como estamos sempre muito atrelados à praticidade, ferramentas e plataformas espelhadas em um dispositivo portátil que compacta inúmeras funcionalidades, o que se faz necessária a atenção para uma parcela da cultura que movimenta usuários de maneira universal, seja também engrenagem que nos torna reféns: o compartilhamento. Por isso, o roteiro do drama que Aly assinou ao lado da estreante Jessica Candal, vinha provocando uma discussão acerca de um problema com efeitos negativos tão corrosivos.

Dividido em duas partes, o drama acompanhou os desdobramentos após o compartilhamento de um vídeo íntimo pelo Whatsapp. Embora pareça simples em sua abordagem, foi ao construir de forma objetiva as proporções nocivas do crime virtual que Ferrugem conseguiu transmitir e envolver a importância do seu diálogo. Focado no público jovem adulto, para elucidar sua temática e criar um objeto base de retratação, Aly utilizou de forma inteligente um demonstrativo de como a juventude se relaciona com a Internet e seus meios. A cena se passava durante uma excursão escolar num aquário, e a primeira captura nos apresenta uma espécie de peixe — a qual desconheço —, para em seguida mostrar que se tratava do que Tati (Tifanny Dopke) registrava em seu aparelho celular.

Assim, segue a jovem encantada com o que está contemplando e armazenando — e agora o que vemos, é através da tela do seu smartphone — e é curioso como toda a sequência é envolta num silêncio particular que faz parte do que caracteriza o mundinho da garota espontânea e radiante. A abertura acertou ainda mais em cheio quando os demais colegas de classe chegam tumultuando e, em vez de tomarem nota da visita cultural, ficam acalorados tirando selfies, como se não pudesse faltar a “validação” de onde estiveram e o que fizeram para as Redes Sociais: “e depois, vai olhar na Internet a mesma coisa que está vendo aqui“, solta Davi (Enrique Díaz), professor que acompanha a turma. Já a partir deste exemplo tão identificável e frequente, Aly começava a deslizar sobre nosso comportamento hiperconectado através de Tati, sua protagonista, utilizando de linguagem e planos que permeiam os internautas, até chegar no ponto crucial para traçar sua temática.

Mesmo que o Código Penal reúna uma lei a qual descreve quando um compartilhamento sem consentimento de imagens de terceiros se configura como crime, a reação imediata sem empatia e mais comum em casos de exposição de privacidade é, “Por que gravou?”; “Por que manteve isso salvo?”, deixando de lado o tratamento devido para com a vítima, e principalmente, diante do cenário de ataque social envolvendo a cultura de bullying, cyberbullying, revenge porn e masculinidade tóxica; todos esses problemas acompanharam a derrocada repentina que cai sobre Tati ao ter um vídeo íntimo repassado para toda a escola — e os planos fechados e planos detalhes foram precisos para apontar a mudança de um olhar autêntico e contagiante da jovem, para um olhar de desespero e vergonha — e que Ferrugem retratou como são engolidos em meio a intensidade que o compartilhamento virtual vai assumindo. O agravo de tal exposição retrata a misoginia que, enquanto reverbera a culpa para a mulher, vai diminuindo até excluir da equação quem iniciou o compartilhamento, como também, as dimensões que, uma vez na Internet, imputa mais e mais um caráter depreciativo e descontrolado do conteúdo, exemplos que Aly Muritiba soube bem incrementar, ainda que num apressada apresentação dos acontecimentos.

Obviamente, Tati poderia ser o metal que, como alusão, entrou em estado de corrosão ao ter sua intimidade exposta num piscar de olhos, bem como a ferrugem corrói o metal pouco a pouco em efeito do oxigênio ou umidade do ar. Mas quando se trata do compartilhamento, a ferrugem aqui não se restringe a um só indivíduo, e nisso, se encontra a logicidade por trás do título, na maneira em que o fruto do compartilhamento atribui-se para a vítima, sobretudo, os pontos de reação que vai atingindo, até culminar no ato chocante que impulsiona a virada para a segunda parte que o roteiro de Aly e Jessica quiseram destrinchar. O sentido também do nome se apresenta no que a trama se propôs a explorar, ao não se ater apenas em Tati, mas direcionando o foco aos culpados e no debate em torno de suas inclinações.

Apesar de discorrer quase que com a mesma divisão de tempo nas duas partes da narrativa, os eventos no primeiro ciclo ocorreram de maneira bem mais acelerada e talvez, até com elementos fáceis que poderiam ter sido melhor explorados. Decerto, esse ritmo mais direito tenha passado a sensação de abandono no tom para uma mudança brusca no andamento a fim de uma conclusão mais rápida desse arco introdutório, porém, ainda conseguindo ressoar seu impacto e discussão sobre os efeitos danosos de compartilhar. Como disse, Ferrugem pode parecer muito simples e também óbvio ao não incitar mistério sobre onde começou o compartilhamento, e tal informação é clara para entendimento do telespectador. Essa escolha certeira, foi o que aproximou a sua discussão a ser mais realista e não deixar pontas soltas acerca de uma trama que percorria sobre a responsabilidade e consequência dos atos, por isso, bem como o título, a sequela se estendia, dos jovens aos pais, o que mostrou como Aly buscava explorar cada zona que essa ferrugem atinge e encaixar as possíveis reações, e então concluir esse retrato dramático e urgente sobre as proporções tóxicas do compartilhamento.

Ferrugem (Brasil, 2018)
Direção: Aly Muritiba
Roteiro: Aly Muritiba, Jessica Candal
Elenco: Tifanny Dopke, Giovanni de Lorenzi, Enrique Diaz, Pedro Inoue, Clarissa Kiste, Nathalia Garcia, Duda Azevedo, Gustavo Piaskoski
Duração: 105 min.

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